Rivalidade EUA-China chega ao espaço, ameaçando o domínio norte-americano

Explorar o espaço pode trazer vantagens tecnológicas, de segurança nacional e comunicação, o que é crucial para ambos os países

Nectar Gan e Ben Westcott, da CNN, em Hong Kong
21 de junho de 2021 às 11:58
Nave espacial tripulada chinesa Shenzhou-12
Nave espacial tripulada chinesa Shenzhou-12
Foto: Reuters

Quando o tema é a intensificação da rivalidade entre os Estados Unidos e a China, o céu não é o limite.

Enquanto os dois países disputam a superioridade econômica, tecnológica, geopolítica e até ideológica na Terra, o espaço se tornou uma extensão natural – e uma fronteira crucial – em sua grande competição pelo poder.

O que está em jogo vai muito além do mero prestígio científico e posição global. Além da defesa nacional, grande parte de nossa vida na Terra, das comunicações digitais à navegação, depende de satélites no espaço.

Após o fim do programa espacial da União Soviética, os EUA desfrutaram de um período de liderança sem paralelo no espaço. No entanto, nos últimos anos, observadores e políticos dos EUA vêm alertando que o domínio do país poderá em breve ser ameaçado pelas capacidades espaciais em rápido crescimento da China.

A preocupação só se aprofundou após uma série de importantes conquistas chinesas: em 2019, o país tornou o primeiro a pousar do outro lado da Lua; no ano passado, ele colocou em órbita com sucesso seu último satélite Beidou, preparando o cenário para competir com o Sistema de Posicionamento Global (GPS) dos Estados Unidos; e, no mês passado, tornou-se o único país depois dos EUA a colocar um rover em funcionamento em Marte.

Primeiras imagens tiradas pelo rover chinês em Marte
Foto: Administração Espacial Nacional da China

O avanço específico em Marte levou o novo administrador da Nasa, Bill Nelson, a alertar contra a complacência norte-americana diante das ambições espaciais da China. Em uma audiência na Câmara dos Representantes no mês passado, Nelson exibiu uma imagem tirada pelo rover chinês em Marte, chamado a China de “um competidor muito agressivo”, e pressionando o Congresso para financiar os planos da Nasa de levar os humanos de volta à Lua.

Apesar de seus avanços, a tecnologia espacial da China ainda está atrás da dos EUA. Mas o programa espacial do país asiático está coberto de apoio político e financeiro do Partido Comunista, que vê seu sucesso como uma medida crucial de sua posição no mundo e da legitimidade dentro de seu próprio país.

Na semana passada, a competição EUA-China no espaço entrou em uma nova fase quando três astronautas chineses chegaram à estação espacial ainda em construção do país para uma estada de três meses. A única outra estação espacial em órbita é a Estação Espacial Internacional (ISS), um trabalho de colaboração liderado pelos Estados Unidos com a Rússia, Europa, Japão e Canadá.

Astronautas chinesas embarcam no módulo principal da estação espacial ainda em construção
Foto: CCTV

Nos últimos 23 anos, a ISS foi visitada por mais de 200 astronautas de 19 países, excluindo a China. Desde 2011, a Nasa está proibida de cooperar com a China após a aprovação do Congresso da Emenda Wolf, relacionada a preocupações com espionagem.

Pelo menos em parte, a exclusão dos chineses na ISS estimulou o governo chinês a construir sua própria estação espacial, a Tiangong, que deve ser concluída até o final do ano que vem, dois anos antes da previsão de desativação da ISS em 2024. Se os EUA e seus parceiros internacionais não decidirem estender a vida operacional da ISS, a estação espacial chinesa de Tiangong pode em breve se tornar o único posto avançado tripulado em órbita, aquele ao qual os astronautas da Nasa estão proibidos de entrar por causa da lei dos EUA.

Embora a ISS tenha sido principalmente um empreendimento russo-americano nascido das cinzas da Guerra Fria, a Tiangong da China está sendo construída em meio a conversas sobre uma nova Guerra Fria. E é provável que, nos próximos anos, as alianças no espaço espelhem cada vez mais as linhas geopolíticas da Terra.

As autoridades espaciais chinesas já deixaram claro que desejam receber astronautas estrangeiros a bordo de sua estação espacial após sua conclusão. A China também está dando as mãos para Rússia para construir uma estação de pesquisa conjunta no polo sul da Lua até 2035, em uma instalação que estará aberta à participação internacional.

Enquanto isso, os EUA estão construindo sua própria coalizão internacional para estabelecer os princípios básicos para explorações lunares seguras e responsáveis. Os Acordos Artemis, lançados pela Nasa em maio do ano passado, foram assinados por 12 países, incluindo os EUA e aliados importantes, como Grã-Bretanha, Austrália, Canadá, Japão e Coreia do Sul.

Nem a China nem a Rússia são signatárias.

Foto do dia

Foto: Getty Images

Revivendo memórias “vermelhas”: Um grupo de visitantes vestiu uniformes do Exército Vermelho Chinês durante uma visita ao Museu Revolucionário da China na cidade de Hong'an, no domingo (20). Hong'an, uma ex-base revolucionária do Partido Comunista no poder, é um dos chamados “locais vermelhos” que cresceram em popularidade na preparação para o centenário do partido em 1º de julho.

Austrália leva sua discussão sobre vinho com a China à OMC

A Austrália está intensificando sua luta comercial com a China.

No final de semana, o país declarou que está apresentando uma queixa à Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a decisão do governo chinês de impor tarifas pesadas ao vinho australiano.

Embora os ministros de comércio e agricultura da Austrália tenham dito que o país “continua aberto a conversar diretamente com a China para resolver esse problema”, eles acrescentaram em uma declaração no sábado (19) que o governo “continuará a defender vigorosamente os interesses dos produtores de vinho australianos”.

O Ministério das Relações Exteriores da China não respondeu a um pedido de comentários.

Não está muito claro se a atitude vai trazer resultados para a Austrália. Essas disputas podem levar meses para serem resolvidas e decisões anteriores da OMC foram difíceis, senão impossíveis, de se cumprir.

Em dezembro, a Austrália pediu à OMC que revisse as tarifas da China sobre a cevada australiana, o que ainda está em revisão.

Mas as taxas do vinho – que variam de 116% a 218% – estão claramente causando uma grande dor para os produtores do país. A China é seu principal mercado de exportação, e alguns produtores de vinho já reclamaram com o CNN Business das centenas de milhares de garrafas que estão empilhadas em paletes em seus armazéns.

“Isso está nos prejudicando imensamente”, disse o produtor de vinho Jarrad White ao CNN Business no início deste ano, antes de as taxas se tornarem permanentes. “Tínhamos muitos suprimentos que precisavam ser pagos e todos esses pedidos estavam planejados para mudar, o que nos deixou numa situação complicada”.

O vinho representa apenas uma pequena fração do que a Austrália comercializa com a China. O setor foi responsável por menos de 1% do valor total das exportações da Austrália para a China em 2019, de acordo com o Observatório de Complexidade Econômico.

Mas, como as tensões entre os dois países permanecem altas, a situação dos produtores de vinho na Austrália passou a simbolizar os danos colaterais da escalada da disputa comercial.

- Por Jill Disis

Pela Ásia

Um técnico da equipe olímpica de Uganda testou positivo para Covid-19 na chegada a Tóquio na noite de sábado (19), de acordo com autoridades japonesas.

Os Estados Unidos enviaram 2,5 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 para Taiwan, mais do que triplicando sua promessa original enquanto a ilha luta contra um surto em ascensão e resiste à pressão do governo chinês para tomar as vacinas fabricadas na China.

Enquanto isso, na China, mais de um bilhão de doses da vacina contra a Covid-19 foram aplicadas no sábado (19), um marco surpreendente que ocorre enquanto o país segue em uma campanha de vacinação incomparável.

Hong Kong e o preço da “maior integração” com a China continental

Em visita a Pequim no domingo (20), a chefe do executivo em Hong Kong, Carrie Lam, disse que queria aproveitar a reputação da cidade como um centro financeiro global para trazer uma maior integração com a China continental, agradecendo ao governo chinês por ajudar a restaurar a “estabilidade” em Hong Kong.

No entanto, muitas pessoas questionam se essa chamada estabilidade teve um custo muito alto.

Desde a aprovação da lei de segurança nacional em junho de 2020, Hong Kong teve prisões em massa de políticos pró-democracia e jornalistas, erodindo o alto grau de autonomia da cidade em relação a Pequim.

Muito popular da cidade, o jornal anti-Pequim “Apple Daily” pode estar à beira do colapso após suas contas bancárias terem sido congeladas sob a lei de segurança nacional. A ação aconteceu após uma batida policial na redação na semana passada, na qual editores-chefes e executivos foram presos e materiais jornalísticos apreendidos.

Ao mesmo tempo, a repressão às liberdades civis tem sido constante. No domingo, pela primeira vez em 18 anos, a Frente de Direitos Humanos Civis de Hong Kong anunciou que não faria seu protesto anual de 1º de julho, dizendo que a polícia provavelmente negaria permissão para o evento.

Além disso, em um sinal de que Hong Kong não é mais visto como um espaço seguro para dissidentes contra Pequim, Taiwan anunciou que vai retirar todos os funcionários públicos não locais de seu escritório na cidade. O governo de Taiwan acusou o governo de Hong Kong de exigir que sua equipe taiwanesa assine um documento reconhecendo que a China continental tem direito sobre a ilha autônoma – e a assinatura seria um pré-requisito para a renovação do visto.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui.)