Guerra na Ucrânia pode impactar comércio e causar aumento da fome na África

Continente pode encarar drástica queda de exportações agrícolas e interrupção do comércio caso o conflito no Leste Europeu tenha longa duração

Presidente russo, Vladimir Putin, acena ao lado do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e líder do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, durante cúpula Rússia-África em 2019
Presidente russo, Vladimir Putin, acena ao lado do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e líder do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, durante cúpula Rússia-África em 2019 Foto: Mikhail Metzel/TASS via Getty Images

Nimi Princewillda CNN

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À medida que as tropas russas avançam na Ucrânia, partes da África estão se preparando para encarar o impacto de um conflito potencialmente prolongado entre as ex-repúblicas soviéticas — dois dos principais parceiros comerciais do continente.

Economistas africanos alertam para uma iminente e provavelmente catastrófica redução dos volumes de comércio entre o continente e seus parceiros que estão em guerra, principalmente se a incursão amplamente condenada da Rússia na Ucrânia não for de curta duração.

A Rússia e a Ucrânia são atores cruciais no comércio agrícola global, com ambas as nações respondendo por um quarto das exportações mundiais de trigo, incluindo pelo menos 14% das exportações de milho em 2020, e 58% das exportações globais de óleo de girassol no mesmo ano.

O comércio entre os países africanos e os antigos vizinhos soviéticos, especialmente a Rússia, cresceu nos últimos anos com exportações russas para o continente avaliadas em US$ 14 bilhões por ano e importações da África em torno de US$ 5 bilhões por ano.

Mas analistas estão preocupados de que esses ganhos estejam prestes a se desgastar rapidamente, causando uma grave degradação nas condições alimentares da África se a operação militar da Rússia na Ucrânia persistir.

Três meses para o avanço da fome

Partes do continente africano podem mergulhar na fome em apenas três meses se a invasão da Ucrânia pela Rússia persistir, avalia Wandile Sihlobo, economista-chefe da Câmara de Negócios Agrícolas da África do Sul.

“No curto prazo, entre agora e três meses, o conflito afetará o fornecimento de alimentos principalmente do ponto de vista dos preços”, disse Sihlobo à CNN.

“Como importadores de produtos como trigo, que influencia pão e cereais, óleo de girassol e milho, os países africanos estão bastante expostos a alguns desses suprimentos que estão saindo da Rússia e da Ucrânia. Haverá desafios se a guerra continuar por mais de três meses — porque normalmente os países mantêm estoques de suprimentos por três a cinco meses”, afirmou.

Líder russo, Vladimir Putin, acompanhado do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e o presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, durante cúpula Rússia-África em 2019 / Foto: Alexander Ryumin/TASS via Getty Images

Sihlobo explica que a guerra na Ucrânia também vem em um momento ruim para a África, dada a experiência atual de uma seca severa em sua sub-região oriental, que afetou os preços dos alimentos.

“Os preços dos alimentos já estão altos agora. Se a guerra se estender, haverá milhões de africanos que passarão fome. Já estamos esperando que milhões de pessoas passem fome nas áreas afetadas pela seca, então o conflito em curso vai piorar isso”, disse ele.

As maiores economias da África, como Nigéria, Egito, África do Sul, Argélia e Quênia, são grandes importadoras das exportações agrícolas da Rússia, colocando-as em risco de novos aumentos nos preços dos alimentos se o comércio for interrompido.

Sihlobo acrescenta que as sanções contra a Rússia também podem complicar as exportações da África.

“A África exporta frutas e legumes para a Rússia e a Ucrânia. Sete por cento dos cítricos da África do Sul vão para a Rússia, 14% das maçãs e peras da África do Sul vão para a Rússia. Egito e Tunísia também exportam frutas e legumes para a Rússia. O desafio com todos esses países é que, com todas as sanções impostas à Rússia pelos EUA e países europeus, isso influenciaria o setor de serviços financeiros. Mesmo que a logística não seja afetada imediatamente, atrapalhará o sistema de pagamentos de todos os países exportadores para a Rússia”, disse ele à CNN.

O economista especializado em desenvolvimento Ndumiso Hadebe concorda que “a África provavelmente verá distúrbios nas cadeias de suprimentos que pertencem a bens e serviços que são exportados e importados entre a Rússia e o continente”, enquanto a Rússia é atacada com uma enxurrada de sanções por críticos de sua invasão na Ucrânia.

Escolhendo um lado no conflito

Hadebe disse à CNN que a resposta, em grande parte silenciosa, da África em relação ao conflito entre Rússia e Ucrânia pode se tornar uma postura mais direta sobre as partes envolvidas na guerra caso os combates se intensifiquem.

Apenas uma pequena parte de governos no continente se pronunciou após os ataques, com a União Africana pedindo o respeito da Rússia pela soberania e integridade territorial da Ucrânia.

“Haverá uma pressão significativa do ponto de vista das relações multilaterais, pois os países africanos podem ser forçados a tomar uma posição sobre o conflito que está acontecendo entre a Rússia e a Ucrânia, e isso pode afetar negativa ou positivamente a relação entre a África e a Rússia no futuro”, avalia o economista.

Na visão da acadêmica russa Irina Filatova, tomar partido não beneficiará a África.

“Não será benéfico para a África tomar partido. Acho que a África pode tentar permanecer neutra”, disse Filatova, especialista em história russa e africana.

Além da agricultura, a Rússia está expandindo sua influência em estados africanos lidando com problemas de motins e rebeldes, fornecendo soluções militares alternativas às oferecidas por países ocidentais, que muitas vezes são determinadas por políticas de direitos humanos.

A Rússia assinou até 20 acordos de cooperação militar na África, incluindo acordos com a Nigéria e a Etiópia, dois dos países mais populosos da África.

Os mercenários russos são constantemente acusados ​​de infrações de direitos humanos na República Centro-Africana e em outras partes da África, onde foram contratados por governos regionais para combater rebeldes locais.

No entanto, a Rússia negou ligações com empreiteiros militares privados, como o Grupo Wagner, acusado dos abusos.

Hadebe disse à CNN que o comércio de armas é “uma das principais características que definiram a relação comercial entre a Rússia e a África”.

“A Rússia é o maior exportador de armas para a África subsaariana em particular.”

A África respondeu por 18% das exportações de armas russas entre 2016 e 2020, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.

De acordo com Filatova, as perspectivas da Rússia de dobrar seus interesses na África podem ser maiores após a guerra na Ucrânia.

“A Rússia estará muito mais interessada em manter relações com os países africanos do que estava até agora. Já começou inclusive a desenvolver essas relações, mas na situação de isolamento global pelo mundo ocidental, definitivamente tentará manter relações com África”, disse ela à CNN.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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