América Latina tem ano de crise econômica, desunião e fragmentação política

Região elege líderes de diferentes espectros políticos e tem governos desgastados por turbulências

Vitórias Gabriel Boric no Chile e de Guillermo Lasso no Equador representam guinadas políticas
Vitórias Gabriel Boric no Chile e de Guillermo Lasso no Equador representam guinadas políticas Getty Images/Arte CNN

Marcelo Tuvucacolaboração para a CNN

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A América Latina registra, ao longo de sua história, movimentações conjuntas de seus países por diferentes sistemas de governo e políticas socioeconômicas.

As declarações de independência no começo do século 19; a sequência marcada por regimes populistas, ditaduras militares e governos democráticos neoliberais ao longo do século 20; e os governos de esquerda e centro-esquerda que dominaram o início dos anos 2000 são exemplos dessas tendências disseminadas pela região.

Desde 2015, influenciados por uma onda conservadora que se refletiu em diversos lugares do mundo, vários latino-americanos romperam com as forças da esquerda e “pendularam” para a direita. Foi o que aconteceu com Brasil, Argentina, Colômbia, Uruguai, Chile e Equador, entre outros.

Na passagem de 2021 para 2022, no entanto, o cenário é difuso. Alguns países rumaram de volta para a esquerda, como a Argentina e o Chile. Líderes da direita, como Jair Bolsonaro, o chileno Sebastián Piñera e o equatoriano Guillermo Lasso sofreram com desgastes e turbulências internas.

Além disso, há governos que realizam eleições e se declaram democráticos, ao mesmo tempo que caminham para um regime de supressão de direitos, concentração de poder e repressão da oposição, como Venezuela, Nicarágua e El Salvador.

A falta de coesão entre os países e o cenário generalizado de crise econômica e sanitária, além das eventuais ameaças contra a democracia, marcaram o 2021 latino-americano e estão na agenda do próximo ano – quando o maior país da região, o Brasil, terá eleição presidencial, que afeta também os vizinhos.

Para avaliar esses e outros temas, a CNN ouviu os especialistas Regiane Bressan, professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); a argentina Mariana Llanos, pesquisadora e cientista política do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais; Tomaz Paoliello, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); e Bruno Theodoro, pesquisador e membro da Rede de Pesquisa em Política Externa e Regionalismo.

Democracias frágeis

“Ainda que o latino-americano preze pelas eleições diretas, sua participação política, muitas vezes, para por aí”, diz Regiane Bressan. Ela cita o conceito de democracia delegativa, desenvolvido pelo cientista político argentino Guillermo O’Donnell para definir a forma com que a população da região se relaciona com seus governos.

“A ideia principal é que a pessoa vota e delega todo o poder para o presidente. Ela não entende o presidente como um condutor da política nacional que precisa seguir as instituições democráticas. Isso abre espaço para governos eleitos pelo voto começarem a romper com as bases da democracia, independentemente do espectro político-ideológico”, resume Bressan.

Esse foi um dos temas que dominou a quarta reeleição de Daniel Ortega na Nicarágua, em novembro, marcada pela prisão de candidatos e acusações de fraude.

O líder sandinista, que está no poder desde 2007, tem a trajetória comparada a outro presidente latino-americano de esquerda: o venezuelano Nicolás Maduro. O apoio de ambos ao regime comunista de Cuba reforça às críticas de opositores.

“O Daniel Ortega vem rompendo com as regras do jogo e caminha de uma forma parecida à trajetória de Maduro. É um governo opressor, que prende a oposição, e se diz democrático utilizando as eleições como argumento”, afirma a professora da Unifesp.

Ela inclui o Brasil na análise: “O governo Bolsonaro faz ameaças às eleições, põe em dúvida as urnas eletrônicas, elogia regimes autoritários e ataca a imprensa”, afirma. “Essa é uma característica típica da região, que se repete em outros países.”

Desalinhamento no Mercosul

As turbulências e fragmentações atingem diretamente o Mercosul, principal bloco sul-americano. Hoje, o grupo tem Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai como estados-membros, sete países associados (Chile, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname) e um membro suspenso (Venezuela).

“O Mercosul passa por um total desalinhamento”, diz Bruno Theodoro. Ele cita conflitos entre Argentina e Uruguai sobre a possibilidade de negociações fora do bloco – bandeira defendida por Montevidéu, que deseja fazer acordos isolados com a China.

“Houve um bate-boca ao vivo entre os presidentes Alberto Fernández [Argentina] e Luis Lacalle Pou [Uruguai], em março, que simbolizou a falta de integração do grupo.”

Regiane Bressan, por sua vez, entende que o bloco está ainda mais enfraquecido pela atual postura do Brasil.

“O governo Bolsonaro, que tem divergências políticas com o Fernández, tenta esvaziar o Mercosul. Ele só não toma atitudes maiores nesse sentido porque vê a possibilidade de fechar, finalmente, o acordo de livre comércio com a União Europeia“, afirma a professora.

Conclusão das negociações do acordo Mercosul-União Europeia
Negociações do acordo Mercosul-União Europeia foram concluídas em 2019, mas dependem de aprovações internas dos países europeus/ Foto: Heitor Granafei – 28.jun.2019/MRE

Essa negociação, no entanto, também está emperrada. A França e outros países europeus argumentam que os problemas ambientais do Brasil impossibilitam a assinatura do acordo.

O governo francês também sofre uma forte pressão de setores agrícolas internos, que não desejam o desembarque de produtos sul-americanos com tarifas reduzidas.

“É um acordo super complexo, negociado há mais de 20 anos, porque são dois blocos regionais com vários estados-membros e diferentes lideranças políticas, que vão mudando ao longo do tempo. E os setores agrícolas da Europa se assustam bastante com essa possibilidade”, resume Bruno Theodoro.

É muito difícil para os europeus aprovarem o acordo. Sem ele, resta ao Mercosul se reestruturar, buscar uma coesão e, quem sabe, pensar em novos projetos

Bruno Theodoro

Desunião na pandemia

Outra característica histórica da América Latina que contribui para a instabilidade política, de acordo com a pesquisadora Mariana Llanos, são os problemas sociais e a escassez de recursos que atingem grande parte da população.

“As pessoas, sofrem, há muito tempo, com a desigualdade social, insegurança, falta de acesso à Justiça, que o sistema político não consegue resolver. Elas percebem que suas demandas não são atendidas e ficam desanimadas, apáticas e até raivosas com a política”, afirma.

Os dois anos de coronavírus prejudicaram ainda mais esse cenário, gerando crises econômicas, desemprego e aumento significativo da população abaixo da linha de pobreza.

Todos os países sofreram sérias consequências por causa da pandemia, mesmo que de maneira desigual. Eles tiveram aumento da inflação, diminuição da taxa de exportação e outros problemas. Isso coloca a gente no mesmo barco

Tomaz Paoliello

O cenário não foi suficiente, no entanto, para promover políticas conjuntas de combate ao problema sanitário. A falta de união entre os governos, potencializada pelas divergências ideológicas, representou mais um obstáculo nesse sentido.

O pesquisador Bruno Theodoro cita o desaparecimento da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) como um fator que contribuiu, de forma indireta, para a ausência de atuação integrada nessa crise.

Criada em 2008 por governos de esquerda e centro esquerda, a Unasul entrou em declínio com a ascensão de líderes ligados à direita que eram críticos do bloco. Nos últimos quatro anos, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Equador e Uruguai deixaram o grupo.

Segundo Bruno Theodoro, a Unasul, mesmo com as suas origens ligadas à esquerda, contava com um importante mecanismo regional de integração: o Conselho de Saúde Sul-Americano, que poderia ter elaborado um plano de colaboração e sugerido políticas para a contenção do coronavírus no continente.

Mudança no Chile

O Chile passou por distúrbios e eleições em 2021. Em seus últimos meses no cargo, o presidente Sebastián Piñera quase sofreu impeachment por acusações de corrupção – o Senado rejeitou o pedido por uma estreita margem – e teve um mandato marcado por protestos e baixa popularidade.

Os dois candidatos que chegaram ao segundo turno das eleições presidenciais em dezembro não vieram nem da direita tradicional, como Piñera, e nem da centro-esquerda, como a ex-presidente Michelle Bachelet.

A disputa ficou entre Gabriel Boric – ex-líder estudantil e representante da esquerda – e José Antonio Kast, de extrema-direita, simpatizante do ditador Augusto Pinochet. “Eles simbolizaram a crise de representação dos políticos tradicionais no Chile”, afirma Mariana Llanos.

Boric, de 35 anos, conseguiu a vitória e se tornou o mais jovem presidente da história chilena. “Como ele é do movimento estudantil, está numa ala um pouco mais à esquerda do que políticos como a Bachelet, por exemplo, e deve levar algumas demandas desse grupo para o seu governo”, diz Regiane Bressan.

Mas o Boric também precisará dialogar com a centro-esquerda, o que pode torná-lo mais moderado

Regiane Bressan

Segundo Tomaz Paoliello, a eleição de Boric fortalece os esforços da Assembleia Constituinte chilena, responsável por elaborar uma nova carta magna para o país. Caso esse novo conjunto de leis seja aprovado pela população, ele substituirá a Constituição em vigor, promulgada durante a ditadura de Pinochet.

“No fim das contas, a eleição presidencial foi o segundo turno da Constituinte”, diz Paoliello, citando as posições opostas de Boric, apoiador da nova carta, e Kast, que defende a atual Constituição.

Da eleição à violência no Equador

Como o Chile, o Equador também teve distúrbios e eleições em 2021. Ao ser eleito presidente do Equador, em abril, o empresário e banqueiro Guillermo Lasso prometeu acelerar a vacinação e conter a pandemia que, um ano antes, havia colapsado o sistema funerário no país.

Na época, imagens de corpos espalhados pelas ruas de Guayaquil rodaram o mundo e simbolizaram a crise da pandemia no Equador como uma das piores no planeta.

A vitória de Lasso, conservador, também representou uma mudança após 14 anos de governos de esquerda, com Rafael Correa e Lenín Moreno. Os altos índices de vacinação no início do governo impulsionaram sua popularidade, mas o clima favorável não durou muito.

Além de enfrentar protestos no segundo semestre, Lasso precisou lidar com uma escalada de violência nas ruas.

“O Equador vem enfrentando uma onda de violência por parte do Estado justificada pelo combate ao narcotráfico”, afirma Regiane Bressan. “Mas, por mais que esse problema histórico gere dificuldades, o governo Guillermo Lasso estimula uma violência desmedida que rompe com o Estado de direito.”

Na Argentina, crise econômica e política eclodiu há 20 anos, em dezembro de 2001 / Ricardo Ceppi/Getty Images

Crise prolongada na economia argentina

Na Argentina, o presidente Alberto Fernández desfrutou de alguma popularidade pelo enfrentamento da pandemia em 2020, mas teve um 2021 mais difícil. “A crise da pandemia voltou e agravou a crise econômica. Isso minou o governo, que agora está enfraquecido”, analisa Paoliello.

Há dois anos, Fernández trouxe a esquerda de volta ao poder depois da gestão do conservador Mauricio Macri. O cenário do país é, porém, de poucas mudanças: inflação galopante, baixo poder de compra da população e dívida externa.

“São basicamente 20 anos de crise na Argentina”, resume Regiane Bressan. “O fato de o país ter historicamente apostado mais em uma moeda forte do que na proteção da sua indústria dificultaram uma saída. A Argentina é pouco industrializada, principalmente na comparação com países como Brasil e Colômbia.”

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