Pandemia, esquema de segurança e ausência de Trump mudam cara da posse de Biden

Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris serão empossados na tarde desta quarta-feira (20), em Washington, para mandatos de quatro anos

Guilherme Venaglia, Henrique Andrade e Leonardo Lopes, da CNN, em São Paulo*
20 de janeiro de 2021 às 05:00 | Atualizado 21 de janeiro de 2021 às 06:56

 
 

Pela 46ª vez, os Estados Unidos darão posse nesta quarta-feira (20) a um novo presidente do país.

Joseph Robinette Biden Jr., ou apenas Joe Biden, assume o cargo em um contexto inédito: a pandemia do novo coronavírus, as tensões políticas a respeito do resultado das urnas, a ausência do presidente que está saindo do posto e um esquema de segurança de proporções históricas.

Tirando os ritos legais obrigatórios, a posse de Biden e da vice-presidente eleita Kamala Harris pouco deve lembrar as tradições e simbolismos de outras cerimônias. 

A pandemia da Covid-19 impede a presença de público e também a parada que tradicionalmente acontece no caminho que o novo presidente faz entre o Capitólio, a sede do Congresso, e a Casa Branca. Também não ocorrerão os famosos bailes, que trazem pompa à transmissão do cargo.

Para completar, a postura do presidente Donald Trump e de parte de seus apoiadores de não reconhecer a vitória de Biden faz com que o atual morador da Casa Branca seja a "ausência presente" no altar da posse. 

A invasão ao Capitólio durante a sessão que certificou a vitória de Biden, feita por manifestantes pró-Trump que não reconhecem o resultado, e o temor de novos atos terroristas levou as forças de segurança a organizarem um esquema sem precedentes para garantir a segurança do ato.

 

Joe Biden e Kamala Harris em Delaware
Joe Biden e Kamala Harris em Delaware
Foto: Carlos Barria - 13.ago.2020 / Reuters


Por fim, há as novidades de um evento repleto de escolhas simbólicas de grupos de minorias sociais, determinantes na vitória de Joe Biden, homem, heterossexual e branco, de 78 anos.

Além da presença de Kamala Harris, primeira mulher e primeira pessoa negra a ser vice-presidente, Biden fez outras escolhas que passam mensagens.

A cantora Lady Gaga, que se aproximou de Joe Biden durante campanha contra assédio sexual, será a responsável por cantar o hino nacional. Atriz e cantora latina, Jennifer Lopez fará o número musical. Já a leitura poética ficará à cargo de Amanda Gorman, poetisa e socióloga negra de 22 anos, ativista da causa feminista.

Segurança

A posse de Joe Biden e Kamala Harris será acompanhada por 25 mil soldados da Guarda Nacional, esquema de segurança sem precedentes na história dos EUA. O número é maior do que o total de tropas enviadas às guerras do Afeganistão e do Iraque.

Diante do temor de atos terroristas de cunho político, a Guarda Nacional foi além e fez um processo de verificação dos seus próprios integrantes, em busca de encontrar soldados com possíveis ligações com grupos extremistas.

Dois soldados foram afastados do trabalho na posse por comentários "inapropriados", enquanto outros dez foram removidos por comportamento questionável encontrado durante o processo de verificação.

O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, recebe a segunda dose da vaci
Antes de tomar posse, o presidente eleito Joe Biden tomou as duas doses da vacina da Pfizer contra a Covid-19
Foto: CNN (11.jan.2021)

"Não estou preocupado, olhamos para 25 mil e identificamos 12, alguns desses são só investigados e pode não ser relacionado a isso. Queríamos ter certeza por excesso de cuidado, como disse mais cedo, que façamos a coisa certa até que as coisas fiquem mais claras", disse o general Daniel Hokanson.

Além de Washington e do entorno dos principais prédios públicos, o policiamento também deve ser intensificado nos 50 estados americanos, diante de monitoramento do FBI para risco de atos em diversos pontos do país.

Alvo de um processo de impeachment pela acusação de "incitar a insurreição", Donald Trump fez discurso de despedida da Casa Branca, em que condenou a invasão ao Capitólio e criticou manifestações políticas violentas.

Tensão com Trump

Donald Trump não vai participar da posse do sucessor. A expectativa é que o republicano deixe a Casa Branca por volta das 10h da manhã. De lá, ele vai para uma base aérea, participa de uma cerimônia militar de despedida e embarca para Palm Beach, na Flórida.

É raro, mas não será a primeira vez na história que um presidente de saída não comparece ao evento. A expectativa é que o vice-presidente Mike Pence, que recentemente se estremeceu com Trump, esteja presente.

Membros do governo, parlamentares e juízes da Suprema Corte estarão lá. O chefe de Justiça John Roberts será o responsável por colher o juramento de Joe Biden. O cargo ocupado por Roberts é o equivalente, no Brasil, ao de presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em vídeo de despedida da Casa Branca - 19 jan. 2021
Foto: Reprodução/YouTube White House

Um fato curioso sobre o juramento é que Biden, enquanto era senador, votou contra a nomeação de John Roberts para a Suprema Corte, feita pelo então presidente George W. Bush.

O juramento de Kamala Harris deve ser por volta das 13h30, cerca de trinta minutos antes de Biden.

A responsável por colher o juramento da vice-presidente eleita será a juíza da Suprema Corte Sonia Sotomayor.

Indicada por Barack Obama em 2009, Sonia foi a primeira hispano-americana a ser escolhida para o Tribunal.

Bush, último republicano antes de Trump a ser presidente, confirmou presença na posse e deve participar também de um dos momentos simbólicos, quando o novo governante do país deposita coroa de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido.

Joe Biden e Kamala Harris devem estar acompanhados nesse momento por Bush e pelos ex-presidentes democratas Barack Obama e Bill Clinton.

Pandemia

Legalmente, um candidato que tiver sua vitória nas eleições reconhecida pelo Congresso só precisa fazer uma coisa para se tornar presidente: no dia da posse, jurar a um juiz da Suprema Corte a seguinte frase escrita na Constituição do país:

"Eu juro solenemente que eu irei executar fielmente o cargo de presidente dos Estados Unidos e farei o melhor das minhas habilidades para preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos"

Constituição dos Estados Unidos, em tradução livre para o português

Tudo o mais é política e simbolismo. Não que seja menos importante, uma vez que a presença de uma grande multidão dá peso político, assim como os diversos eventos sociais que geralmente tangenciam a posse integram o novo presidente à elite política e social da capital americana.

Joe Biden utilizará para o juramento uma bíblia gigante, que pertence à família desde 1893. Na sequência, fará um discurso. Não há tempo exato de duração. Em geral, as falas tem durado entre 45 minutos e uma hora.

Em grandes crises, os discursos dos presidentes empossados são ainda mais centro de atenções. Foi assim como quando Abraham Lincoln tentou pacificar o país após a Guerra Civil, pedindo "compaixão", ou quando Franklin Roosevelt disse após a Grande Depressão de 1929 que os americanos só deveriam temer uma única coisa: o medo.

Em geral, congressistas recebem vários ingressos da posse para distribuir para quem quiserem. Neste ano, podem comparecer apenas eles mesmos, levando um único convidado. O público ainda foi orientado a não comparecer e, para tanto, o parque National Mall estará fechado.

Outra mudança diz respeito à parada que costuma ocorrer durante o translado entre o Capitólio e a Casa Branca. O trajeto será substituído por uma espécie de Parada Virtual, que deve ser transmitida por volta das 17h.

Celebridades

Para substituir os tradicionais bailes, será realizado um programa de TV com presença de artistas engajados na eleição de Joe Biden.

O apresentador será o ator Tom Hanks, apoiador do Partido Democrata e doador da campanha de Biden. Entre os artistas, são esperadas as participações de nomes como o grupo Foo Fighters, os cantores Demi Lovato, Justin Timberlake e Bon Jovi, entre outros.

É normal a participação de artistas nas campanhas, mas o engajamento da cantora e atriz Lady Gaga foi muito forte durante o período eleitoral dos Estados Unidos. A artista multipremiada, que conquistou prêmios que vão do Grammy ao Oscar, será a responsável por entoar o hino nacional na posse.

Lady Gaga e Joe Biden se aproximaram depois de 2016, quando a cantora apresentou a música Til It Happens to You ("Até acontecer com você", em tradução literal) na cerimônia o Oscar e revelou ter sofrido abuso sexual quando era mais nova.

Lady Gaga e Joe Biden
A cantora Lady Gaga ao lado do democrata Joe Biden, em foto postada por ela nas redes sociais
Foto: Reprodução / Twittter

Dois anos antes, Biden era o vice-presidente dos Estados Unidos e havia lançado a campanha "It's On Us" ("É com a gente", trad.), contra a violência sexual no ambiente universitário. Após a revelação de Gaga, Biden a convidou para participar da campanha e eles se aproximaram.

Outra escolhida para se apresentar é Jennifer Lopez. Os democratas há anos têm se aproximado da pauta dos eleitores latinos e a atriz e cantora tem causado um impacto maior da pandemia da Covid-19 sobre esse grupo da população no país.

Demais nomes que participarão da posse são o padre católico Leo J. O'Donovan, amigo de longa data da família do presidente eleito, o segundo presidente seguidor da Igreja de Roma da história dos Estados Unidos.

O'Donovan foi quem rezou a missa fúnebre de Beau Biden, filho do presidente eleito que morreu de um câncer no cérebro em 2015.

O outro evento religioso, a bênção, ficará com o reverendo Silvester Berman, religioso que costuma ouvir as confissões de Biden. Também um nome ligado a Beau Biden, de quem era amigo e conselheiro para assuntos sociais -- o filho do presidente eleito foi procurador-geral do estado de Delaware.

O juramento à bandeira será feito pela capitã dos bombeiros Andrea Hall, bombeira de 47 anos que foi a primeira negra a ser promovida em sua cidade (South Fulton, Geórgia) e é líder de um dos maiores sindicatos da sua categoria no país.

Poema

Ainda é incerto como Joe Biden tratará o fato de substituir um presidente alvo de um processo de impeachment, assim como o ato da invasão ao Capitólio em si.

Apesar de acusar Trump de incitar o ato, Biden e seus aliados também temem que a ação de impedimento trave os debates no Senado por algum período, impedindo seu governo de levar adiante projetos do seu interesse.

Já é certo, no entanto, que o tema será mencionado em um poema que será lido no ato da posse.

A poetisa negra Amanda Gorman, ativista feministra de 22 anos e socióloga formada pela Universidade de Harvard, lerá sua obra The hill we climb ("A montanha que escalamos", trad.), escrita especialmente para a posse de Biden.

O poema:

"Nós vimos uma força que poderia despedaçar a nossa nação ao invés de compartilhá-la; Destruiria a nossa nação se isso significasse atrasar a democracia; E esse esforço por pouco não teve sucesso; E apesar de a democracia poder ser periodicamente atrasada; Ela nunca pode ser permanentemente derrotada; Nesta verdade, nesta fé nos confiamos; Enquanto tivermos nossos olhos para o futuro; A história terá os seus olhos em nós"

Amanda Gorman, "The hill we climb", em tradução livre para o português

*Com informações de Zachary B. Wolff, da CNN Internacional