'PM precisa rever ação na periferia e ser mais acolhedora', diz ex-comandante

'Há um problema da Polícia Militar com as periferias', avaliou Diógenes Lucca, ex-comandante do Gate e especialista em segurança

Da CNN
22 de junho de 2020 às 16:15

Ex-comandante do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) da Polícia Militar (PM) de São Paulo e especialista em segurança, Diógenes Lucca disse à CNN, nesta segunda-feira (22), que a PM deve rever sua relação com as periferias. A declaração foi feita após um jovem ser sufocado durante uma abordagem em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

"Há um problema da Polícia Militar com as periferias. É claro que tem bandido, tráfico de drogas e um monte de situações ilícitas na periferia, mas devemos pontuar claramente que a maioria esmagadora da população que mora na periferia é apenas pobre e sem condições de morar em um lugar melhor", analisou. 

E acrescentou: "Muitas vezes, o único tentáculo do estado que está presente lá é a polícia, então não podemos perder a chance de a polícia fazer uma revisão da sua ação na periferia e ser mais acolhedora e tem o respeito por parte do cidadão de bem".

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Para Lucca, falar em retreinamento de policiais, como anunciou o governador João Doria (PSDB), é "sempre louvável", mas que é necessário mais do que uma requalificação. "É louvável, mas tem que investigar a causa e passar uma mensagem dura, punindo exemplarmente aqueles que fogem às regras da própria instituição, porque isso envergonha os bons policiais - e eles são a maioria", defendeu.

Além disso, o ex-comandante do Gate disse que acredita que há uma "minoria de maus policiais que expõem a instituição a essa situação vexatória". "Não é isso o que a Polícia Militar prega", assegurou.

Relato

À CNN, o jovem declarou que não estava em moto roubada, negou ter tentando fugir e disse ter sido agredido imediatamente após o acidente entre as motocicletas. 

"Ele jogou na minha frente, tentei frear, as duas motos caíram, eu pulei e fiquei em estado de choque, e ele já pulou em mim. Foi tudo muito rápido. Quando pulei já vi o policial em cima de mim. Falei para ele que não precisava disso porque eu não era bandido nem criminoso", relatou. "O policial pulou da moto, achou que eu ia correr e grudou no meu pescoço. Eu desmaiei e já não vi mais nada. Eu me debati com ele para ter ar", acrescentou o rapaz.

Por fim, o jovem disse "esperar que isso acabe logo". "Porque não quero ter esses pesadelos que estou tendo. Tenho medo agora", finalizou.

Em nota à CNN, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) disse que analisa o caso e que os policiais foram afastados preventivamente e cumprem serviços administrativos durante a investigação. Além disso, segundo o comunicado, os "os policiais envolvidos na ocorrência já foram ouvidos, e as imagens citadas analisadas pela instituição, que adotará as providências cabíveis, após análise dos fatos".

Treinamento

Após o caso, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou um programa para treinar policiais militares para prevenir casos de violência policial, o "Retreinar". Os primeiros a se submeter ao programa será o comando da PM.

"É incompatível com uma polícia bem treinada e bem preparada que uma minoria que representa menos de 1% possa comprometer 99% de uma polícia séria que é treinada e preparada para proteger as pessoas e o patrimônio das pessoas", disse o governador em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes.

Doria disse que o programa terá início em julho, "iniciando no comando da PM e, depois, a academia do Barro Branco, para que possamos retreinar todo o comando das nossas tropas para evitar que esse 1% de maus policiais, que insistem em utilizar a violência desnecessária junto à população possam compreender que isso não é aceitável na PM de SP", disse.

(Edição: André Rigue)