Diretor do Iabas denuncia 'conspiração' na Saúde do Rio de Janeiro

João Sena responsabilizou secretaria de Saúde por atrasos em hospitais de campanha e disse haver conspiração para beneficiar alvo da Lava Jato

Leandro Resende, da CNN no Rio de Janeiro
20 de julho de 2020 às 16:03
Hospital de campanha para pacientes da Covid-19 no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro
Foto: Rogério Santana/Divulgação Governo do RJ (9.mai.2020)

Na mira do Ministério Público Federal (MPF) e ponto central na discussão sobre o impeachment do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), os atrasos na construção dos hospitais de campanha foram provocados por uma conspiração da Secretaria de Saúde para beneficiar o empresário Mário Peixoto, preso pela Operação Lava Jato em maio. A acusação é de João Sena, diretor jurídico da organização social Iabas, contratada por mais de R$ 835 milhões para construir sete unidades — só duas ficaram prontas.

Em entrevista à CNN, João Sena afirmou que a culpa dos atrasos e dos problemas com as obras do hospital de campanha não é da empresa, e sim da Secretaria Estadual de Saúde do Rio.

O ex-secretário Edmar Santos está preso desde o dia 10 deste mês. 

“Não posso afirmar que havia corrupção nesse contrato, mas pelo que nós vimos, havia uma conspiração para beneficiar as empresas do Mário Peixoto. O tempo todo ele, Peixoto, tentou derrubar o Iabas”, declarou Sena. 

Peixoto foi preso em maio, em desdobramento da Operação Lava Jato, e suas empresas têm mais de R$ 900 milhões em contratos com o governo do Rio. 

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As relações entre o empresário e o governador Wilson Witzel são motivo de investigação do Ministério Público Federal, no âmbito da Operação Placebo, que também apura indícios de fraudes na contratação dos hospitais de campanha.

Segundo o MPF, há “prova robusta de fraudes nos processos que levaram a contratação do Iabas para gerir os hospitais de campanha, tudo com anuência e comando do Executivo”. O presidente do Iabas, Carlos França, também foi alvo da mesma operação que mirou Witzel e a primeira-dama, Helena Witzel. 

“Foram mais de 40 modificações no contrato original. Uma equipe mandava a gente fazer uma coisa, a outra ia lá e dava outra ordem, e isso impossibilitava que as obras avançassem. O governo, inclusive, nunca nos deu um prazo para terminar as obras, apenas cobrava celeridade”, diz o diretor jurídico do Iabas. 

Sena afirmou, ainda, que ao sair de uma reunião no Palácio Guanabara no final de maio, foi avisado por uma figura importante do governo do Rio de que havia a intenção deliberada de prejudicar a construção dos hospitais de campanha.

“Fui alertado para ter cuidado, porque iriam ‘ferrar’ com o Iabas. A pessoa, que não posso revelar o nome, disse ainda: ‘no Rio de Janeiro eles não querem saber da verdade, querem saber da versão”, disse.  

Sena afirmou que o contrato dos hospitais era negociado por Gabriell Neves, ex-subsecretário de saúde do Rio, preso desde maio. Edmar Santos, titular da pasta à época, participou de poucas reuniões sobre o assunto.

Segundo o diretor da Iabas, a dupla não pediu a ele nenhuma “vantagem indevida” no curso das negociações. Já o governador Wilson Witzel participou de apenas uma reunião sobre os hospitais de campanha também no mês de maio e, nela, apenas cobrou um prazo para abertura. 

Inicialmente, a Iabas receberia R$ 835 milhões para construir os hospitais de campanha. Depois, o valor foi repactuado para R$ 770 milhões. A Iabas recebeu R$ 256 milhões e cobra uma dívida de pelo menos R$ 128 milhões do governo do Rio. Segundo o diretor jurídico da empresa, o Iabas pretende entrar com ação de reparação por danos morais contra o governo do Rio de Janeiro em virtude do envolvimento da empresa em investigações por corrupção. 

Sena também acusou o ex-secretário Fernando Ferry, que ficou pouco mais de um mês no cargo, de ter dito que a intervenção decretada nos hospitais de campanha, anunciada pelo governo do Rio no começo de junho, era para enganar a imprensa. “Ele disse que 15 dias depois, as pessoas iriam esquecer e poderíamos continuar com as obras”.

Outro lado

Em nota, a secretaria estadual de Saúde informou que fiscaliza o cumprimento do contrato dos hospitais de campanha do Iabas e exige prestação de contas dos serviços executados. Desde junho, quando o governo decretou intervenção nas obras, só foram autorizados pagamentos da folha de pessoal mediante comprovação de cumprimento de carga horária. 

A pasta também informou que todos os contratos emergenciais firmados no período da pandemia estão sendo revisados e que nos últimos 25 dias, mais de 30 servidores ligados à antiga gestão foram exonerados. 

O advogado Alexandre Lopes, que defende o empresário Mário Peixoto, negou relação com os fatos relatados. Ele afirmou que “a mentira fugiu ao controle de todos e está passando dos limites”. 

Já o advogado João Francisco Neto, que defende Gabriell Neves, afirmou que seu cliente “jamais cometeu qualquer desvio ou irregularidade enquanto esteve no cargo”. 

O ex-secretário de saúde Fernando Ferry, acusado de ter dito que a intervenção nos hospitais de campanha era para enganar a imprensa, negou conhecer o diretor jurídico da Iabas e reforçou que foi em sua breve gestão que os jornalistas puderam conhecer as unidades. 

A defesa do ex-secretário de saúde Edmar Santos não quis comentar as acusações feitas pela Iabas. 

O governador Wilson Witzel foi procurado, mas não respondeu.