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    Novo ministério da Turquia indica os rumos do país

    Erdogan opta por políticos com mais experiência técnica ao entrar na terceira década de governo

    Presidente turco, Tayyip Erdogan, toma posse no Parlamento após conquistar a reeleição.
    Presidente turco, Tayyip Erdogan, toma posse no Parlamento após conquistar a reeleição. 03/06/2023REUTERS/Umit Bektas

    Gul Tuysuz

    Istambul

    O presidente turco Recep Tayyip Erdogan empossou seu novo gabinete durante o primeiro fim de semana de junho. O evento inaugurou o que ele chamou de “um novo período de glória” para a Turquia ao entrar em seu segundo século de história, e uma era que ele espera que consolide seu governo da nação de 85 milhões de pessoas.

    As nomeações do gabinete sugerem um retorno à política econômica ortodoxa e, ao mesmo tempo, a manutenção da política externa. O governo de Erdogan está entrando em sua terceira década no poder.

    Na frente econômica, a volta de Mehmet Simsek como ministro das Finanças – cargo que ele ocupou entre 2009 e 2015 antes de se tornar vice-primeiro-ministro de Erdogan – foi ansiosamente antecipada nos círculos empresariais no país e no exterior.

    Quando o antecessor de Simsek, Nureddin Nebati, entregou oficialmente seu cargo no domingo, microfones captaram o suspiro de alívio do agora ex-ministro. A reação não foi uma surpresa, dado o estado da economia turca. As políticas econômicas pouco ortodoxas de Erdogan ao longo dos últimos anos levaram a uma crise de custo de vida e à queda da lira turca. Os esforços para defender a moeda resultaram em mínimas recordes das reservas do banco central turco. A lira já havia caído 7% até a quarta-feira (7), atingindo 22,98 contra o dólar americano, informou a Reuters. É o quadro que Simsek pegou ao tomar posse.

    “Transparência, consistência, previsibilidade e conformidade com as normas internacionais serão nossos princípios básicos para alcançar esse objetivo no próximo período”, declarou Simsek em seu primeiro discurso desde que foi nomeado para o cargo.

    “A Turquia não tem outra escolha senão retornar a uma base racional. Uma economia turca previsível e baseada em regras será a chave para alcançar a prosperidade desejada”, continuou.

    Com essa mensagem, Simsek pode convencer os investidores estrangeiros e incutir esperança suficiente internamente para manter a economia do país, que é membro do G20, à tona.

    Mas sua batalha mais difícil pode ser convencer o próprio Erdogan.

    Embora Simsek provavelmente seja o arquiteto-chefe de uma nova política econômica, as outras nomeações do presidente sugerem que ele pode estar aproveitando diferentes visões econômicas, de acordo com Mehmet Celik, coordenador editorial do jornal pró-governo “Daily Sabah”.

    O vice-presidente Cevdet Yilmaz é burocrata de carreira e economista, e o ministro do Comércio, Omer Bolat, vem de uma formação empresarial. “As escolhas foram estratégicas para que houvesse um novo equilíbrio”, opinou Celik à CNN.

    Na arena internacional, a Turquia implantou nos últimos anos uma política forte usando os ministérios das Relações Exteriores e da Defesa, juntamente com a inteligência turca, que expandiu seu alcance regionalmente e esculpiu um caminho independente para se tornar membro da OTAN. Nesse aspecto, a continuidade é provável.

    Diplomata de bastidores

    O novo ministro dos Negócios Estrangeiros é uma figura bem conhecida para os turcos e players internacionais que negociaram com o país nos últimos anos. Hakan Fidan, que atuou como chefe da Agência Turca de Inteligência (MIT) desde 2010, participou de todas as reuniões e discussões fundamentais para a política externa turca nos últimos anos. Fidan sempre esteve presente, mas raramente era ouvido, ou seja, ele foi um diplomata de bastidores no arsenal de política externa de Erdogan enquanto eram traçadas as ásperas políticas relativas à Síria, à Líbia e outras.

    O diplomata tem desempenhado um papel central na formação e execução da política externa, juntamente do ex-porta-voz-chefe e conselheiro de segurança nacional Ibrahim Kalin, que agora assumiu o seu antigo cargo como chefe de inteligência.

    “Continuarei melhorando nossa visão de política externa nacional, que é baseada na vontade soberana do nosso povo e na independência do nosso estado de todas as esferas de influência”, disse Fidan em sua cerimônia de posse.

    A política externa turca colocou o país numa rota de colisão com vizinhos, aliados e parceiros, incluindo a Grécia, com a qual tem relações tensas no leste do Mediterrâneo e com os países ocidentais a respeito da questão dos cursos apoiados pelos EUA no norte da Síria.

    “Há uma disposição da Turquia para baixar a guarda quando se trata do Ocidente”, disse o editor Celik. “Mas, quando o Ocidente pede tudo e nada dá em troca, a Turquia não pode se contentar. O país continuará sendo firme e se opondo a ser ditado sobre o que fazer”, continuou.

    As relações tensas não serão fáceis de consertar, mas Fidan foi magistral em seu papel anterior, como chefe de espiões, ao encontrar maneiras de negociar avanços em relações difíceis.

    Ele entrou para consertar laços desgastados com os estados árabes do Golfo, e tem sido uma força motriz por trás da lenta aproximação entre os governos da Síria e a Turquia. O diplomata agora entra em uma era onde é a principal voz para a Turquia no exterior.

    Todos os olhos estarão sobre ele na questão da tentativa da Suécia de se juntar à OTAN. Embora os Estados Unidos e os membros europeus da OTAN tenham pressa em admitir o país escandinavo, a Turquia segurou a adesão porque diz que a Suécia é o lar do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que é proibido na Turquia, na UE e nos EUA.

    A Suécia reconheceu que as atividades do grupo no país eram “extensas” e “um problema maior do que imaginávamos”.

    Ministro do Interior de fala mansa

    No ministério do Interior, Suleyman Soylu, um homem estilo linha dura, está sendo substituído pelo burocrata de carreira e ex-governador de Istambul Ali Yerlikaya. Seu currículo é bastante extenso.

    As principais áreas de foco de Yerlikaya serão a resposta contínua ao terremoto que matou mais de 50 mil pessoas no sul da Turquia, os 3,5 milhões de refugiados sírios e os esforços contínuos contra o terrorismo contra o PKK.

    Com apoio amplo de todo o espectro político do país, a luta contra o terrorismo provavelmente seguirá as mesmas linhas, mas o tom do ministério provavelmente mudará, de acordo com Celik.

    Yerlikaya é um político de fala mais suave que dirige silenciosamente Istambul desde 2018 e é improvável que tente seguir o estilo retórico áspero de Soylu. Uma mudança de tom pode servir para fazer uma ponte na divisão social que tem atormentado a Turquia nos últimos anos.

    No entanto, os membros do gabinete que saem estão longe de se aposentar. O ex-ministro do Interior Soylu, o ex da Defesa, Hulusi Akar, e o ex de Negócios Estrangeiros, Mevlut Cavusoglu, são todos deputados do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (Partido AK), o mesmo de Erdogan.

    Eles acabaram de tomar posse de seus novos mandatos no parlamento, destacando a tremenda força do partido lá. Suas vozes provavelmente ecoarão mais alto do que as dos deputados da oposição, que agora terão mais dificuldade para convencer os eleitores de suas posições.

    No geral, o novo ministério se afasta das nomeações políticas que definiram a era na Turquia após a tentativa de golpe de estado em 2015 e, ao invés disso, se baseia em um forte grupo de tecnocratas.

    Ao liderar a Turquia em seu segundo século, Erdogan parece estar empregando uma abordagem de retorno ao mais básico. Com a polarização social em sua alta histórica, a economia em crise e uma região repleta de dificuldades, o gabinete tem potencial para redefinir alguns erros econômicos dos anos anteriores, mantendo a linha sobre a política externa.

    Mas muita coisa depende apenas de Erdogan para acontecer, pois, na Turquia, a última palavra é sempre dele.

     

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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