'Família é assim': Príncipe Edward fala sobre Harry e Meghan e o luto da rainha

Filho mais novo de Elizabeth e Philip disse que a situação do duque e duquesa de Sussex é 'muito difícil' e elogiou o trabalho filantrópico do pai

Lauren Said-Moorhouse, Max Foster e David Wilkinson, da CNN, em Londres
10 de junho de 2021 às 11:39
Príncipe Edward
Príncipe Edward, filho mais novo da Rainha Elizabeth e Príncipe Philip, em entrevista exclusiva à CNN
Foto: CNN

Edward, conde de Wessex, espia pela porta da sala no Palácio de St. James e ri das inúmeras câmeras instaladas para a entrevista. “Vocês têm o suficiente?”, ele ri.

O filho mais novo da rainha, 57 anos, parece estar de bom humor neste belíssimo dia de calor em Londres, apesar da ocasião. É que 10 de junho teria sido o 100º aniversário do pai de Edward, o príncipe Philip, e ele está marcando a data refletindo sobre o legado do duque de Edimburgo e a premiação que leva seu nome.

Mas há um incômodo no ar. Horas antes da entrevista exclusiva para a CNN dos Estados Unidos com o conde, o duque e a duquesa de Sussex (Harry e Meghan Markle) foram forçados a negar uma reportagem na mídia britânica, dizendo que não haviam consultado a rainha sobre o uso de seu apelido de infância, Lilibet, para batizar a filha recém-nascida.

As manchetes investigando o relacionamento entre o jovem casal e o resto da família têm sido frequentes desde que eles abandonaram seus papéis como membros da realeza no ano passado e se mudaram para a Califórnia. Respondendo a uma pergunta sobre as atuais tensões familiares, Edward disse que a situação é “muito triste”.

"Acho que todos nós, de um jeito meio estranho, já passamos por isso. Todos nós tivemos intromissão e atenção excessivas em nossas vidas. E todos lidamos com isso de maneiras ligeiramente diferentes e desejamos a eles boa sorte. É uma decisão muito difícil."

Príncipe Edward sobre as notícias de Harry e Meghan

 

Harry e Meghan sempre falaram sobre as pressões da vida na realeza e o olhar incessante de todos. Em uma entrevista bombástica com Oprah Winfrey em março, o duque disse que o acompanhamento implacável da imprensa foi um dos fatores decisivos na mudança da família para os Estados Unidos. Em sua conversa com Oprah, a duquesa também revelou que tinha pensado em suicídio durante sua primeira gravidez e que houve perguntas sobre a cor da pele de seu filho, Archie, antes de seu nascimento.

O príncipe Edward diz que espera que o casal seja feliz ao tocar no assunto da rixa, sugerindo que desentendimentos acontecem em todas as famílias.

“É difícil para todos, mas família é assim”, afirmou.

Por várias razões, os últimos meses estiveram entre os mais desafiadores já vividos pela família real da Grã-Bretanha, que ainda está enlutada pela perda de seu patriarca em abril. Devido às medidas da Covid-19 na época, os preparativos para o funeral foram consideravelmente reduzidos de acordo com os padrões reais e o número de participantes foi limitado a apenas 30 pessoas.

“Foi uma experiência pela qual tantas outras famílias tiveram que passar durante o último ano ou 18 meses e, nesse sentido, foi particularmente comovente”, disse Edward. “Há uma quantidade enorme de pessoas que não conseguiram expressar suas condolências como gostaria. Acho que muitos gostariam de ter estado lá para apoiar a rainha”.

Rainha Elizabeth II no funeral de seu marido, Príncipe Philip
Rainha Elizabeth II no funeral de seu marido, Príncipe Philip
Foto: Jonathan Brady/WPA Pool/Getty Images

A rainha segue em frente

Sob a liderança da rainha, como sempre, os membros seniores da família real retornaram às suas funções e estão mais uma vez cumprindo uma agenda lotada de chamadas de vídeo e compromissos pessoais.

Questionado sobre como a monarca de 95 anos está se saindo após a perda de seu companheiro por 73 anos, Edward respondeu que ela está “realmente indo muito bem”.

“Acho que foi uma parceria fantástica, mas nas últimas semanas, a vida ficou muito mais ocupada. Há mais abertura, mais atividades, então acho que isso meio que preenche qualquer vazio em particular”, opinou.

“Acho que teremos outras ocasiões ao longo do ano que serão mais comoventes e mais difíceis. Mas, no momento, e muito obrigado por perguntar, acho que todos estão muito bem, só que trabalhando um pouco demais”.

“Um pouco demais” pode ser um eufemismo. Apesar de sua idade avançada, a monarca manteve uma rotina exigente nos últimos anos. Mesmo antes de o coronavírus arrasar o Reino Unido em março passado, ela havia realizado 296 compromissos entre 2019 e 2020.

Incapaz de fazer tudo sozinha, a monarca conta com várias gerações de parentes próximos para completar mais de três mil compromissos em seu país e no exterior a cada ano.

Encontro de Biden e a rainha Elizabeth

Edward e sua esposa, Sophie, condessa de Wessex, estão desempenhando um papel cada vez mais ativo no apoio à rainha após a mudança de Harry e Meghan para a Califórnia, bem como a retirada do príncipe Andrew de funções públicas por causa de sua associação com o Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado que se matou na prisão.

“Tentar estar lá como um ouvido amigo às vezes é muitíssimo importante”, confessou Edward.

Uma reunião importante na agenda da rainha esta semana será seu primeiro encontro pessoal com o presidente dos EUA, Joe Biden, que está na Grã-Bretanha para a última cúpula do G7. A reunião de domingo será a primeira entre os dois líderes desde que Biden assumiu o cargo em janeiro – e ele será o 14º comandante-em-chefe dos Estados Unidos com quem ela se reúne.

Edward diz que a reunião é uma “oportunidade perfeita” para os dois se conhecerem.

“Todos nós, como família, tínhamos laços muito próximos com os Estados Unidos. Gastávamos ou passávamos, não tanto agora, mas passávamos muito tempo indo e voltando, mantendo esses vínculos, as conexões, a herança... Passamos por muita coisa juntos. E é disso que se trata uma amizade realmente boa”.

O que a dupla vai discutir é uma incógnita para todos, incluindo Edward. O fato de as conversas com a monarca permanecerem privadas nos tempos atuais “é um pouco estranho”, disse o príncipe.

"As pessoas respeitam o fato de que esta é uma conversa genuinamente privada, extraoficial, para que possam falar e chegar ao cerne das questões de uma forma muito genuína, porque sabem que nada será revelado."

Príncipe Edward sobre a conversa entre Joe Biden e a Rainha Elizabeth II

 

Prêmio Duque de Edimburgo

No lugar de revelar suas conversas, algo que a realeza sempre defendeu publicamente é abordar publicamente seu compromisso com o serviço público, uma área em que o príncipe Philip era um inovador. Sua maior conquista provavelmente foi o Prêmio Duque de Edimburgo, um programa de desenvolvimento da juventude que ele estabeleceu em 1956.

“Trata-se de uma estrutura de atividades. Ele encorajava jovens e adultos a se envolverem em atividades não formais ou no aprendizado fora da sala de aula”, diz Edward. “E, claro, capacitou adultos e jovens a assumir o controle de seus destinos. Não importa onde no mundo esse jovem ou adulto esteja, é a mesma coisa”.

“É por causa desse alcance que ele se espalhou por 130 países e está indo particularmente bem nos Estados Unidos. Começou meio tarde, mas é algo fantástico. No caso dos Estados Unidos, algo muito empolgante é que quase 50% das pessoas envolvidas são do que chamaríamos de jovens em risco ou marginalizados e desfavorecidos, algo incrível porque são os jovens que podem realmente se beneficiar disso”.

Príncipe Philip do Reino Unido
Príncipe Philip do Reino Unido
Foto: Reprodução/Twitter @RoyalFamily (18.dez.2020)

Muitos dos ex-alunos do programa falam com carinho de suas experiências.

“Gostei muito do fato de prêmio ser tão diversificado, ter muitos componentes diferentes”, disse Kristina Ayanian, uma analista sênior de listagens de 24 anos da Nasdaq, detentora de medalhas de bronze, prata e ouro do Prêmio Internacional do Duque de Edimburgo.

“Tive de ser voluntária no banco de alimentos local a partir da minha medalha de bronze, e vi de perto como a insegurança alimentar é tão proeminente em nossas vidas. Essa conexão para retribuir à minha comunidade ficou comigo”.

Desde então, Ayanian continuou seu trabalho contra a fome, organizando uma campanha de alimentos em Boston quando a pandemia atingiu a cidade, trabalhando com empresas e indivíduos locais para apoiar abrigos e hospitais. “Fiz uma parceria com empresas, distribuidores, restaurantes e pessoas dedicadas para realmente fazer a nossa parte em ajudar nossa comunidade durante esses tempos difíceis. Mas tudo decorre desse prêmio e do impacto que ele realmente causou na minha vida”, contou.

Príncipe Harry e Príncipe Philip
Príncipe Harry e Príncipe Philip
Foto: Phil Walter/Getty Images

“Cuidar das outras pessoas”

Ayanian diz que o alcance internacional atual do programa é uma parte importante do legado do príncipe Philip.

“Ele causou um grande impacto não apenas na juventude do Reino Unido, mas globalmente, e acho que isso é o que é tão impressionante com seu trabalho”, elogiou. “Tenho orgulho de fazer parte de seu legado. É realmente uma honra”.

Um representante que continua sua jornada de premiação é Víctor Echániz, de 19 anos. Parte do programa nos últimos cinco anos, o aluno de destaque do Berklee College of Music também está servindo atualmente como um Líder Alumni no Prêmio Internacional Duque de Edimburgo nos EUA enquanto conclui seu próprio nível de medalha de ouro.

“Acho que é uma das melhores coisas que um jovem adulto pode fazer”, afirmou Echániz. “A gente participa dessas jornadas de aventura, nas quais começa a trabalhar em liderança, na construção de sua equipe e em sua exploração, e busca novas paixões”.

Príncipe Edward e Príncipe Philip
Príncipe Edward e Príncipe Philip
Foto: Mark Cuthbert/UK Press/Getty Images

Edward também vê o legado de seu pai nas muitas vidas que ele silenciosamente ajudou a mudar.

“Ele sempre foi incrivelmente modesto, não foi? Era uma questão de cuidar das outras pessoas. Ele apenas deu o empurrãozinho, o encorajamento e elas seguiram em frente”, disse. "E, tragicamente, só depois que ele faleceu é que todos pensaram: ‘Uau, olha o que ele fez’. E, claro, é tarde demais, ele nunca soube [desse reconhecimento]. Mas eu suspeito que, se ele tivesse chegado ao seu 100º aniversário, muito disso teria sido revelado, e teria sido lindo se ele mesmo tivesse ouvido”.

“Mas, porque ele era tão modesto, simplesmente não iria querer o alvoroço e o incômodo. Ele não era assim, não era mesmo”.

Matthew Brealey e Luis Graham-Yooll, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido e adaptado. Leia o original em inglês.)