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    Crise Irã-Paquistão surge de regiões de fronteira conturbadas, não dos conflitos no Oriente Médio

    Segundo autoridades e fontes iranianas, ataque ao Paquistão teria ocorrido para reforçar sua segurança interna em relação aos rebeldes do Baluchistão, e não por ambições para o Oriente Médio

    Vista aérea da cidade de Ziarat, na província do Baluchistão, no Paquistão, que faz fronteira com o Irã.
    Vista aérea da cidade de Ziarat, na província do Baluchistão, no Paquistão, que faz fronteira com o Irã. M N K X / 500px / Getty Images

    Reuters*

    Dubai e Islamabad

    Um ataque iraniano ao Paquistão nesta semana, que provocou uma rápida resposta militar e levantou temores de uma maior turbulência regional, foi impulsionado pelos esforços do Irã para reforçar sua segurança interna, e não por suas ambições para o Oriente Médio, de acordo com três autoridades iranianas, uma fonte iraniana e um analista.

    Ambos os países vizinhos fortemente armados, muitas vezes em desacordo sobre a instabilidade na sua fronteira, parecem querer tentar conter as tensões resultantes dos ataques que representam as maiores violações de fronteira dos últimos anos.

    O Irã enviou ondas de choque por toda a região na terça-feira (16) com um ataque com mísseis contra o que descreveu como militantes muçulmanos sunitas de linha dura no sudoeste do Paquistão.

    Dois dias depois, o Paquistão, em retaliação, atacou o que disse serem militantes separatistas no Irã – o primeiro ataque aéreo de aviões de guerra em solo iraniano desde a guerra Irã-Iraque de 1980-88.

    O ataque de terça-feira foi uma das mais duras investidas transfronteiriças do Irã ao grupo militante sunita Jaish al-Adl no Paquistão, que diz ter ligações com o Estado Islâmico.

    Muitos dos membros do Jaish pertenciam anteriormente a um grupo militante extinto conhecido como Jundallah, que jurou lealdade ao Estado Islâmico.

    As ações aprofundaram as preocupações sobre a instabilidade no Oriente Médio, que se espalhou desde que a guerra entre Israel e o Hamas eclodiu em outubro.

    Milícias aliadas ao Irã, do Iêmen ao Líbano, lançaram ataques contra alvos dos Estados Unidos e de Israel, incluindo o transporte marítimo do Mar Vermelho, em apoio aos palestinos de Gaza.

    Isso também ocorreu um dia depois de o Irã lançar ataques no Iraque e na Síria, que, segundo o país, tinham como alvo a espionagem israelense e as operações do Estado Islâmico, respectivamente.

    Mas os golpes de retaliação entre o Irã e o Paquistão ocorreram longe dessa zona de guerra, em áreas de fronteiras remotas onde grupos separatistas e militantes islâmicos há muito tempo realizam ataques contra alvos governamentais, com autoridades do Paquistão e do Irã frequentemente acusando-se mutuamente de cumplicidade no derramamento de sangue.

    Gregory Brew, analista do Eurasia Group, uma consultoria de risco internacional, disse que os ataques de Teerã foram motivados em grande parte pelas crescentes preocupações do Irã sobre a ameaça de violência militante doméstica após um atentado mortal em 3 de janeiro reivindicado pelo grupo Estado Islâmico.

    “Há muita pressão interna para se ‘fazer alguma coisa’ e a liderança está respondendo a essa pressão”, disse ele.

    Porta-vozes dos ministérios das Relações Exteriores do Irã e do Paquistão não foram encontrados até a publicação deste artigo para comentar o assunto.

    O ministro da Informação do Paquistão disse que os principais líderes civis e militares do país realizariam uma revisão de segurança na sexta-feira (19) sobre o impasse.

    Ataque do Paquistão deixou cratera em vila do Irã perto de Saravan, na província de Sistão e Baluchistão.
    Ataque do Paquistão deixou cratera em vila do Irã perto de Saravan, na província de Sistão e Baluchistão. / Reuters

    “Resposta esmagadora”

    O Paquistão chamou de volta o seu embaixador no Irã em protesto contra o ataque de terça-feira. E o Irã condenou veementemente os ataques do Paquistão na quinta-feira, dizendo que civis foram mortos, e convocou o diplomata mais sênior do Paquistão no Irã para dar uma explicação.

    No entanto, nas suas declarações, nenhum dos governos procurou estabelecer uma ligação à guerra de Gaza ou aos ataques realizados em apoio aos palestinos por uma rede de milícias árabes aliadas ao Irã, desde o Mediterrâneo até ao Golfo.

    Em uma declaração pública na quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores em Teerã afirmou: “O Irã considera a segurança do seu povo e a sua integridade territorial como uma linha vermelha” e espera que o Paquistão “amigo e fraterno” impeça bases militantes armadas no seu território.

    Para o Irã, o gatilho para o conflito foi um atentado a bombas devastador em 3 de janeiro que matou quase 100 pessoas em uma cerimônia na cidade de Kerman, no sudeste do país, que homenageava o comandante Qassem Soleimani, que foi morto por um drone dos EUA em 2020.

    Soleimani, arquiteto do esforço do Irã para estender a sua influência em todo o Oriente Médio, foi um herói para os apoiadores do governo linha dura.

    Teerã prometeu publicamente vingança contra o Estado Islâmico, o grupo militante muçulmano sunita ultrarrígido que assumiu a responsabilidade pelo atentado.

    Uma fonte iraniana próxima dos clérigos governantes do país descreveu o atentado de Kerman como “uma vergonha para a liderança” que mostrou que a segurança iraniana era vulnerável.

    O ataque de terça-feira teve como objetivo demonstrar as capacidades das organizações de segurança em meio à preocupação entre os iranianos sobre a falta de segurança no país, disse a fonte iraniana.

    “Esses ataques terroristas terão uma resposta esmagadora do Irã”, disse a fonte. O Irã também prendeu dezenas de pessoas ligadas ao Estado Islâmico.

    Pessoas se reúnem no local das explosões durante cerimônia realizada para marcar a morte do general iraniano Qassem Soleimani, em Kerman, Irã / 03/01/2024 Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS

    Na terça-feira, mísseis iranianos atingiram duas bases do grupo muçulmano sunita Jaish al-Adl (ou Exército da Justiça) na província do Baluchistão, no sudoeste do Paquistão, que faz fronteira com o Irã.

    A militância islâmica sunita ultrarradical do grupo é vista como uma ameaça pelo Irã, um país muçulmano de maioria xiita.

    Um funcionário do alto escalão da segurança iraniana disse à Reuters que o Irã forneceu ao Paquistão evidências de que o Jaish al-Adl estava envolvido no ataque de Kerman, coordenando sua logística, e pediu ao Paquistão que agisse contra o grupo.

    O Irã obteve evidências de que membros do grupo estavam entre vários militantes que planejavam novos ataques no país, disse ele.

    “Advertimos a todos que qualquer ação contra a nossa nação, a nossa segurança nacional, não ficará sem resposta”, acrescentou a autoridade, falando sob condição de anonimato devido à delicadeza do assunto.

    Irã “perdeu a paciência”

    O Irã tem pressionado Islamabad há anos para abordar a presença de militantes perto da sua fronteira, disse Brew. Os ataques com mísseis foram um sinal de que Teerã perdeu a paciência, disse ele.

    É certo que o Irã continua vendo o seu papel e influência no Oriente Médio como um elemento central dos seus objetivos de segurança.

    Brew disse que o ataque do Irã ao Paquistão também pretendia sinalizar a sua determinação, tanto aos inimigos como aos aliados, de se defender no contexto da crise regional sobre Gaza.

    Michael Kugelman, diretor do Instituto sobre sul da Ásia do Wilson Center, um grupo de reflexão com sede em Washington, disse que a tensão bilateral na segurança das fronteiras é um problema antigo para o Irã e o Paquistão.

    A desescalada seria difícil de imediato, “dadas as altas tensões e temperaturas em jogo”, disse ele.

    Nenhum dos países parece preparado para o conflito, no entanto. Em declarações públicas, ambos os países observaram que os seus ataques não visavam os civis um do outro e sinalizaram que não querem uma escalada.

    Kugelman disse que ambos os países poderão acolher bem o diálogo bilateral e a potencial mediação de terceiros de um país como a China, que tem boas relações e influência com ambos os países. “A diplomacia será crítica de agora em diante”, disse ele.

    * Com informações de Parisa Hafezi, Charlotte Greenfield e Gibran Naiyyar Peshimam