Resgate de Parwana: noiva de 9 anos é levada para um local seguro no Afeganistão

CNN Internacional já havia denunciado que Parwana e várias outras meninas menores de idade estavam sendo vendidas para que seus pais comprassem comida

Anna CorenRebecca WrightAbdul Basir Binda CNN*

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Dirigindo por um desfiladeiro coberto de neve, a jovem mãe se amontoa com seus seis filhos no banco de trás de um carro. Ela acaba de deixar um acampamento improvisado no noroeste do Afeganistão.

Carregando apenas um cobertor para se aquecer, Parwana Malik, de 9 anos, se equilibra no colo da mãe ao lado dos irmãos, enquanto a família é resgatada por um grupo de ajuda que salva as meninas do casamento infantil.

“Estou muito feliz”, contou Parwana durante a viagem. “A (organização de caridade) me livrou do meu marido e meu marido está velho”. No mês passado, a CNN Internacional noticiou que Parwana e várias outras meninas menores de idade estavam sendo vendidas por seus pais para que outros membros de suas famílias pudessem comer.

Na época, o pai de Parwana, Abdul Malik, disse que ela chorou dia e noite, implorando para que ele não a vendesse, dizendo que ela queria ir para a escola e estudar.

Após um clamor internacional como resultado da reportagem da CNN, Parwana foi devolvida à sua família devido à reação da comunidade contra o comprador. Uma organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos, a Muito Jovem Para Se Casar (TYTW, na sigla em inglês) também se envolveu para realocar as meninas, seus irmãos e suas mães em uma casa segura.

“É uma solução temporária”, afirmou Stephanie Sinclair, a fundadora da TYTW. “O que estamos tentando fazer é impedir que as meninas sejam vendidas para o casamento”.

Afeganistão sob pressão

As linhas de ajuda econômicas ao Afeganistão foram cortadas desde agosto, quando o Talibã assumiu o controle depois que as forças norte-americanas e aliadas deixaram o país. Bilhões de dólares em ativos do banco central foram congelados, os bancos estão ficando sem dinheiro e os salários não são pagos há meses.

Atualmente, agências de ajuda humanitária e grupos de direitos humanos, incluindo a Human Rights Watch, estão alertando que as pessoas mais pobres do país estão enfrentando a fome ao mesmo tempo em quem encaram o brutal inverno do país.

Mais da metade da população de cerca de 39 milhões de afegãos terá de enfrentar níveis de emergência de fome aguda até março, segundo relatório recente do IPC, que avalia a insegurança alimentar. O relatório estima que mais de 3 milhões de crianças menores de cinco anos já sofrem de desnutrição aguda.

“A comunidade internacional está virando as costas enquanto o país balança à beira de uma catástrofe provocada pelo homem”, declarou Dominik Stillhart, diretor de operações do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), que acabou de retornar de uma visita de seis dias para o Afeganistão.

Mesmo antes de o Talibã assumir o controle, a fome era abundante no país empobrecido. Agora, as meninas estão pagando o preço com seus corpos — e suas vidas.

“As meninas afegãs estão virando a moeda de troca por comida”, disse à CNN a principal ativista dos direitos das mulheres afegãs, Mahbouba Seraj. “Porque senão as famílias delas morrerão de fome”.

“Normalmente há muita miséria, há muitos maus tratos, há muitos abusos envolvidos”

Mahbouba Seraj, ativista dos direitos das mulheres

Embora casar crianças com menos de 15 anos seja ilegal em todo o país, trata-se de uma prática comum há anos, especialmente nas partes mais rurais do Afeganistão. E a situação piorou desde agosto, com as famílias ficando mais desesperadas.

“Normalmente há muita miséria, muitos maus-tratos, muitos abusos envolvidos”, disse Seraj, acrescentando que algumas meninas forçadas a se casar morrem durante o parto porque seus corpos são pequenos demais para suportar a gestação completa. “Algumas não aguentam. A maioria morre muito jovem”.

As mulheres há muito são tratadas como cidadãs de segunda classe no Afeganistão, que foi classificado como o pior país do mundo para mulheres no 2021 Women, Peace and Security Index (Índice de Mulheres, Paz e Segurança de 2021) do Instituto Georgetown.

Desde que o Talibã assumiu o controle, muitos dos direitos básicos pelos quais as mulheres lutaram nas últimas duas décadas foram extintos.

Limites foram impostos à educação de meninas, mulheres foram proibidas de frequentar certos locais de trabalho e atrizes não podem mais aparecer em novelas da TV.

Escapar da servidão

Depois de uma jornada de quatro horas por estradas na montanha, a família de Parwana chegou tarde da noite a um pequeno hotel em Herat, a terceira maior cidade do Afeganistão. Eles foram acompanhados em sua jornada por um representante local da Too Young to Wed, junto com a mãe, Reza Gul, e seu irmão, Payinda.

Reza Gul e Payinda disseram à CNN que o pai de Parwana iniciou a venda dela contra a vontade deles. “Claro que fiquei com raiva, briguei com ele e chorei”, contou Reza Gul. “Ele disse que não tinha opção”.

A CNN recebeu permissão para filmar a venda de Parwana em 24 de outubro para um homem de 55 anos com cabelos brancos em troca de dinheiro, ovelhas e terras que valem cerca de US$ 2.200 (cerca de 200 mil afganis ou de R$ 11.300).

“Meu pai me vendeu porque não temos pão, arroz e farinha”, disse Parwana à CNN na época. “Ele me vendeu para um velho”.

O comprador, Qorban, disse à CNN que seria seu “segundo casamento” e insistiu que Parwana seria tratada com gentileza.

A mãe de Parwana disse que sua filha implorou para voltar para a casa de sua família e teve permissão para algumas visitas de volta ao acampamento.

“Ela disse que bateram nela e não queria ficar lá”, contou Reza Gul.

“Eles me trataram mal. Eles ficavam me xingando. Eles me acordavam cedo e me obrigavam a trabalhar”

Parwana Malik, ex-criança noiva

“Eles me trataram mal, ficavam me xingando, me acordaram cedo e me obrigavam a trabalhar”, acrescentou Parwana.

Depois que a reportagem da CNN sobre a situação de Parwana foi ao ar, a indignação da comunidade com o comprador Qorban levou-o a se esconder, de acordo com a família. Desde então, a CNN não conseguiu entrar em contato com ele ou sua família para comentar o assunto.

Em uma entrevista posterior, o pai de Parwana disse que também foi criticado e se sentiu pressionado a mudar sua visão sobre o casamento em entrevistas com alguns meios de comunicação locais. Ele confirmou sua entrevista original com a CNN e se desculpou.

Cerca de duas semanas após sua venda, Parwana foi devolvida à família, mas seu pai ainda deve o equivalente a US$ 2.200 ao comprador. Ele havia usado o valor para saldar outras dívidas.

“Eles me deram uma nova vida”

Parwana e seus cinco irmãos estavam inicialmente cansados da longa viagem e da sobrecarga sensorial das luzes brilhantes e do tráfego da cidade. Mas, uma vez acomodados, eles logo começaram a rolar e rir juntos na cama, curtindo a nova aventura.

Depois de duas noites no hotel, a família foi transferida pela ONG TYTW para um esconderijo próximo. Foi a primeira experiência de Parwana em morar em uma casa de verdade. Nos últimos quatro anos,

a família viveu em uma tenda em um campo para pessoas deslocadas internamente (IDPs na sigla em inglês) em Qala-e-Naw, na província de Badghis.

“Estou tão feliz nesta casa”, disse Parwana à CNN. “Eles me deram uma nova vida”.

“Estou feliz e segura aqui”, completou a mãe, Reza Gul. “Meus filhos estão comendo bem desde que chegamos, estão brincando e estamos felizes”.

menina afeganistão
Famílias em todo o Afeganistão estão enfrentando situações financeiras desesperadoras semelhantes / CNN/Ahmadzai Akbari

A família ficará na casa durante os meses de inverno e será amparada e protegida pela TYTW, que realiza rotineiramente esse tipo de resgate.

O plano de longo prazo para a família de Parwana ainda não está claro, acrescentou Stephanie Sinclair, da TYTW, e dependerá do financiamento para o abrigo.

“É um imperativo moral que a comunidade internacional não abandone as mulheres e meninas do Afeganistão”, apontou Sinclair. “Todas as vidas são importantes, e as vidas que podemos salvar irão melhorar a experiência de toda a sua família e da comunidade”.

Separadamente, a TYTW também está tentando levar ajuda alimentar para o campo de Qala-e-Naw, que abriga cerca de 150 pessoas. O objetivo também é ajudar o pai de Parwana enquanto ele permanece lá para tentar saldar sua dívida. Ele deu permissão a TYTW para realojar sua esposa e filhos.

“Estamos felizes com o resgate de Parwana”, disse o pai antes de sua família partir. “Estamos felizes que (a TYTW) vai nos ajudar e eles vão dar um lugar para morar”.

“Ponta do iceberg”

Famílias em todo o Afeganistão estão enfrentando situações financeiras desesperadoras semelhantes.

A reportagem da CNN também traçou o perfil de duas famílias da província de Ghor, no noroeste do Afeganistão, que estavam se preparando para vender suas filhas.

Magul, de 10 anos, estava a poucos dias de ser vendida para se casar quando a reportagem foi ao ar. Ela havia ameaçado se matar se a venda fosse concretizada.

As vendas estão suspensas e a TYTW está trabalhando para tentar resgatar as duas meninas junto com suas mães e irmãos – e realocá-las no mesmo abrigo onde a família de Parwana vive agora.

Ativistas pelos direitos das mulheres como Mahbouba Seraj, que administra um abrigo para mulheres e meninas em Cabul, dizem que o pior ainda está por vir para as mulheres do Afeganistão.

“É apenas o começo, é só a ponta do iceberg”, lamentou Seraj. “Isso vai continuar acontecendo, com a fome, o inverno, a miséria, com toda essa ignorância”.

Um líder talibã local disse à CNN que eles estão tentando acabar com a prática ilegal do casamento infantil.

Mawlawi Baz Mohammad Sarwary, chefe da diretoria de informação e cultura Badghis, descreveu a prática como “comum” na área devido à extrema pobreza.

“O casamento infantil não é uma coisa boa e nós o condenamos. Alguns são forçados porque são pobres”, declarou Sarwary.

ativista afeganistão
Ativista dos direitos das mulheres Mahbouba Seraj diz que o pior ainda está por vir para as mulheres do Afeganistão / CNN/Ahmadzai Akbari

Ele também apelou a grupos internacionais e governos para enviar ajuda para salvar famílias da fome.

“Queremos a ajuda deles para o povo Badghis”, disse Sarwary. “Vamos dar-lhes segurança; vamos coordenar com eles e todos eles têm permissão para trabalhar”.

Stillhart, da Cruz Vermelha, diz que os governos precisam liberar fundos para o Afeganistão com urgência, para evitar o colapso de hospitais e serviços básicos.

“Rogo à comunidade internacional que encontre soluções que permitam a manutenção desses serviços essenciais”, disse Stillhart. “Isso requer uma injeção de liquidez e dinheiro porque toda a economia do Afeganistão encolheu impressionantes 40% desde o final de agosto por causa da suspensão da ajuda bilateral”.

Organizações sem fins lucrativos que ainda operam no Afeganistão também estão pedindo uma ação mais coordenada para ajudar as pessoas mais pobres do país.

No mercado local em Herat, a TYTW ajudou a família de Parwana a coletar suprimentos de cozinha e alimentos.

“A gente passava todas as noites acordado por causa da fome”, contou a mãe de Parwana, Reza Gul. “Agora estamos felizes que essa instituição de caridade nos ajudou e nos trouxe a Herat”.

Agora livre de passar a vida passada com um marido seis vezes mais velho, Parwana está animada com a perspectiva de frequentar a escola.

“Eu gostaria de estudar para me tornar médica”, disse Parwana. “Gostaria de estudar para servir ao meu povo”.

Para aqueles que lutam pelos direitos das mulheres na sociedade afegã, a determinação de Parwana de alcançar um futuro melhor para ela e seu país oferece um vislumbre de esperança na próxima geração.

Jessie Yeung e Jadyn Sham, da CNN, contribuíram com a reportagem.

(*Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

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