Confrontos na fronteira entre Índia e China deixam mortos pela 1ª vez em 45 anos

Para especialistas, essas são as primeiras mortes registradas na disputada área há mais de quatro décadas

Bandeiras da China e da Índia na Feira Mundial do Livro, em Nova Déli
Bandeiras da China e da Índia na Feira Mundial do Livro, em Nova Déli Foto: Chandan Khanna - 09.jan.2016 / AFP / AFP via Getty Images

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Soldados indianos foram mortos durante um “confronto violento” com tropas chinesas na fronteira entre os dois países, na região do Himalaia, na noite dessa segunda-feira (15), informou o Exército da Índia em um comunicado. Segundo analistas, são as primeiras mortes em confrontos na fronteira entre os dois gigantes asiáticos em 45 anos.

Inicialmente, havia a confirmação de três mortes. Na tarde desta terça (16), o Exército atualizou o número para 20, dizendo que 17 militares indianos não resistiram aos ferimentos.

O Ministério do Exterior indiano disse que houve mortes de ambos os lados, mas não confirmou o número de vítimas da tropa chinesa.

O incidente aconteceu em meio a um “processo de desescalada” no Galwan Valley, localizado na disputada área de Aksai Chin e Ladaque, na Caxemira, onde tropas estão reunidas há semanas nos dois lados da fronteira.

De acordo com a nota do Exército indiano, houve vítimas “nos dois lados”, incluindo um oficial e dois soldados indianos. Ela não cita o número de mortos entre os chineses, mas diz que altos oficiais militares dos dois lados estão conversando para neutralizar a situação.

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Durante uma reunião nesta terça-feira (16) com o chefe do Estado-Maior, do Exército, da Marinha e da Força Aérea, o ministro da Defesa da Índia, Rajnath Singh, “revisou a situação atual da operação no leste de Ladaque”. O ministro das Relações Exteriores da Índia também estava presente.

Na China, em uma entrevista coletiva também nesta terça, o porta-voz da chancelaria da China, Zhao Lijian, disse que “tropas indianas violaram seriamente nosso acordo e cruzaram duas vezes a linha da fronteira para atividades ilegais, provocando e atacando o grupo chinês, o que levou a um sério conflito físico entre os dois lados”.

“De novo, pedimos solenemente à Índia que siga nosso acordo, regule suas tropas da linha de frente e não cruze a linha e provoque problemas ou aja de maneira unilateral que possa complicar a situação”, afirmou Zhao. “Ambos concordamos em resolver esse assunto através do diálogo e nos esforçar para facilitar a situação e promover paz e tranquilidade na região da fronteira.”

Zhao não comentou se houve mortes no lado chinês. Militares da China também não responderam a pedidos por comentários.

Primeiras mortes na região em 45 anos

As mortes nos confrontos de segunda-feira são as primeiras registradas na disputada área fronteiriça há mais de quatro décadas, segundo especialistas em defesa indiana.

“Não tínhamos mortes na Linha de Controle Real (LAC, em inglês) há ao menos 45 anos”, disse Happymon Jacob, professor associado e analista político da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Déli. “Isso talvez seja um divisor de águas. Talvez o começo do fim do relacionamento harmonioso que a Índia mantinha com a China há 45 anos.”

O general Bikram Singh, ex-chefe do Estado-Maior da Índia, também confirmou à CNN que este é o primeiro incidente com mortos nos últimos 45 anos.

Quais os motivos para o confronto entre China e Índia?

A tensão tem crescido na região do Himalaia, ao longo de uma das maiores fronteiras terrestres do mundo, desde maio, com Nova Délhi e Pequim acusando uma a outra de ultrapassar a LAC, que separa os dois vizinhos detentores de armas nucleares. Esse território é disputado há muitos anos e palco de inúmeros conflitos pequenos e disputas diplomáticas desde a sangrenta guerra entre os dois países, em 1962.

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A LAC vai de Aksai Chin, sob controle da China, até a disputada região de Jammu e Caxemira. Essa linha resultou da disputa pela área fronteiriça entre a China e a Índia em 1962, mas nenhum dos lados concorda exatamente com o outro em relação a onde ela começa e qual o seu tamanho. 

Aksai Chin é administrada pela China como parte de Xinjiang, mas também é reivindicada pelo governo indiano como parte de Ladaque.

O aumento de tropas na região deixou muitas pessoas preocupadas com o potencial de um confronto, principalmente porque os meios de comunicação chineses e indianos publicaram pedidos de ação absurdos.

Os líderes chinês e indiano, Xi Jinping e Narendra Modi, conseguiram reunir apoio da população em grande parte por causa do nacionalismo e da promessa de uma futura grandeza. Isso normalmente é traduzido como uma retórica agressiva, ainda mais quando dirigida ao público local. Tal abordagem ficou evidenciada na cobertura chinesa das manobras do Exército de Libertação Popular (ELP) no Himalaia. 

Apesar dos pedidos públicos de Nova Déli para um alívio das tensões, os governos indianos vêm usando um tom agressivo. No início do mês, por exemplo, o ministro de Assuntos Internos, Amit Shah, disse em uma reunião do governante Partido Bharatiya Janata que “qualquer violação das fronteiras da Índia será punida”.

“Alguns costumavam dizer que Estados Unidos e Israel eram os únicos países dispostos e capazes de vingar de qualquer gota de sangue derramada de seus soldados”, afirmou Shah. “[Modi] incluiu a Índia nessa lista.”

À CNN, o general Singh disse que parte do problema é que a fronteira de fato está mal definida. “Em níveis estratégicos e operacionais, ambos os Exércitos impuseram restrições”, afirmou ele. “Contudo, em nível tático, confrontos ocorrem em razão de percepções diferentes de onde a fronteira atual está, já que a LAC não está desenhada no chão.”

Sobre o confronto recente, a ex-secretária de Relações Exteriores da Índia espera que a crise atual não leve a um abandono das negociações diplomáticas de longa data sobre o disputado território.

“Mesmo se as tensões aumentarem e os ânimos ficarem desgastados, eles farão bem em lembrar que precisam continuar a lidar com suas diferenças de forma madura, porque os confrontos armados e militares podem ter consequências extremamente sérias para a estabilidade da região, indo além do âmbito da relação puramente bilateral entre os dois países”, afirmou ela.

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês)

(Com informações da Reuters)

 

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