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    Gestão de pandemia altera políticas nacionais e influencia governos e eleições

    Manejo da crise imprimiu consequências políticas importantes dos Estados Unidos à Nova Zelândia

    Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, surfava na prosperidade econômica antes da pandemia, e acabou derrotado na reeleição
    Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, surfava na prosperidade econômica antes da pandemia, e acabou derrotado na reeleição Foto: REUTERS

    Roberto Lameirinhas, colaboração para a CNN

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    Catástrofes naturais, conflitos militares e crises sanitárias de grandes proporções são considerados fenômenos capazes de alterar profundamente características de governos e instituições nacionais. Para o bem ou para o mal.

    A emergência causada pela pandemia de Covid-19, que se originou nas últimas semanas de 2019, e a resposta a ela em vários países devem ter consequências perceptíveis pelos próximos anos. “É preciso ter cuidado ao presumir que os efeitos de grandes eventos são previsíveis”, afirma sobre a pandemia o pesquisador e professor emérito de Relações Internacionais de Harvard, Joseph Nye Jr., em uma publicação da universidade americana sobre a atual crise sanitária. 

    “A pandemia de gripe de 1918-1919, por exemplo, matou mais pessoas do que a 1ª Guerra Mundial, mas as principais mudanças globais foram consequência da guerra, não da doença.”
    “O mais provável é que a pandemia do novo coronavírus simplesmente acelere tendências já existentes na direção do populismo nacionalista, do autoritarismo e das relações tensas, por exemplo, entre os Estados Unidos e a China”, escreve Nye.

    O inegável é que a resposta imediata à pandemia converteu-se em fator substancial de divisão ou unidade de governos e sociedades nacionais de acordo com as respostas que seus líderes apresentaram à emergência.

    “Primeiramente, a pandemia se tornou um teste para a qualidade de governança dos países, uma vez que, em maior ou menor grau, todo o planeta acabou submetido aos efeitos do coronavírus”, explica o professor Pedro Brites, da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. 

    “A capacidade desses Estados de mostrarem respostas efetivas, a adaptação deles a esse novo cenário, a coordenação interna, a transparência com que lidaram com o tema, os efeitos da combinação do problema com fatores domésticos e externos, tudo isso mostra a efetividade dessas administrações.”

    Nas análises genéricas que se fazem sobre a resposta à pandemia e seus efeitos sobre os governos nacionais, destaca-se negativamente a reação de Donald Trump, nos EUA –  que viu seu favoritismo eleitoral derreter na medida em que mantinha a posição de negacionismo em relação à crise. Em outro sentido, o governo da Nova Zelândia, de Jacinda Ardern, é avaliado como padrão de resposta adequada, capaz de unir seus cidadãos e reforçar suas bases de sustentação política.

    Para o historiador e analista sênior do Real Instituto Elcano, de Madri, Carlos Malamud, ficou clara a relação direta entre a qualidade da gestão da pandemia e a avaliação de de governos nacionais por parte de suas populações. “A crise sanitária está afetando em cheio a forma de se fazer política e isso deve ser levado em conta pelos líderes nacionais”, diz Malamud.

    O analista espanhol ressalta que o fator pandemia sempre vai depender do grau maior ou menor do dissenso e da polarização de cada sociedade. “O fato é que a capacidade de gestão desse tipo de crise estará daqui para frente nos debates dos contratos sociais que se pretende formalizar entre Estados e seus cidadãos”, afirma.

     Critérios de conduta

    Em novembro de 2020, com o objetivo de delinear os critérios de avaliação da capacidade de reação dos governos nacionais à crise sanitária, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) elaborou um documento no qual listou nove itens de observação. 

    Entre eles, o fortalecimento de comunicação pública e compartilhamento de dados; o ajuste da prestação de serviços públicos ao contexto de crise; a alavancagem e redistribuição de recursos e soluções existentes; e a adoção de respostas estruturais e possíveis mudanças de longo prazo.

    “Dados os custos humanos e financeiros da crise e suas repercussões no funcionamento de nossas democracias, é vital que os governos procurem aprender com a experiência”, pontuou a OCDE no documento que chamou de “A crise da Covid-19: um catalisador para a transformação de governos?”. 

    “Esperamos que este estudo ajude governos a considerarem o potencial da crise como um catalisador, ainda que cruel, de transformação, para que possam sair dela melhor do que entraram e sigam implementando reformas do setor público para formar cidadãos mais centrados e um futuro sustentável”, afirma o texto.

    Outro meio eficiente, do ponto de vista pragmático, de enfrentar a crise pandêmica é justamente o de lançar mão de medidas de força para que se garanta a obtenção de bons resultados numéricos. Tomando-se como reais os dados oficiais, governos de países como Coreia do Norte e Vietnã contiveram a disseminação do vírus ao impor rígidos confinamentos e o controle rigoroso de suas fronteiras. 

    A OCDE defende, no entanto, que a eventual persistência da contaminação e a possível ocorrência de novos episódios exigirão a ação de sociedades ainda mais transparentes, abertas e democráticas para assegurar a continuidade de atividades sociais e sobrevivência econômica.

    O caso Trump

    Surfando numa invejável onda de prosperidade econômica, Donald Trump começou 2020 como franco favorito à reeleição em novembro. Medidas de austeridade fiscal e a guerra comercial aberta com a China ajudavam na recuperação do emprego e começavam a formar uma legião de eleitores adeptos do movimento antissistema. Até que a resposta insuficiente à pandemia abriu brechas entre ele e a confiança dos americanos.

    “A pandemia acirrou as tensões entre Trump e grupos que já antes da crise sanitária questionavam seus métodos”, declara o professor Brites. Concorreram com a crise de saúde – que, já no período de campanha eleitoral, elevava o número de mortes por Covid-19 à casa dos 3 mil por dia –, revoltas de natureza racial e étnica, formando o caldo de cultura que resultou na eleição do democrata Joe Biden, em novembro. 

    Do início da crise do coronavírus até a eleição, a imagem de Trump se arranhou continuamente com sua oposição às medidas de distanciamento recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo conselheiro de Saúde de seu próprio governo, Anthony Fauci – além de sua insistência na adoção de medicamentos de eficácia comprovadamente nula para casos de Covid-19.

    Jacinda Ardern durante debate em Auckland, em setembro
    Jacinda Ardern durante debate em Auckland; ela foi reeleita premiê da Nova Zelândia
    Foto: Fiona Goodall – 22.set.2020/Reuters

     O caso Jacinda

    A trabalhista Jacinda Ardern, premiê da Nova Zelândia desde 2017, converteu-se desde o início da crise do Covid-19 na musa política da pandemia. A partir dos primeiros dias da emergência, Jacinda mobilizou seu gabinete no esforço de comprar testes, promover o isolamento da população, mitigar os efeitos econômicos adversos da crise e adequar-se a todas as recomendações de seus conselheiros científicos e da OMS.

    Com isso, lançou sua imagem no plano político internacional como nenhum outro líder da história do arquipélago da Oceania colonizado pelos ingleses. Analistas ponderam sempre a necessidade de se levar em conta o isolamento geográfico natural  e população relativamento pequena da Nova Zelândia, que tem cerca de 5 milhões de habitantes.

    O caso Piñera

    Sebastián Piñera, presidente do Chile, terminou 2019 às voltas de uma revolta popular que reivindicava uma Constituição para substituir a Carta promulgada por Augusto Pinochet. Um acordo político previa a eleição da Constituinte para o primeiro semestre de 2020.

    A pandemia de Covid-19, no entanto, deu a ele espaço para respirar politicamente. Piñera fez tudo para tentar não errar e complicar sua situação política na gestão da crise sanitária, mas a assistência à saúde é justamente um dos pontos fracos do arcabouço de política social legado pela ditadura pinochetista. O país não tem uma rede de saúde estatal gratuita – os chilenos dependem de um sistema de saúde escalonado e privado, bancado, em grande parte por empregadores.

    A pandemia tornou essa fragilidade explícita. Como consequência, no a eleição da Assembleia Constituinte do começo do mês impôs uma grande derrota aos conserva-dores representados por Piñera e ungiu uma maioria de políticos de centro-esquerda e independentes que deve mudar o caráter do país como maior vitrine neoliberal da América Latina.

    Presidente do México, Andres Manuel Lopez Obrador
    Presidente do México, Andrés Manuel Lopez Obrador
    Foto: Divulgação

    O caso AMLO

    Andrés Manuel López Obrador, presidente mexicano, converteu-se, logo no início da pandemia, como o grande negacionista de esquerda da crise sanitária. Temendo os efeitos políticos da paralisação da economia, López Obrador minimizou a Covid-19 o quanto pôde, recusou-se a usar máscaras e fez campanha pelo uso de medicamentos ineficazes para a doença.

    Sua posição só foi mudando aos poucos, quando percebeu que sua popularidade vinha baixando. Em janeiro, no entanto, foi infectado pelo vírus e passou a defender algumas restrições às atividades econômicas. A um mês de decisivas eleições parlamentares, estaduais e municipais, seu governo tem aprovação de apenas 27% dos eleitores, segundo pesquisas do jornal “El Financiero”.

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