Coreia do Norte realiza o primeiro teste de mísseis durante governo Biden

No último fim de semana, dois projéteis foram lançados; funcionários do alto escalão do país afirmam que é um sistema de 'curto alcance'

Zachary Cohen, Oren Liebermann, Barbara Starr e Kevin Liptak, da CNN
24 de março de 2021 às 11:20 | Atualizado 25 de março de 2021 às 00:53

A Coreia do Norte realizou seu primeiro teste de armas nucleares desde que o presidente Joe Biden assumiu o cargo, de acordo com três autoridades norte-americanas. No último fim de semana, houve o lançamento de dois projéteis em uma ação que funcionários do alto escalão minimizaram como estando “na extremidade inferior do espectro” de atitudes provocativas que o regime poderia realizar.

O teste era amplamente esperado, já que autoridades e especialistas previam há muito tempo que o líder norte-coreano Kim Jong Un tentaria enviar uma mensagem ao governo Biden sobre a importância do país na região.

Um funcionário dos EUA disse à CNN que a Coreia do Norte havia lançado projéteis de curto alcance, possivelmente artilharia ou mísseis de cruzeiro, não mísseis balísticos – uma distinção fundamental que reforça a visão do governo Biden de que não se qualifica como violação grave e não impedirá os EUA de buscar a diplomacia com Pyongyang.

“Não vemos a atividade que ocorreu no fim de semana como o fechamento dessa porta”, disse um funcionário do alto escalão na terça-feira (23), referindo-se a futuras tentativas de diplomacia.

Biden, questionado na terça-feira sobre o que havia aprendido sobre o teste, respondeu a repórteres antes de embarcar no Força Aérea Um em Ohio: “Aprendemos que há muita coisa que não mudou”.

Líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un
Foto: KCNA via Reuters (7.mar.2021)

 

Embora funcionários da administração minimizem a seriedade das ações da Coreia do Norte, eles reiteraram que as forças dos EUA na região estão sempre preparadas e em alerta máximo.

“Seria difícil encontrar um lugar no planeta onde houvesse mais vigilância do que as circunstâncias e a situação que cercam a Coreia do Norte. Nossas forças estão sempre preparadas, sempre em alerta máximo”, disse um funcionário da Casa Branca.

“É comum que a Coreia do Norte teste vários sistemas (...) não respondemos publicamente a todos os tipos de teste”, acrescentou outro funcionário. “Este é um sistema que não é coberto pelas resoluções do Conselho de Segurança da ONU. É uma parte normal do tipo de teste que a Coreia do Norte faria. Não acreditamos que seja do nosso interesse exagerar nessas coisas em circunstâncias nas quais consideraríamos fazer essas atividades como parte de um conjunto ‘normal’ de um ambiente militar tenso, como vemos na Península Coreana”.

As notícias sobre o teste de armas chegam enquanto a Coreia do Norte está relativamente quieta desde o fim de semana, evitando propagar suas proezas militares ou capacidade de enfrentar os Estados Unidos. Com isso, deixa as autoridades se perguntando sobre a intenção por trás do lançamento.

A Coreia do Sul e o Japão, aliados regionais dos Estados Unidos, estavam igualmente calados.

Os militares da Coreia do Sul detectaram o lançamento de dois mísseis de cruzeiro na manhã de domingo (21), relatou o Ministério da Defesa em texto a repórteres.

“Nossos militares estavam monitorando mísseis em tempo real em cooperação com os EUA e detectaram [os mísseis]”, disse. O ministério está analisando as especificações dos mísseis.

Ha Tae-keung, legislador sul-coreano, avisou em um post no Facebook que as autoridades decidiram não anunciar o lançamento como fizeram no passado.

Revisão da política de Biden para a Coreia do Norte

O teste, que foi relatado pela primeira vez pelo The Washington Post na terça-feira, marca o primeiro teste de armas conhecido pela Coreia do Norte desde que Biden assumiu o cargo e ocorre enquanto seu governo ainda está ponderando suas opções para lidar com a ameaça nuclear do regime.

No início deste mês, várias fontes familiarizadas com as discussões internas destacaram que legisladores e principais aliados dos EUA estão aguardando ansiosamente os detalhes sobre a política de Biden na Coreia do Norte, que eles esperam ser anunciados publicamente nas próximas semanas, quando o governo concluir uma revisão da política.

Autoridades norte-americanas disseram, na terça-feira, que a revisão da política está em seus “estágios finais” e que o conselheiro de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan, receberia seus homólogos japoneses e sul-coreanos na próxima semana em Washington para discutir o assunto com profundidade.

A decisão da Coreia do Norte de conduzir um teste de armas antes desse anúncio não é surpreendente, já que autoridades, legisladores e especialistas dos EUA vêm alertando há semanas que o Reino Eremita provavelmente conduziria algum tipo de teste de armas em um futuro próximo.

“A Coreia do Norte, tradicionalmente, tem feito algum tipo de ação fortemente provocativa no início das novas administrações dos Estados Unidos e da Coreia do Sul”, disse Bruce Klingner, pesquisador sênior da Fundação Heritage, apontando para os testes realizados em 2017, pouco depois que o ex-presidente Donald Trump assumiu o cargo e, em 2009, para marcar a chegada de Barack Obama à Casa Branca.

“Portanto, a história indicaria que eles também fariam algo nos primeiros meses de uma administração Biden”, complementou. “Se eles fazem uma provocação, é perfeitamente previsível”.

Mas a ação norte-coreana foi menos provocativa do que nas administrações anteriores.

Jeffrey Lewis, professor do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, especializado em inteligência de código aberto, disse à CNN que a Coreia do Norte parece ter testado um míssil de cruzeiro de defesa costeira, que parece ser “bastante rotineiro, considerado uma resposta muito branda ao exercício militar EUA-Coreia do Sul”.

“Em uma escala de 1 a 10, com 10 sendo teste de um novo míssil balístico intercontinental e 1 sendo Kim jogando em nossa direção geral, este é um 2”, acrescentou.

A CNN informou, na semana passada, que a inteligência dos EUA avaliou que a Coreia do Norte poderia estar se preparando para realizar seu primeiro teste de armas nucleares desde que Biden foi empossado como presidente e que as autoridades norte-americanas estavam em alerta enquanto o secretário de Estado, Tony Blinken, e o secretário de Defesa, Lloyd Austin, viajavam à Ásia para reuniões com seus colegas japoneses e sul-coreanos.

Blinken e Austin já deixaram a região, mas o teste do míssil norte-coreano ainda levanta questões sobre como o governo Biden vai decidir responder publicamente.

Essa resposta irá variar dependendo do que, exatamente, Pyongyang testou. Funcionários do alto escalão se recusaram a fornecer detalhes sobre o tipo específico de sistema que a Coreia do Norte testou no fim de semana, mas reiteraram que se trata de um sistema de “curto alcance”.

Entrando em contato com funcionários de Trump

Enquanto o governo Biden realizava uma revisão completa de sua política em relação à Coreia do Norte, funcionários da Casa Branca e do Departamento de Estado mantiveram uma série de conversas extensas com seus colegas da equipe de Trump, de acordo com autoridades da atual administração.

As conversas foram “educadas”, “respeitosas” e “muito úteis’ para determinar o potencial de futuro envolvimento com a Coreia do Norte. Após o fracasso da cúpula de Trump com Kim em Hanói, Vietnã, houve pouco diálogo substantivo ou interação com Pyongyang.

Nessas negociações, as autoridades de Trump atribuíram a interrupção da comunicação com a Coreia do Norte a uma variedade de razões potenciais, entre elas a pandemia de Covid-19 e uma reavaliação dentro da Coreia do Norte.

A equipe de Biden acredita que a diplomacia não está fora de questão.

Segundo um funcionário, “estamos em nosso caminho para sinalizar claramente que estamos preparados para continuar o envolvimento no Nordeste da Ásia com os principais parceiros e, de fato, com a Coreia do Norte”.

As autoridades disseram que aprenderam muito com seus colegas de Trump sobre as discussões que Trump teve com Kim em Cingapura e no Vietnã e sobre outras sessões privadas entre as delegações norte-coreanas e norte-americanas.

Na semana passada, Kim Yo Jong, irmã do líder da Coreia do Norte, alertou o governo Biden contra “causar um mau cheiro em seu primeiro passo”, horas depois que a Casa Branca disse que não havia recebido uma resposta às propostas diplomáticas que vinha fazendo a Pyongyang.

No dia seguinte, o Departamento de Estado dos EUA emitiu um comunicado em que Blinken e Austin reafirmaram seu compromisso com a “desnuclearização completa da Coreia do Norte” no Japão e com a criação de oportunidades para maior cooperação entre os EUA, Japão e Coreia do Sul.

Na última terça-feira, um general sênior dos EUA também emitiu um alerta público sobre a ameaça representada pela Coreia do Norte.

“O regime de Kim Jong Un obteve um sucesso alarmante em sua busca para demonstrar a capacidade de ameaçar a pátria dos EUA com ICBMs com armas nucleares, acreditando que tais armas são necessárias para deter a ação militar dos EUA e garantir a sobrevivência de seu regime”, enfatizou o general Glen Van Herck, chefe do Comando Norte e responsável pela defesa do território continental dos Estados Unidos, na semana passada.

Nicole Gaouette, da CNN, Maegan Vazquez, Jake Kwon e Kylie Atwood contribuíram com a reportagem.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)