O fotógrafo de celebridades que se recusa a usar Photoshop

Seus retratos nunca são retocados, revelando as 'paisagens faciais' dos atores, com todas as suas rugas, manchas e sorrisos

Megan C. Hillsda CNN

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O fotógrafo Andy Gotts retratou inúmeras estrelas, de gigantes de Hollywood como Al Pacino, Brad Pitt e Julia Roberts a novatos promissores como Anya Taylor-Joy e Nathalie Emmanuel.

Mas existe uma foto que, para ele, é a mais comovente de toda a sua carreira: um retrato do falecido Tony Curtis com o rosto pintado com a bandeira americana.

O fotógrafo britânico se lembra implorar por anos ao agente do ator para fazer uma sessão de fotos. Após muitos “nãos”, ele conseguiu o número de telefone da esposa de Curtis, e ela o atendeu. Uma sessão de fotos foi marcada para o dia seguinte.

Naquela noite, porém, Curtis ligou para Gotts. O ator, que sofria de vários problemas de saúde e estava usando uma cadeira de rodas na época e disse que não estava se sentindo bem.

“Ele me disse: ‘Não me sinto nada bem, mas honrarei nosso compromisso de amanhã se você me fizer uma promessa'”, contou Gotts em uma entrevista em vídeo. “Eu respondi: qualquer coisa, qualquer coisa”.

“Ele então perguntou: ‘Você vai me fazer parecer um ícone por mais uma vez?’ Eu disse que faria meu melhor”.

Foi a última foto do ator, de acordo com Gotts, que disse que Curtis viu a fotografia poucas horas antes de sua morte e a declarou “a melhor já tirada de mim”. Típica do estilo calado e sombrio de Gotts, a imagem captura as luzes refletindo nos olhos do ator, enquanto ele encara a câmera com o rosto pintado.

A imagem está entre dezenas de retratos de celebridades presentes na nova exposição “Icons”, e também em um livro de mesmo nome de autoria do famoso fotógrafo.

Em sua carreira de três décadas, o fotógrafo se tornou favorito entre celebridades por seu estilo distinto e sessões de fotos discretas.

Com iluminação inspirada nos antigos mestres da história da arte como Caravaggio e Rembrandt, e também em grandes nomes do cinema como Alfred Hitchcock e David Lean, Gotts trabalha com uma câmera analógica e sem equipe.

Seus retratos nunca são retocados, revelando as “paisagens faciais” dos atores, com todas as suas rugas, manchas e sorrisos. É um estilo que se manteve praticamente inalterado desde que ele começou.

“Se você vir uma espinha no rosto de alguém, ou um pelo fora do lugar – é porque as pessoas estavam assim, bem ali na minha frente”, contou. “Eu estava capturando aquele momento em que elas se sentaram comigo para aquela conversa”.

Pendurado atrás de Gotts há um retrato de Kate Moss revelando uma pele radiante — poros, linhas minúsculas e tudo o mais.

Estrelas como Kate Winslet, Naomi Campbell e Sir Ian McKellen abraçaram seu estilo sincero, mas sua aversão a retocar imagens no Photoshop tem sido um problema para alguns, refletiu.

“Dois cantores icônicos, provavelmente os maiores do mundo, me disseram: ‘Andy, eu amo suas fotos e tenho suas fotos, mas você nunca vai me fotografar porque isso vai mostrar como sou'”.

Desnudando

Gotts já foi assistente dos célebres fotógrafos Lord Snowdon e David Bailey, embora essa experiência tenha tido um impacto inesperado: mostrou a ele exatamente o tipo de fotógrafo que não queria ser, afirmou.

“Se você pensar no fim dos anos 80 e 90, muitos retratos tinham fundos glamorosos e ostentavam muito”, relembrou.

Gotts resistiu à preferência da época pela fotografia glamorosa e encenada e, em vez disso, optou por fundos simples inspirados nos anos 60, que “caíram em desgraça” na época, comentou. Focando sua atenção nos rostos das pessoas, sua preferência por fotografia em preto e branco acentuava cada detalhe, e seu estilo de superexposição e revelação saturada ajudaram a criar contrastes gritantes.

“É essencialmente a paisagem do rosto que me interessa — os cantos e fendas, os picos e vales de um rosto humano”, explicou. “É isso que amo. Todas as lindas imperfeições. É fantástico, e ninguém estava fazendo isso.

“Eu pensei: bem, se eu tirar todo o resto, é apenas um rosto”, continuou.

Enquanto trabalhava com Bailey, Gotts também descobriu que o fotógrafo estava constantemente rodeado por um “circo” de assistentes — um fiasco que deixava as pessoas “obviamente entediadas”, comentou. “Eu pensei comigo: quando fizer isso, vou ser apenas eu, sem assistentes. E eu vou ser muito, muito rápido. Essa era minha ideia quando comecei: rapidez”, acrescentou.

O ator Paul Newman passou a chamá-lo de “One Shot Gotts” depois que o fotógrafo tirou a melhor foto de primeira. Mas, além da velocidade, a habilidade de Gotts de deixar as celebridades “à vontade” permite que ele capture retratos mais íntimos e autênticos. Bater papo e contar piadas grosseiras é essencial para seu método, que o permite criar momentos fotográficos por meio de conversas.

Gotts rejeita a ideia de um tradicional “estúdio cinza e monótono” e, em vez disso, prefere uma suíte de hotel adaptada em Londres ou a casa das pessoas.

Ele explicou: “Imediatamente, é como se elas tivessem ido ver um amigo, e não para uma sessão de fotos”.

Embora Gotts, às vezes, tenha ideias preconcebidas para as sessões, ele geralmente se adapta à situação. Um retrato pensativo de Robin Williams, por exemplo, foi tirado quando o falecido ator revelou, inesperadamente, como a morte de John Belushi o afetou.

George Clooney, por sua vez, foi fotografado em sua casa na Itália depois de desenterrar um chapéu de pirata de uma festa da noite anterior.

Outras vezes, convidados surpresa acabavam alterando completamente uma sessão de fotos. Quando Gotts fotografou Matt Damon pela primeira vez, por exemplo, ele quis capturar os “olhos penetrantes” do ator em um retrato íntimo. Mas, durante a sessão, Heath Ledger, que atuou com Damon em “Os Irmãos Grimm”, correu para dentro da sala buscando um lugar para se esconder depois de acidentalmente derrubar uma mesa de maquiagem. A partir daí, Ledger fez de tudo para fazer Damon rir – jogando papel higiênico, vendando-o com um lenço e abraçando o ator.

Gotts não parava de registrar a zoeira de Ledger. Mas o rolo de filme sem identificação com as imagens da dupla caiu no forro da bolsa da câmera e ficou esquecido por anos. Quando Gotts o encontrou e revelou as fotos, Heath Ledger já tinha falecido.

“Era o único rolo de filme com Heath e Matt juntos, desses dois brincando juntos… Esse momento foi um daqueles em que esses dois amigos estavam unidos”, lembrou.

Gotts imprimiu grandes cópias das fotos e as enviou para as famílias de Damon e Ledger. Os pais do falecido ator “adoraram as fotos”, contou, e deram permissão para ele compartilhá-las em seu novo livro. “Este é o Heath”, lembrou-se da fala dos pais de Ledger.

Fazendo as perguntas certas

A entrada de Gotts na indústria foi o menos convencional possível, mas reflete sua abordagem aparentemente destemida. Aos 19 anos, ainda um estudante de fotografia, ele interrompeu o ícone britânico Stephen Fry durante uma palestra para perguntar se o comediante poderia posar para uma foto. Fry revirou os olhos e disse que ele tinha 90 segundos.

O retrato em preto e branco acabou na lareira de Fry, onde foi visto pelo ator Kenneth Branagh. Quando Gotts percebeu, estava fotografando Branagh e sua então esposa Emma Thompson – e começando sua carreira via recomendações boca a boca que se espalhavam pelas rodinhas de celebridades.

Desde então, Gotts não parou de pedir – e conseguir – fotos, fazendo sessões com Clint Eastwood com a ajuda a Morgan Freeman ou pedindo a Harrison Ford para incorporar emoções na hora certa. O ator Harrison Ford, de “Star Wars”, disse a Gotts que ninguém nunca tinha pedido para ele ficar bobo numa foto, dizendo: “Todo mundo tem medo de mim”, lembrou o fotógrafo.

“O pior que pode acontecer é alguém dizer não”, disse Gotts. E, ao receber um “sim” de Stephen Fry, quando o fotógrafo era, em suas palavras, um “Zé ninguém”, ele percebeu que nada acontece se você não perguntar.

O nome de Gotts tem peso, revelando que ele chamou Harrison Ford de “idiota”, contestou as preferências de iluminação de Meryl Streep e ordenou que o ator de “Fleabag” Andrew Scott chorasse na hora certa.

Chamando a si mesmo de um “ator frustrado” de uma vida passada (“mais parecido com um Danny DeVito”), sua primeira lista de desejos estava cheia de estrelas do cinema como Al Pacino e Robert De Niro, hoje já clicados.

De forma reveladora, sua exposição e o próximo livro são menos sobre a carreira de Gotts e mais sobre os ícones que tiveram “significado em sua vida”. Algumas das celebridades são hoje amigos, enquanto outras foram fotografadas várias vezes, com 10 ou até 20 anos de diferença.

No entanto, os verdadeiros ícones estão se tornando cada vez mais difíceis de se encontrar, segundo Gotts. Embora sempre haja estrelas de cinema de primeira linha, atores “icônicos” são como poeira estelar, disse ele – especialmente em um mundo cheio de pessoas em busca da fama.

“Não acho que a palavra ‘celebridade’ será tão importante quanto era há 20 ou 30 anos”, concluiu.

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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