Batalha de Donbass pode ser maior confronto desde Segunda Guerra; entenda

Pelo menos 90 mil soldados de cada lado devem lutar pelo acesso da Ucrânia ao mar e pela definição do status de uma região que já se encontrava em uma guerra civil

Giovanna GalvaniLayane Serranoda CNN*

em São Paulo

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Algumas semanas separaram uma movimentação das tropas russas em direção a Kiev de um aparente “reagrupamento” no leste da Ucrânia — mas as expectativas não contemplavam um recuo russo, e sim uma nova fase da guerra empreendida por Vladimir Putin.

Para os ucranianos, essa etapa já começou e, de acordo com um especialista ouvido pela CNN, pode desencadear o maior conflito entre tropas desde a Segunda Guerra Mundial.

Segundo o comando das Forças Armadas ucranianas, a principal força militar da Rússia se concentra agora em tomar o controle de toda a área das regiões de Donetsk e Luhansk, que compõem a faixa de terra conhecida como Donbass.

“Agora podemos dizer que as forças russas iniciaram a batalha de Donbass, para a qual se prepararam há muito tempo”, disse Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, em um discurso em vídeo na segunda-feira (18) após ataques feitos “ao longo de quase toda a linha de frente das regiões ao leste de Donetsk, Luhansk e Kharkiv”, relatou no mesmo dia o secretário do Conselho de Segurança do país, Oleksiy Danilov.

O exército da Ucrânia está se preparando para um novo ataque russo no lado leste do país desde que Moscou retirou suas forças de perto da capital Kiev e do norte ucraniano no final do mês passado. Além disso, a Rússia também mobilizou um apoio logístico de sua aliada Belarus, segundo relatórios do Reino Unido.

Nesta terça-feira (19), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, confirmou que Moscou está iniciando uma nova etapa do que chamam “operação militar especial”, e disse ter “certeza que este será um momento muito importante” do conflito.

Batalha será violenta devido às “razões táticas”

Em entrevista à CNN nesta terça, o professor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, avaliou que a batalha deverá ser violenta entre os lados principalmente pela diferença estratégica entre os russos e ucranianos.

“A tática é o que acontece no campo de batalha, e nesse caso os soldados ucranianos tem que manter a linha dos russos restrita a Donbass ou avançar. Os russos convertem a defensiva: se não contra-atacarem, eles usam as estruturas das cidades para se proteger — as cidades se transformam em fortalezas tanto para ucranianos quanto para os russos”.

Vitelio Brustolin avaliou ainda que os ucranianos devem ter mais dificuldades em superarem as forças russas do que o contrário. Isso porque, apesar dos apelos de Volodymyr Zelensky, as armas enviadas pelo Ocidente não chegaram ao leste do país — especialmente a artilharia.

“A artilharia não chegou, e isso faz com que os ucranianos estejam ainda em condições inferiores nesse combate. Os russos têm apoio por terra, mar — Ucrânia não tem mais marinha — e tem duas pontes sob o Estreito de Kerch que ajudam na logística russa”, explicou o professor.

Para Brustolin, com a região do Donbass já em guerra civil desde a tomada da Crimeia pelos russos em 2014 — o que não justificaria uma nova guerra “apenas” pela região –, o movimento russo pode também tentar “completar o cerco e tomar Odessa e Kherson”, localizadas no sul ucraniano, o que tiraria o acesso da Ucrânia ao mar. “90% dos países que não têm acesso ao mar são pobres”, observou.

Por que região do Donbass importa?

Os eventos de 2014 são cruciais para a situação atual: naquela época, rebeldes apoiados pela Rússia tomaram prédios governamentais em vilas e cidades do leste da Ucrânia. A identificação multiétnica com a Rússia colaborou para inflar um sentimento pró-Kremlin na região. Intensos combates deixaram partes de Luhansk e Donetsk nas mãos de separatistas apoiados pela Rússia.

A Rússia também anexou a Crimeia da Ucrânia em 2014, em um movimento que provocou condenação global. As áreas controladas pelos separatistas em Donbass ficaram conhecidas como Luhansk e República Popular de Donetsk.

Forças ucranianas disparam míssil GRAD contra tropas russas na região do Donbass, em 10 de abril de 2022 / Wolfgang Schwan/Anadolu Agency via Getty Images

Além disso, Putin acusa a Ucrânia de violar os direitos dos russos étnicos e dos que falam russo na Ucrânia, e, em sua justificativa para a invasão do país vizinho, disse que deveria intervir militarmente para proteger essa parte da população, vítima de um suposto “genocídio”, segundo o presidente russo.

Mais de 14 mil pessoas morreram no conflito em Donbass entre 2014 e a invasão da Ucrânia pela Rússia no final de fevereiro de 2022. A Ucrânia disse que 1,5 milhão de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas durante esse período, com a maioria permanecendo nas áreas de Donbass que ainda estavam sob controle ucraniano, e cerca de 200 mil se reassentando na região mais ampla de Kiev.

As repúblicas autodeclaradas não são reconhecidas por nenhum governo, exceto a Rússia e seu aliado próximo, a Síria.

*Com informações da Reuters e CNN

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