Na TV russa, são os Estados Unidos e a Otan que estão prestes a atacar a Ucrânia

Na mídia estatal da Rússia, as forças do Ocidente estão tramando um plano para cercar o país, derrubar Putin do poder e assumir o controle dos recursos energéticos russos

Bandeiras da Rússia e dos Estados Unidos em Vsevolozhsk
Bandeiras da Rússia e dos Estados Unidos em Vsevolozhsk REUTERS/Anton Vaganov

Jill Doughertyda CNN

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Forças estrangeiras fortemente armadas estão marchando em direção à fronteira ucraniana. Aviões de reconhecimento estão sobrevoando a região. Rumores de operações estão correndo soltos.

Se você estiver assistindo à TV estatal em Moscou, verá vídeos de tropas e tanques, arame farpado e atiradores mirando, mas não são as forças da Rússia que estão prontas para atacar — são as da Otan.

Seja bem-vindo à representação espelhada da Rússia do confronto sobre a Ucrânia. No cenário alternativo da mídia do país, as forças da Otan estão realizando um plano que está em andamento há anos: cercar a Rússia, derrubar o presidente Vladimir Putin e assumir o controle dos recursos energéticos russos.

Na visão de Moscou, repetida em quase todos os noticiários e talk shows, a Ucrânia é um estado falido inteiramente controlado pelo “mestre das marionetes” — os Estados Unidos. Já a Europa é uma união fraca e dividida de subservientes que recebem ordens de Washington. Até mesmo os EUA, por mais assustadoramente ameaçadores que sejam, também são fracos e divididos, conturbados pela forte divisão política e pelos protestos raciais.

Mas eis que surge a dúvida. Como esses países poderosos podem ser uma ameaça e ser fracos ao mesmo tempo? Esse é um dos enigmas da propaganda estatal russa. Refletir sobre os acontecimentos não é o que eles estão tentando encorajar. Em vez disso, estão tentando aumentar a pressão sanguínea de seus espectadores — e deixá-los com muito medo.

O principal programa de notícias políticas da TV estatal russa, “Vesti Nedeli” (“Notícias da Semana”) de Dmitry Kiselyov, estreou no domingo passado com o apresentador dizendo: “Em vez de responder às iniciativas pacíficas do Kremlin, eles estão nos enchendo de acusações e novas ameaças”.

Qualquer indício de discordâncias entre a Europa e os EUA ou a Otan vira manchete na Rússia, e uma das principais notícias do programa de Kiselyov levou a comentários sobre o chefe naval da Alemanha que disse que Putin “merece respeito” e que a Crimeia — um território ucraniano anexado por Moscou — “se foi para sempre”. A reportagem da TV russa terminou com uma nota em tom satisfatório de que o oficial teve que renunciar.

A Ucrânia pode não sofrer uma invasão por enquanto, mas já existe uma guerra de palavras na mídia russa.

Na linha de frente, ucranianos se preparam para possível ataque:

As declarações do governo dos EUA são desprezadas e tratadas como comentários do “Ministério da Informação”, e o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, acusou Washington de “histeria da informação”, “mentira” e “falsificação”. (A palavra “fake” agora é uma palavra russa também, pronunciada praticamente da mesma forma que em inglês)

Coincidentemente, mapas na TV estatal russa mostrando a Bielorrússia, aliada da Rússia, cercada por forças da Otan têm uma estranha semelhança com os mapas usados pela mídia do Ocidente que mostram a Ucrânia cercada por três lados por tropas russas.

Acusações de possíveis ataques russos à Ucrânia são descartadas e tratadas como “russofobia” dos “anglo-saxões”.

De acordo com o Kremlin, as tensões não estão se elevando por causa da Rússia — mas sim por causa da Otan.

Em uma impressionante peça de propaganda, a TV russa retransmitiu, com tradução, comentários do comentarista da Fox News Tucker Carlson, cujos discursos anti-Otan e anti-presidente Joe Biden se alinham perfeitamente com a linha utilizada pelo Kremlin. “Ele [Carlson] deveria estar no seu programa!”, disse um convidado ao apresentador de um talk show russo.

A cobertura da mídia estatal da Rússia parece estar surtindo efeito. Uma pesquisa de dezembro realizada pela organização não governamental de pesquisa “Levada-Center” mostrou que metade dos entrevistados culpa os EUA e a Otan pelas tensões na Ucrânia, enquanto apenas 3% a 4% culpam a Rússia.

A pesquisa descobriu também que pouco mais da metade dos russos acredita que a crise na Ucrânia não se transformará em uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia, com mais de um terço (39%) dizendo que acham que a guerra é “inevitável” ou “muito provável”. Um quarto dos entrevistados disse acreditar que é possível uma guerra entre a Rússia e a Otan.

Em outra pesquisa do Levada-Center, também de dezembro, mais da metade dos entrevistados (56%) disse que as relações entre a Rússia e a Otan se deterioraram seriamente, o maior resultado desde o início do conflito com a Ucrânia em 2014. Mais da metade dos entrevistados (56%) disseram que estão preocupados com a possibilidade de uma guerra mundial.

Muitos russos pensam que estão sendo arrastados para uma guerra pelo Ocidente, de acordo com uma pesquisa conduzida pelo Riddle, um jornal online sobre assuntos russos.

“A Rússia terá que responder… Estamos sendo beliscados de todos os lados; eles estão nos mordendo. O que devemos fazer? Ceder?” disse um entrevistado da pesquisa.

Enquanto isso, os pesquisadores do Levada-Center dizem que os russos estão “mentalmente cansados” pelo tema da Ucrânia que, segundo eles, “parece ser imposto pelos principais meios de comunicação”.

Como resultado, os espectadores não refletem sobre as notícias nem verificam o que ouvem dos apresentadores dos programas de TV.

À medida que uma geração mais jovem acessa a internet para obter informações, com certeza o cenário da mídia russa está mudando. Mas a maioria das agências de notícias alternativas na Rússia foram fechadas ou marginalizadas — e a realidade paralela do Kremlin continua a dominar as ondas de transmissão.

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