Biden e Putin se encontram pela primeira vez em meio à escalada de tensões

Presidentes dos Estados Unidos e Rússia se reunirão em Genebra com relações no 'ponto mais baixo dos últimos anos', conforme classificaram

Anna Satie*, da CNN em São Paulo
16 de junho de 2021 às 04:30

Os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden, e da Rússia, Vladimir Putin, terão nesta quarta-feira (16) em Genebra, na Suíça, o primeiro encontro cara a cara desde que o norte-americano assumiu o cargo em janeiro deste ano.

A conferência acontece durante o "ponto mais baixo dos últimos anos" da relação entre os dois países, conforme descreveu Putin e concordou Biden em entrevistas recentes. Na mesa, devem estar temas espinhosos, como as sanções aplicadas pelos EUA aos russos em abril, acusações de interferência eleitoral e de crimes cibernéticos, a soberania da Ucrânia e a prisão do opositor russo Alexei Navalny, detido sob a acusação de "extremismo".

Em abril, o embaixador norte-americano na Rússia, John Sullivan, deixou Moscou após o Kremlin sugerir que ele voltasse ao país dele para consultas. Antes, o embaixador russo nos Estados Unidos, Anatoly Antonov, foi chamado de volta de Washington após Biden chamar Putin de "assassino". Não ter um embaixador em nenhum dos países tornou a condução da diplomacia entre as nações ainda mais difícil.

'Este é um começo', dizem os EUA; 'nível crítico', define a Rússia

O secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, e o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, concordam que a cúpula de hoje é essencial para evitar que as relações continuem a se deteriorar.

"Este é um começo para testar se a Rússia está interessada em um relacionamento mais estável e previsível e para encontrar áreas para trabalharmos juntos. Não vamos obter a resposta em uma reunião. Teremos que ver o que virá dessa reunião", afirmou Blinken em entrevista à CNN no último domingo (13).

"A razão principal para que [Putin] vá é o mau estado entre as relações dos dois países. E um nível crítico desta relação exige uma conferência entre nossos respectivos países, porque é a única maneira de evitar uma maior degradação do nosso diálogo", disse Peskov à CNN na sexta (11).

Ucrânia

Entretanto, a sinalização é de que não será uma conversa fácil. No começo de junho, Biden disse que defenderia a "soberania e a integridade territorial da Ucrânia", enquanto tropas russas se movimentavam para a fronteira leste, onde soldados ucranianos estão em conflito com separatistas apoiados por Moscou.

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, país que aguarda ansiosamente o resultado do encontro entre os líderes de Estados Unidos e Rússia
Foto: Valentyn Ogirenko - 12.out.2020 / Reuters

Nesta semana, o presidente ucraniano Volodymir Zelensky disse que recebeu garantias de Biden que o país dele não seria usado como "ficha de barganha". "Ele [Biden] disse que nunca trocaria nada pelos interesses ucranianos", afirmou em entrevista à agências.

Sobre a conferência, Zelensky disse que havia "um pouco de ceticismo".

A Ucrânia foi um dos temas principais da conferência da Otan, que aconteceu em Bruxelas, no começo desta semana.

Navalny

Outra questão delicada que Biden pode levantar é a do crítico do Kremlin, Alexei Navalny, que foi preso no início deste ano por supostamente violar os termos da liberdade condicional de um processo de 2014.

Peskov, porta-voz de Putin, disse à CNN que o presidente não planeja abordar a questão de Navalny, a quem Putin nunca se refere pelo nome.

Alexei Navalny: opositor de Putin foi envenenado em avião e está preso na Rússia desde que voltou ao país; para o Kremlin, 'não há nada para discutir sobre isso'
Foto: Shamil Zhumatov - 29.set.2019/ Reuters

Quando questionado se Putin planejava não recuar na questão se ela fosse abordada na cúpula de quarta-feira, o porta-voz do Kremlin disse: “Não há nada para discutir sobre isso. Não há nada para discutir sobre este cavalheiro. Ele está preso e isso não está na agenda de nossas relações bilaterais."

Em entrevista coletiva na segunda-feira, Biden disse que a eventual morte de Navalny na prisão seria uma indicação de que a Rússia "tem pouca ou nenhuma intenção de aceitar os direitos humanos".

Resultados

O assessor de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan, disse a repórteres na última semana que não pensava na cúpula entre os dois países "em termos de resultados".

"Estamos pensando nisso como uma oportunidade de comunicar quais são nossas intenções e capacidades", declarou.

O governo americano espera estabelecer um canal de comunicação claro que evite surpresas indesejadas.

Em entrevista coletiva nesta segunda, Biden disse que Putin é um "adversário, ou alguém que pode ser um adversário", mas brilhante e duro. "Se ele escolher não colaborar e agir da maneira que agiu no passado em relação à cibersegurança e outras atividades, vamos responder e responderemos à altura", disse, acrescentando que deixaria claro os limites dos EUA.

O encontro marca o fim da primeira viagem internacional de Biden como presidente dos Estados Unidos, que começou com a conferência do G7, no Reino Unido, na última sexta-feira (11), e com a cúpula da Otan, na Bélgica, na segunda.

Vladimir Putin (à esquerda) e Joe Biden (à direita)
Foto: Alexei Nikolskyi/Kremlin/Sputnik/Reuters e Kevin Lamarque/Reuters

(*Com informações da Reuters e da CNN Internacional)