Análise: Acordo EUA-Irã expõe limites e incomoda Israel
Autoridades em Teerã se sentem empoderadas com os resultados da guerra até o momento, segundo agências de inteligência dos EUA
Israel, apesar de ter atuado conjuntamente com os americanos nos ataques contra o Irã, não deve assinar o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã.
Uma fonte israelense disse à CNN que o país pediu acesso à íntegra do memorando prestes a ser assinado, mas o pedido foi negado pelos Estados Unidos.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna e o professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército) Carlos Frederico Coelho analisaram ao WW os desdobramentos do acordo e suas implicações estratégicas para a região.
Irã se sente empoderado após o conflito
Segundo agências de inteligência americanas, as autoridades em Teerã se sentem empoderadas com os resultados da guerra até o momento. De acordo com essas mesmas fontes, o Irã estaria considerando bloquear novamente o Estreito de Ormuz como instrumento de pressão.
Uma fonte com acesso a esses relatórios disse à CNN que, para o Irã, o Estreito de Ormuz se mostrou uma arma mais poderosa do que qualquer bomba nuclear.
Embora a capacidade iraniana de controlar militarmente o estreito tenha sido reduzida pelos ataques de Israel e dos Estados Unidos, informações de inteligência indicam que Teerã mantém cerca de dois terços dos lançadores de mísseis intactos e conserva metade da capacidade de estocagem de drones.
O Irã também aproveitou o cessar-fogo para retomar a produção de drones, e estimativas de maio apontavam que o país poderia repor totalmente sua capacidade de ataque com drones em cerca de seis meses.
Trump redesenhou a situação de forma desfavorável
Para Carlos Frederico Coelho, o conflito resultou em um redesenho estratégico que beneficia o Irã de maneira inesperada. "O Irã descobriu que o Estreito de Ormuz é de fato mais valioso do que uma arma nuclear e, a partir de agora, Teerã nunca vai negociar a partir de uma posição de fraqueza", afirmou.
Segundo o professor de Relações Internacionais, o memorando a ser assinado é relativamente genérico, e especula-se que preveja cobranças por serviços marítimos e a devolução de fundos ao Irã. "Se tudo que a gente está enxergando de fato se concretize, a gente está diante de uma aventura absolutamente desastrada por parte do governo americano", declarou.
Lourival Sant'Anna destacou que o conflito teria origem em um erro colossal de análise de inteligência. "Muitas dessas coisas, nós que acompanhamos o Irã há muitos anos, preveríamos que uma decapitação do regime não levaria à sua queda e que ele poderia recorrer ao fechamento do Estreito de Ormuz", disse.
Para o analista, Israel perde com o desfecho do conflito tudo o que havia conquistado estrategicamente desde outubro de 2023, enquanto o Irã passa a ocupar posição de maior prestígio regional.
Israel em posição delicada e pressão americana
Carlos Frederico Coelho avaliou que as opções de Israel dependem do nível de pressão que os Estados Unidos exercerão. Nas últimas horas, houve ataques no sul do Líbano, e o Irã afirmou ter registrado 84 violações do cessar-fogo nos dois dias anteriores à assinatura prevista.
O Irã também declarou que o memorando corre risco de não avançar caso as operações israelenses no território libanês continuem.
"O Irã está numa condição de máxima capacidade de barganha nesse momento", avaliou o professor da Eceme, acrescentando que, até a sexta-feira (19) da assinatura, o país poderia exigir dos Estados Unidos um controle mais efetivo sobre as ações de Israel. "O Irã perde a guerra e ganhou a mão no baralho e ganhou a mesa", resumiu.
Europa e o interesse no desbloqueio do estreito
Na reunião do G7, os europeus demonstraram disposição para colaborar com o processo de reabertura do Estreito de Ormuz, incluindo o deslocamento de ativos para a remoção de minas da região.
Carlos Frederico Coelho explicou que o interesse europeu é direto: a combinação dos conflitos no Irã e na Ucrânia gera pressão inflacionária significativa sobre os preços de energia no continente. "Tudo que os europeus puderem fazer com o mínimo agora de segurança certamente está no interesse dos governantes europeus", disse.
Coelho ressaltou, porém, que a reabertura efetiva do estreito depende de mais do que um comunicado oficial. "O petróleo só vai fluir quando as empresas seguradoras e os navios acreditarem que há segurança. Essas empresas não confiam em comunicado de imprensa", afirmou.



