Vencedora do Nobel da Paz diz que Facebook é “tendencioso contra fatos”

Jornalista disse que rede social "prioriza a propagação de mentiras ligadas à raiva e ao ódio sobre os fatos". Facebook afirmou investir na redução do alcance de conteúdo falso

A jornalista Maria Ressa, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2021
A jornalista Maria Ressa, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2021 Reprodução/Faceboook

Karen Lemada Reuters

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A vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Maria Ressa, usou seu novo destaque para criticar o Facebook como uma ameaça à democracia, dizendo que o gigante da mídia social falha em proteger seus usuários contra a disseminação do ódio e a desinformação, além de ser “tendencioso contra os fatos”.

A jornalista veterana e chefe do site de notícias filipino Rappler disse à Reuters, em uma entrevista após ganhar o prêmio, que os algoritmos do Facebook “priorizam a propagação de mentiras ligadas à raiva e ao ódio sobre os fatos”.

Seus comentários somam-se à pilha de pressões recentes contra o Facebook, utilizado por mais de 3 bilhões de pessoas, após uma ex-funcionária acusar a empresa de colocar o lucro acima da necessidade de refrear o discurso do ódio e a desinformação. O Facebook nega qualquer ato ilícito.

Procurado para comentar as observações da Ressa, um porta-voz do Facebook disse que o gigante da mídia social continua a investir fortemente na remoção e na redução de visibilidade de conteúdo nocivo.

“Acreditamos na liberdade de imprensa e apoiamos as empresas de notícias e os jornalistas em todo o mundo enquanto eles exercem o seu importante trabalho”, acrescentou o porta-voz.

Ressa compartilhou o Nobel com o jornalista russo Dmitry Muratov, os quais o comitê chamou de “desafiantes da ira dos líderes das Filipinas e da Rússia ao exporem corrupção de desgoverno, um endosso da liberdade de expressão sob ataque em todo o mundo”.

O Facebook se tornou o maior distribuidor de notícias do mundo e “ainda assim é tendencioso contra os fatos, é tendencioso contra o jornalismo”, disse Ressa.

“Se você não tem fatos, não pode ter verdades, não pode ter confiança. Se você não tem nenhuma delas, você não tem uma democracia”, disse ela. “Além disso, se você não tem fatos, você não tem uma realidade compartilhada, então você não pode resolver os problemas existenciais do clima ou o coronavírus”.

Ressa tem sido alvo de intensas campanhas de ódio dos apoiadores do presidente Rodrigo Duterte, as quais, segundo ela, tinham como objetivo destruir sua credibilidade e a reputação do Rappler.

Eleições serão “batalha por fatos”

“Estes ataques online nas mídias sociais têm um propósito. Eles são direcionados e usados como uma arma”, disse a ex-jornalista da CNN Filipinas.

As apurações do portal Rappler incluem um exame minucioso da guerra mortal de Duterte contra as drogas e uma série de reportagens investigativas, sobre o que Ressa diz ser a estratégia de seu governo para “armar” a internet, com blogueiros na folha de pagamento do governo para despertar a raiva entre os apoiadores que ameaçam e desacreditam os críticos de Duterte nas redes.

Duterte não comentou sobre o prêmio da Ressa. O palácio presidencial, o porta-voz de Duterte, seu principal assessor jurídico e o escritório de comunicações não responderam aos pedidos de comentários da Reuters.

Em março de 2019, o Facebook removeu uma rede online nas Filipinas por “comportamento inautêntico coordenado”, e a vinculou a um empresário que disse anteriormente ter ajudado a administrar a campanha eleitoral das mídias sociais do presidente em 2016.

Os filipinos estão no topo do mundo no tempo gasto em mídia social, de acordo com estudos de 2021 realizados por empresas de gerenciamento de mídia social.

Plataformas como o Facebook tornaram-se campos de batalha políticos e ajudaram a fortalecer a base de apoio de Duterte, tendo sido fundamental em sua vitória eleitoral em 2016 e utilizado na estratégia de seus aliados para as eleições do ano passado.

As Filipinas realizarão uma eleição em maio para escolher um sucessor de Duterte, que, sob a constituição, não está autorizado a buscar outro mandato.

Essa campanha “será uma batalha por fatos”, disse Ressa. “Vamos continuar garantindo que nosso público veja os fatos e os compreendam. Não vamos ser assediados ou intimidados para manter o silêncio”.

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