Como é ganhar o Prêmio Nobel? Confira reações de alguns vencedores

Descobrir que ganhou um Nobel é incrível para a maioria das pessoas, mas para algumas, pode apenas "atrapalhar" o sono

Prêmio Nobel
Prêmio Nobel Niklas Halle'n/AP

Rob Pichetada CNN*

Em Londres

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Às cinco da manhã, o estimado astrofísico Jim Peebles, de 86 anos, foi acordado repentinamente pelo toque do telefone. “Pela minha experiência, os únicos telefonemas a essa hora da noite são más notícias”, disse ele. Esta, no entanto, foi uma ótima notícia.

“A frase inicial foi: ‘o comitê do Nobel votou para conceder a você o Prêmio Nobel de Física. Você aceita?'”, lembrou Peebles. A formulação o surpreendeu. Quem não aceitaria um Prêmio Nobel?

“Você conhece o fiasco de Bob Dylan?”, ele disse durante uma entrevista por telefone à CNN Internacional. “Isso pode ter colocado um alerta sobre eles.”

O “fiasco” que Peebles menciona refere-se ao Prêmio Nobel de Literatura de 2016, concedido de forma controversa a um Dylan. Ele não compareceu à cerimônia de premiação.

Pouco conecta Peebles, um especialista em cosmologia teórica, com o músico Dylan. Mas um dos contrastes mais marcantes pode estar em suas reações ao ganhar um Nobel — e o compositor está longe de ser o único laureado cuja coroação acabou sendo um caso estranho.

Os cinco comitês são secretos, protegendo suas escolhas do mundo exterior — incluindo os próprios laureados, que são informados de suas vitórias poucos minutos antes de serem anunciadas ao público.

Esse mantra de não dar informações antes da premiação pode levar a algumas surpresas animadoras, como aconteceu com Benjamin List — o co-vencedor do Prêmio Nobel de Química deste ano — que estava tomando café com sua esposa quando recebeu a notícia.

“Uma ligação da Suécia aparece no meu telefone e eu olho para ele, ele olha para mim e eu corro da cafeteria para a rua. Isso foi incrível. Foi muito especial. Eu nunca vou esquecer”, ele disse a repórteres na quarta-feira (6) após o anúncio de sua vitória.

Também pode ser muito menos comemorativo. “Eu estava deitado na cama e minha esposa acordou e ouviu meu telefone vibrar. E ela gritou comigo porque meu telefone a estava acordando”, disse David MacMillan, que dividiu o prêmio com List, à BBC Radio 4 na quinta-feira (7).

“Perdi a ligação. Eu não acreditei que isso estivesse acontecendo, então voltei para a cama”, acrescentou ele — provavelmente a frase mais identificável já pronunciada por um especialista em imidazolidinone quiral catalisadores.

E para alguns, a ascensão repentina ao Prêmio Nobel é uma intrusão totalmente indesejada. “Ó! Cristo!”, disse a autora britânica-zimbabuense Doris Lessing quando os repórteres chegaram do lado de fora de sua casa para informá-la que ela havia ganhado o Prêmio Nobel de Literatura em 2007.

“É uma coisa maravilhosa”, disse Reinhard Genzel, astrofísico que ganhou o Prêmio Nobel de Física no ano passado, à CNN Internacional sobre sua vitória e os meses que se seguiram. “Mas também é uma tarefa árdua.”

Como é ganhar um Prêmio Nobel

Poucos vencedores do Nobel podem dizer honestamente que suas vidas não mudaram quando receberam o telefonema — contanto que eles acreditem nisso, claro.

“Hoje em dia você recebe esses ‘trotes’, e pensei que esta fosse mais uma deles”, disse Abdulrazak Gurnah, o vencedor do prêmio de literatura deste ano, à BBC na quinta-feira (7).

“Esse cara disse: ‘Olá, você ganhou o Prêmio Nobel de Literatura’, e eu disse: ‘vamos, saia daqui. Me deixe em paz'”, disse Gurnah.

Frequentemente, os vencedores não podem ser contatados, deixando-os inteirados de suas vitórias por meio do noticiário, de sua família ou mesmo de seus vizinhos.

O economista Paul Milgrom foi acordado no meio da noite na Califórnia por seu colega Robert Wilson batendo na porta de sua casa. “Paul, é Bob Wilson. Você ganhou o Prêmio Nobel”, gritou pelo interfone. “Eu tenho?”, respondeu Milgrom sem acreditar.

O telefonema de Reinhard Genzel, vencedor do Nobel de Física de 2020, veio durante uma reunião da Zoom com colegas em outubro do ano passado. “Eu não tinha absolutamente ideia”, disse ele. “Eu pensei, meu Deus. Obviamente isso é uma fantasia”.

Roger Penros, Reihard Genzel e Andrea Ghez ganharam o Nobel de Física 2020
Roger Penros, Reihard Genzel e Andrea Ghez ganharam o Nobel de Física 2020 / Foto: Divulgação / Universidade de Oxford; Universidade de Munique Ludwig Maximilians; Universidade da Califórnia (UCLA)

O secretário do comitê disse que ele “não poderia dizer nada por 15 ou 20 minutos”, então Genzel fez o possível para manter a notícia para si mesmo. “Fui até a nossa sala de reuniões e [meus colegas] me disseram depois que eu estava entrando aos tropeços, olhando ligeiramente, dizendo-lhes para ligarem a TV”, disse ele.

Malala Yousafzai, a mais jovem ganhadora do Nobel aos 17 anos, estava no meio de uma aula de química em uma escola em Birmingham, Inglaterra, quando uma professora a interrompeu para dizer que ela havia ganhado, disse ela à Reuters.

Mais tarde, ela disse à Vogue que modestamente deixou a conquista de fora de suas inscrições para a universidade, porque “se sentiu um pouco envergonhada”.

Mas também há ocasiões em que o vencedor não está tão empolgado quanto o comitê do Nobel pode imaginar.

Dylan e Ernest Hemingway, vencedores do Nobel de Literatura, faltaram ao banquete anual da premiação; o último fez questão de dizer à Academia Sueca que não tinha “nenhuma facilidade para fazer discursos e nenhum domínio da oratória”.

Mas, sem dúvida, foi Doris Lessing quem teve a reação mais memorável. Ela soube de sua vitória ao sair de um táxi no caminho de volta do supermercado. “Você ouviu a notícia? Você ganhou o Prêmio Nobel de Literatura!”, um repórter entusiasmado disse a ela. Seus olhos reviraram em sua cabeça antes que o jornalista tivesse terminado sua frase.

Lessing — acompanhada por um conhecido que estava ao lado dela, o braço em uma tipoia e uma única alcachofra na mão — estava mais interessada em carregar as compras do que em falar com a mídia mundial.

Questionada sobre como se sentia, ela expressou pouco entusiasmo: “Olha, ganhei todos os prêmios da Europa, todos os malditos”. “Eu deveria ficar animada, ou exultante, ou o quê?” ela comentou.

“Fui tratado como uma estrela do rock”

Assim que a vitória de Genzel foi anunciada no ano passado, seu rosto apareceu em televisões de todo o mundo. O anúncio de um ganhador do Prêmio Nobel chega às primeiras páginas de jornais e sites em quase todos os lugares, lançando um holofote repentino sobre cientistas pouco conhecidos e suas pesquisas complexas.

“Assim que o anúncio é feito, você perde sua identidade em meia hora”, disse Genzel. “O telefone toca o tempo todo”.

Peebles teve uma experiência semelhante poucos minutos após seu telefonema matinal. “Quando voltei para a cama, minha esposa disse: ‘O que foi aquilo?’ Eu disse ‘Prêmio Nobel’, e ela disse: meu Deus!”. Em poucos minutos, o casal tinha um fotógrafo do lado de fora de sua porta.

Genzel de repente se viu respondendo a perguntas sobre política na TV alemã tarde da noite, irritando alguns de seus amigos com suas respostas. Peebles, entretanto, passou grande parte do dia olhando e-mails de todos os cantos do mundo: “Por favor, venha nos visitar, leia meu manuscrito entre outros”.

Medalhas do Prêmio Nobel foram concedidas pela primeira vez em 1901.
Concedidas pela primeira vez em 1901, medalhas do Prêmio Nobel carregam a imagem de Alfred Nobel / Foto: Reprodução/Nobel Media

“Uma coisa é dizer que os prêmios Nobel chamam a atenção. Outra é vivenciar”, disse ele. Às vezes, os relacionamentos pessoais mudam.

“É claro que há muita inveja de alguns colegas — muitas pessoas que estão perto de mim na mesma área podem muito bem dizer: ‘Por que ele conseguiu isso?'”, disse Genzel.

Mas antes que a pandemia de Covid-19 atrapalhasse os planos por dois anos consecutivos, os vencedores também tiveram uma festa de gala em Estocolmo.

“Fui tratado como um astro do rock. Experimentei o que espero que as estrelas do rock vivenciem”, disse Peebles sobre seu banquete em 2019. “É uma honra maravilhosa”.

“Meu encarregado  tinha uma lista quase infinita de coisas para mim”, acrescentou. “‘Agora você deve conhecer essas pessoas influentes. Agora você deve ir a uma entrevista coletiva. Agora vamos jantar com algumas pessoas importantes. E assim por diante'”.

Genzel perdeu as festividades no ano passado, quando ganhou o Nobel de Física, mas teve uma cerimônia discreta na Alemanha. “O governador da Baviera nos ofereceu sua residência, e tivemos um evento bastante agradável com o embaixador sueco”, disse ele.

Disseminação da ciência e cultura

Dois anos depois, a CNN Internacional perguntou a Peebles se sua caixa de entrada de e-mail finalmente recuou para volumes anteriores ao Nobel. “Eu teria que olhar os dados sobre isso”, respondeu ele, sempre empírico.

Mas, tanto para eles quanto para muitos outros laureados, a parte mais emocionante da experiência do Nobel é simplesmente fazer as pessoas falarem sobre ciência e cultura.

“Acho quase uma necessidade dizer ao público que existe a verdade, que existe uma verdade absoluta”, disse Genzel.

“O que espero que seja compreendido é a importância do Prêmio Nobel para conscientizar as pessoas sobre a importância da ciência ou das artes movidas pela curiosidade”, disse ele. “Eu acho que deve ser único”.

(*Esse texto foi traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

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