Como o aniversário de 11 de Setembro pode trazer lições para trauma da Covid-19

Especialistas em luto e trauma reconhecem que aniversários de morte provocam uma queda no funcionamento das pessoas enlutadas

Museu e Memorial do 11 de Setembro, em Nova York, no local onde ficavam as torres atingidas do World Trade Center
Museu e Memorial do 11 de Setembro, em Nova York, no local onde ficavam as torres atingidas do World Trade Center 9/11 Memorial and Museum/Wikipedia

Jessica DuLongda CNN

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A CNN Brasil terá uma programação especial no sábado, 11/09, ao vivo, a partir das 8h. Em transmissão simultânea com a CNN Americana e com correspondentes espalhados pelos Estados Unidos, serão exibidas todas as homenagens às vítimas do atentado que completa 20 anos.

Comandada pelo time de âncoras da CNN, a cobertura especial trará também convidados que irão analisar o contexto histórico, os desdobramentos e histórias de quem acompanhou o horror de perto.

O aniversário da morte do pai de Matt Crawford é um dia mundialmente reconhecido — uma data de tanta importância que apenas três dígitos [11/9] evocam imagens de aviões, arranha-céus em chamas, depois nuvens de poeira e escombros.

Mesmo assim, a data ainda passa despercebida para ele em alguns anos, pegando-o despreparado, fazendo com que Matt dirigisse sem rumo até decidir sobre o melhor lugar para fazer sua caminhada anual sozinho.

Matt, um supervisor de construção, tinha 24 anos quando perdeu o pai. Robert J. Crawford, pai de cinco filhos e avô de seis, morreu aos 62 anos fazendo o trabalho “que ele amava completamente” por 32 anos: servir como bombeiro em Nova York. Existem agora mais cinco netos que o Crawford pai nunca conheceu.

Robert J. Crawford estava programado para se aposentar em novembro de 2001, aos 63 anos, o limite do FDNY (sigla do corpo de bombeiros de Nova York). Em vez disso, seus restos mortais foram encontrados junto com os de seis civis no que antes fora uma escada do World Trade Center.

Luto público x luto privado

O único ano em que Matt Crawford pulou sua caminhada anual foi em 2005, quando ele foi com a família em uma viagem à Casa Branca para receber uma honraria, a “9/11 Heroes Medal of Valor”, em nome de seu pai. Nos outros anos, ele preferiu e prefere uma conversa tranquila com seu pai na natureza à pompa das cerimônias do 11 de Setembro.

“O fato de que todos reconhecem o dia em que esse evento horrível aconteceu dá um certo conforto”, explicou Crawford. Mas também funciona nos dois sentidos. A “comercialização” da data o incomoda. Até mesmo o 11/9 usado nos EUA “me chateia um pouco por causa da gravidade daquele dia. Tem que ter uma expressão de efeito? Podemos dizer 11 de setembro. Podemos usar as sílabas extras e falar a data por extenso”.

Embora ele nunca tenha sido uma “pessoa de aniversários”, evitar o clamor público da data ajuda a proteger Crawford em seu processo. Ele notou que quando, digamos, o 14º ou o 19º aniversários chegaram, menos pessoas deram importância à data. “Todo dia para mim é 11 de setembro porque todo dia eu acordo e meu pai não está aqui”.

Sofrimentos gêmeos

Na atual pandemia de Covid-19, os últimos 18 meses trouxeram sofrimento sem paralelo em todo o mundo. O número médio atual de 1.475 mortes relatadas por dia nos Estados Unidos representa uma escala maciça de luto contínuo. Quais lições podemos aprender com as consequências dos ataques terroristas que podem nos ajudar a nos curar desse novo trauma coletivo? Ao nos recordarmos do 11 de Setembro, podemos expandir nossos corações para incluir todos aqueles que estão sofrendo agora?

A dor cumulativa da pandemia sem dúvida transformará nossas experiências neste aniversário. O clamor que se seguiu aos ataques que mataram 2.977 pessoas será outro agora que estamos sofrendo com mais de 650 mil mortes pela pandemia nos EUA e mais de 4,5 milhões em todo o mundo.

Eventos singulares como os de 11 de setembro continuam a chamar nossa atenção, mas a implacável contagem de mortes altas dia após dia pode deixar as pessoas entorpecidas. O que poderia conter a dor de uma nação, um mundo, enfrentando tantas perdas de todos os tipos?

Especialistas em luto e trauma reconhecem que aniversários de morte muitas vezes provocam uma queda no funcionamento das pessoas enlutadas.

“As reações de aniversário podem variar de se sentir levemente entristecido por um ou dois dias a uma reação mais extrema como saúde mental agravada ou sintomas médicos”, de acordo com a Mayo Clinic.

Para facilitar essas respostas comuns, a maioria das religiões principais inclui rituais para apoiar as pessoas nesses momentos.

O poder curativo das comemorações Lembrar o aniversário de morte de alguém é um costume praticado em todo o mundo. Os rituais incluem o yahrzeit no judaísmo, as missas in memoriam no catolicismo romano e outros ramos do cristianismo, as observâncias do Dia dos Mortos, bem como tradições de adoração aos ancestrais no budismo e confucionismo, entre outras religiões. As tradições seculares de longa data também incluem a realização de cerimônias anuais para homenagear os perdidos em guerras e outras tragédias.

Os rituais existem porque precisamos deles. As cerimônias coletivas nos lembram que não estamos sozinhos em nossa perda.

De acordo com estudos, a construção colaborativa de significado em comunidades que lidam com traumas coletivos pode ajudar a promover a superação. Dadas as mudanças na forma como nos reunimos para consolar uns aos outros, é essencial que criemos novos rituais para aliviar a dor da perda.

Os encontros que costumávamos fazer não estão mais tão acessíveis, como alertou a terapeuta Claire Bidwell Smith, autora de “Anxiety: The Missing Stage of Grief” (“Ansiedade: a fase perdida do luto”, sem edição no Brasil). “Então, como podemos nos dar poder e permissão para criar nosso próprio tipo de ritual?”

Para a terapeuta, no caso da Covid-19, as abordagens habituais de observância são ainda complicadas por causa da falta de um aniversário universalmente reconhecido.

Criatividade ritual

Nos dias e semanas que se seguiram a 11 de setembro de 2001, pessoas em todo o país e no mundo se reuniram para lamentar, encontrando consolo na conexão e no senso de comunidade. Desde então, as cerimônias anuais, com suas velas, leituras de nomes, badaladas de sinos e momentos de silêncio, têm proporcionado oportunidades para que as pessoas busquem consolo umas com as outras.

No entanto, ao contrário dos ataques de 11 de Setembro que romperam o tecido da sociedade norte-americana em um instante em um único dia, não há uma data singular que signifique o início (ou significará o fim) da pandemia.

Mesmo o dia em que a Covid-19 foi declarada uma pandemia global — 11 de março de 2020 — não carrega um significado compartilhado generalizado, uma vez que as experiências de quarentenas, lockdowns e exigências de máscara variam amplamente por comunidade, região e circunstância. A maneira como as pessoas avaliaram a ameaça do coronavírus e, portanto, seus efeitos na vida das pessoas, divergiram enormemente.

“Precisamos criar alguns aniversários que possamos nos ajudar coletivamente”, disse Smith. “Também precisamos dar às pessoas permissão para honrar seus próprios aniversários individuais – de quando perderam alguém, perderam o emprego, cancelaram uma festa de casamento ou a escola de seus filhos foi fechada. É importante dar às pessoas permissão para lamentar todas essas coisas”.

Com o número de mortos ainda aumentando em um ritmo alarmante, a pandemia parece longe de acabar. Somente o futuro dirá que data comum e clara de lembrança pode ajudar na cura da sociedade, uma vez que finalmente estivermos olhando para trás para esses anos tumultuados.

O aniversário do ataque mais mortal em solo americano é um momento adequado para homenagear não apenas aqueles que perderam suas vidas e serviram para proteger naquele dia, mas toda a dor coletiva pela qual o mundo está sofrendo juntos, sejam causados por ataques terroristas, pelas missões militares, pela Covid-19 ou outros eventos.

As recomendações da Mayo Clinic para lidar com o reavivamento do luto incluem preparar e normalizar as reações do aniversário, relembrar os bons tempos com aqueles que se foram, iniciar uma nova tradição que honre a perda ajudando os outros e passar um tempo conversando sobre seus sentimentos com as pessoas próximas.

O mais importante, aconselham especialistas como Smith, é permitir toda a gama de emoções que muitas vezes vêm à tona em conexão com o luto.

Quer o aniversário de sua perda seja coletivo, como o de 11 de setembro, ou mais singular, pode ser útil lembrar que o luto é uma experiência humana universal. Reconhecer essa universalidade como apenas um exemplo de nossa interconexão e interdependência pode nos ajudar a criar um senso de comunidade com mais atenção.

Pergunte às pessoas importantes para você o que estão fazendo para lidar com suas perdas, tanto individuais quanto coletivas. Mesmo que vocês precisem ficar fisicamente separados, compartilhar um ritual pode trazer uma sensação de união.

Enquanto faz caminhadas para encontrar uma reconexão com seu pai, Matt Crawford lembra-se das perdas de outras pessoas. “Sempre me pergunto quando alguém perde a mãe, o pai, o filho ou a filha e esse dia chega todo ano sem palavras e sem conforto para eles”, disse ele. “A comercialização [do 11/9] pode me machucar de um jeito que não gosto, mas pelo menos há momentos de silêncio para homenagear.

Para muitas outras pessoas, com as vítimas da pandemia de Covid-19, esse reconhecimento não existe”, analisou Crawford. “Deve ser ainda mais solitário para elas”.

Expandir nossos círculos existentes para reconhecer todos que estão sofrendo pode apenas fazer com que todos nos sintamos muito menos solitários.

Jessica DuLong serviu como engenheira naval a bordo do barco de bombeiros John J. Harvey, de Nova York, onde ajudou a bombear água do rio para os bombeiros no World Trade Center após os ataques de 11 de setembro. Jornalista e colaboradora de livros, moradora do Brooklyn, ela é autora dos livros “Saved at the Seawall: Stories from the September 11 BoatLift” e “My River Chronicles: Rediscovering the Work that Built America” (não lançados no Brasil). Recentemente, ela apareceu na série de documentários de Spike Lee para HBO, “NYC EPICENTERS 9/11” – 2021½”.

Especial

CNN Brasil apresentou uma programação especial neste sábado, 11/09, em transmissão simultânea com a CNN americana e com correspondentes espalhados pelos Estados Unidos, em homenagem às vítimas do atentado que completa 20 anos. Confira:

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

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