Alunos de escola pública estudaram quase 50% menos durante pandemia, aponta FGV

A taxa de evasão escolar é o principal motivo para a queda nas horas de estudo, segundo a pesquisa

Sala de aula em escola.
Sala de aula em escola. Foto: Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo

Thayana AraújoLucas Janoneda CNN

no Rio de Janeiro

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A pandemia de Covid-19 reduziu praticamente pela metade a carga horária das crianças de 6 a 15 anos que estudam em escolas públicas no Brasil. É o que aponta a pesquisa “Retorno para Escola, Jornada e Pandemia”, divulgada nesta quarta-feira (19), pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O levantamento da fundação mostra que os alunos da rede pública dessa faixa etária estudavam, em média, 4 horas e 10 minutos por dia antes do início da pandemia do novo coronavírus.

Após a crise sanitária, a carga horária das crianças despencou para 2 horas e 11 minutos, segundo a FGV.

Para as crianças em que as famílias pertencem ao Bolsa Família, a situação é ainda mais crítica: o número de horas estudadas caiu de 4 horas e 1 minuto para 2 horas e 1 minuto. Uma redução de aproximadamente 50% na carga horária.

A taxa de evasão escolar é a principal responsável pela queda na quantidade de horas de estudo, segundo a pesquisa. No terceiro trimestre de 2021, por exemplo, o não comparecimento dos alunos às salas de aula aumentou 128%, quando comparado com momentos anteriores à pandemia, apontam os dados.

A entrada no mercado de trabalho também aparece como um fator importante para a evasão escolar, já que, muitas vezes, os jovens precisam ajudar na renda familiar. Cerca de 5% das crianças brasileiras não frequentam escolas no país.

Apesar das crianças mais velhas serem as que tiveram a maior redução na carga horária ao longo da pandemia, foram os alunos de 5 a 9 anos que mais se ausentaram das salas de aula. Para essa faixa etária, a evasão escolar saltou de 1,41% para 5,51% ao longo da crise sanitária.

Segundo o estudo, a taxa de evasão escolar recuou aos patamares de 14 anos atrás.

A pesquisa da FGV explica que os mais jovens foram os que permaneceram em isolamento ainda por receio dos pais e, por isso, ainda não voltaram às aulas presenciais.

O levantamento ainda traz que as crianças mais novas são as que mais sofreram com a falta de ensino. Isso porque esse grupo está em ‘fase crucial desenvolvimento da pessoa’, aponta o estudo.

Em conversa com a CNN, o coordenador do estudo e economista da FGV, Marcelo Neri, afirma que a pandemia afetou uma geração inteira de jovens. Ele avalia que será possível ver as consequências negativas ao longo dos próximos anos.

“A gente percebe que em áreas mais remotas e quando as famílias têm menor renda, a evasão cresce de forma exponencial. O estudo é de extrema importância para as crianças mais pobres, porque a instrução equaliza a possibilidade de conseguir um trabalho. Sem as escolas, a desigualdade fica muito evidente e a pandemia vai deixar seu legado, infelizmente”, disse Marcelo Neri.

Ainda de acordo com a pesquisa da FGV, os alunos de escolas particulares também tiveram uma redução na carga horária durante a pandemia, porém não com tanto impacto como os matriculados na rede pública.

Segundo o estudo, as crianças da rede privada estudavam aproximadamente 4 horas e 30 minutos antes da pandemia. Atualmente, a média diária de horas é de 3 horas e 10 minutos.

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