Conselho de Segurança da ONU votará resolução para Gaza após cessar-fogo

Proposta inclui criação de Conselho de Paz para administrar território por dois anos, com apoio internacional e desarmamento do Hamas

Tim Lister e Nic Robertson, da CNN
Destroços após ataque de Israel a Rafah, na Faixa de Gaza  • 07/05/2024REUTERS/Hatem Khaled
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O Conselho de Segurança da ONU deve votar em uma resolução nesta segunda-feira (17) para ações na Faixa de Gaza, após a implementação do cessar-fogo no mês passado, visando uma paz e reconstrução mais sustentáveis.

Seus principais aspectos incluem um Conselho de Paz para administrar Gaza por um período de dois anos, apoiado por forças internacionais e polícia palestina treinada pelo Egito.

O Conselho supervisionaria o desarmamento do grupo palestino Hamas e outras facções — uma exigência-chave de Israel — e a reconstrução de Gaza, de acordo com uma minuta da resolução obtida pela CNN.

O documento se baseia no plano de paz de 20 pontos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentado em setembro, mas já enfrenta oposição de alguns membros do governo israelense e pode enfrentar veto da Rússia ou da China — ou de ambos — quando for à votação.

A Rússia apresentou um plano alternativo. Um veto de um dos membros permanentes do Conselho de Segurança deixaria o plano em suspenso, se não praticamente inviabilizado.

 

A resolução também é vaga quanto à sequência e detalhes. Fontes diplomáticas ocidentais disseram à CNN que a falta de detalhamento na resolução dificultará sua implementação e são pessimistas quanto à manutenção do atual cessar-fogo, mesmo que a resolução seja aprovada.

Saiba quais são as propostas essenciais da minuta.

Governança em Gaza

A resolução prevê “o estabelecimento do Conselho de Paz (BoP na sigla em inglês) como uma administração transitória com personalidade jurídica internacional.”

Esta é a ideia de Trump para a governança interina em Gaza. A resolução estabelece que coordenará a reconstrução do território palestino de acordo com o chamado Plano Abrangente — um projeto de 20 pontos de Trump.

Segundo diplomatas familiarizados com o processo, ainda não está claro quem integraria o BoP e quais seriam seus poderes.

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair chegou a ser sugerido para liderar o conselho sob a presidência de Trump, apesar de sua reputação prejudicada entre alguns estados árabes devido ao seu apoio à guerra do Iraque e da percepção entre muitos palestinos de que ele é pró-Israel.

Segundo autoridades israelenses no mês passado, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que o Conselho não terá representantes da Autoridade Palestina, rival do Hamas que administra partes da Cisjordânia ocupada.

“Israel e os EUA são os que decidem se atenderão às condições, e há toda uma barreira de condições”, teria dito ele.

Presença de tropas estrangeiras

Segundo o rascunho, o BoP, junto com os estados-membros, estabeleceria uma “Força Internacional de Estabilização Temporária (ISF na sigla em inglês) em Gaza para atuar sob comando unificado”, em estreita consulta com Israel e Egito.

A força garantiria “o processo de desmilitarização da Faixa de Gaza, incluindo a destruição e prevenção da reconstrução da infraestrutura militar, terrorista e ofensiva, bem como o desmantelamento permanente de armas de grupos armados não estatais”, conforme o documento.

À medida que a ISF “estabelece controle e estabilidade”, o exército israelense se retiraria de Gaza “com base em padrões, marcos e prazos vinculados à desmilitarização”.

Em resumo, trata-se de um vespeiro. O sequenciamento será difícil de administrar, e a ISF terá que executar a complexa tarefa de desarmar o Hamas e outras facções, que ainda mantêm um arsenal de foguetes e armamento pesado.

Alguns oficiais do Hamas continuam descartando o desarmamento da ala militar do grupo. Os combatentes do Hamas relutariam em abandonar armas leves necessárias para sua proteção contra outros grupos em Gaza que busquem retaliação.

Membros do Hamas durante preparativos para receber prisioneiros palestinos • Reuters
Membros do Hamas durante preparativos para receber prisioneiros palestinos • Reuters

Netanyahu afirmou que o BoP deve assumir a responsabilidade pelo desarmamento do grupo palestino e no domingo reiterou que “Gaza será desmilitarizada, e o Hamas será desarmado — seja pelo caminho fácil ou pelo difícil”.

Diversos países têm sido apontados como prováveis contribuintes para uma Força Internacional de Estabilização Temporária em Gaza, incluindo Indonésia, Turquia e Egito.

Porém, nenhuma nação comprometeu algum contingente militar, e houve pouca discussão pública sobre uma estrutura de comando ou sobre a relação da ISF com uma força policial palestina sendo treinada no Egito.

Israel muito provavelmente rejeitaria uma participação turca.

Os próprios americanos não contribuirão com tropas no terreno e estão tendo dificuldades para reunir uma força internacional disposta a entrar em Gaza para desmilitarizar a região, informou um oficial israelense.

Washington agora considera pular a etapa de desmilitarização e passar diretamente para a reconstrução, disse o oficial à CNN. Tal movimento enfureceria Israel, pois deixaria o Hamas com seu armamento.

Isso minaria a própria resolução da ONU e é inaceitável para Israel, afirmou o oficial. Os EUA estavam “caminhando em direção a soluções provisórias que Israel não pode aceitar.”

O papel palestino na Faixa de Gaza

Segundo o projeto de resolução, o BoP (Conselho de Paz na sigla em inglês) eventualmente transferiria o controle para a AP (Autoridade Palestina), quando esta “tiver completado satisfatoriamente seu programa de reformas.”

A minuta não detalha quais deveriam ser essas reformas, mas menciona um plano conjunto franco-saudita que inclui um compromisso da Autoridade Palestina de “realizar eleições gerais e presidenciais democráticas e transparentes em um ano” após o cessar-fogo em Gaza.

Na semana passada, o presidente Emmanuel Macron disse que a França ajudaria a AP a elaborar uma constituição para um futuro Estado palestino, como parte de um esforço mais amplo para promover uma solução de dois Estados.

O governo israelense quer uma administração civil em Gaza que não seja liderada nem pela Autoridade Palestina e nem pelo Hamas.

Um Estado Palestino?

A resolução afirma que, dependendo do progresso da AP, “as condições podem finalmente estar estabelecidas para um caminho crível para a autodeterminação e Estado palestino. Os Estados Unidos estabelecerão um diálogo entre Israel e os palestinos para concordar com um horizonte político para uma coexistência pacífica e próspera.”

Existem muitas ressalvas na redação, mas o caminho permanece uma possibilidade, algo que a administração Trump descartou em seus primeiros dias.

O governo israelense deixou claro que não aceitará um Estado palestino.

Antes de uma reunião do gabinete no domingo (16), Netanyahu reiterou que “Nossa oposição a um Estado palestino em qualquer território a oeste do Rio Jordão existe, permanece em vigor e não mudou minimamente.”

Alguns ministros da ultradireita foram ainda mais longe.

O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, afirmou no domingo: “Não existe isso de 'povo palestino'. É uma invenção sem qualquer base histórica, arqueológica ou factual.”

A Arábia Saudita, que deve ter um papel fundamental no financiamento da reconstrução de Gaza, adota posição oposta. Seu poderoso príncipe herdeiro se reunirá com Trump esta semana.

A ministra saudita Manal Radwan declarou em uma conferência no Bahrein há duas semanas: “Um Estado palestino é um pré-requisito para a integração regional. Já dissemos isso muitas vezes.”

 

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