Por que Deolane foi presa? Veja o que aponta investigação sobre elo com PCC

Operação Vérnix sustenta que influenciadora teria atuado no núcleo financeiro de esquema de lavagem de dinheiro atribuído a facção; defesa poderá contestar conclusões no processo

Carolina Figueiredo, Elijonas Maia e Manuella Dal Mas, da CNN Brasil, em São Paulo e em Brasília
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A prisão da influenciadora e advogada Deolane Bezerra, realizada nesta quinta-feira (21) pelo Gaeco de Presidente Prudente com apoio da Polícia Civil de São Paulo, é resultado de uma investigação que começou dentro do sistema prisional paulista e que, segundo apuração, identificou uma estrutura voltada à lavagem de dinheiro atribuída à cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital).

De acordo com o inquérito instaurado pela Polícia Civil sob requisição do Gaeco do MPSP (Ministério Público de São Paulo), Deolane é investigada pelos crimes de integrar organização criminosa e lavagem de capitais. Para os investigadores, ela teria exercido função ligada à etapa financeira do esquema investigado, ponto que fundamentou o pedido de prisão preventiva apresentado à Justiça.

No entanto, a investigação que culminou na operação desta quinta-feira não começou com a influenciadora. Segundo o relatório policial, a origem do caso remonta a 2019, quando manuscritos foram apreendidos com integrantes do PCC na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista.

O material mencionava uma empresa de transportes que, segundo os investigadores, seria utilizada para movimentação patrimonial ligada à facção e fazia referência a uma figura chamada de “mulher da transportadora”.

As diligências seguintes levaram os investigadores até a empresa Lopes Lemos Transportes Ltda., conhecida como Lado a Lado Transportes.

Conforme o inquérito, quebras de sigilo bancário e fiscal apontaram que a empresa movimentou mais de R$ 20 milhões durante o período analisado e apresentou incompatibilidade de aproximadamente R$ 6,9 milhões entre receitas declaradas e valores efetivamente movimentados. Os proprietários foram denunciados e condenados, e a sentença reconheceu que a empresa foi utilizada para lavagem de capitais ligada ao crime organizado.

Foi durante o aprofundamento dessa etapa que o nome de Deolane passou a aparecer.

Como Deolane entrou na apuração

Segundo a investigação, a ligação surgiu após análise de um aparelho celular apreendido na residência dos responsáveis pela transportadora.

Mensagens encontradas no dispositivo, segundo o Ministério Público, detalhariam o funcionamento financeiro da estrutura investigada, incluindo orientações sobre divisão de valores e destinação de recursos atribuídos ao grupo criminoso.

Nesse contexto aparece Everton de Souza, conhecido como “Player”, descrito pelos investigadores como gestor indireto da transportadora.

De acordo com o relatório, mensagens atribuídas a ele indicariam quais contas bancárias deveriam receber parcelas dos acertos financeiros mensais. Entre as contas mencionadas estariam contas vinculadas a Deolane.

A investigação afirma ainda que comprovantes de depósitos encontrados no próprio aparelho celular apontariam transferências destinadas à influenciadora.

Para os investigadores, os repasses identificados não teriam ocorrido, em tese, como remuneração por atividade advocatícia regular, mas dentro da dinâmica financeira investigada.

O papel atribuído à influenciadora

Segundo o Ministério Público, Deolane integraria o chamado “núcleo financeiro de integração” do esquema.

Na linguagem utilizada em investigações de lavagem de dinheiro, essa fase corresponde ao momento em que recursos de origem ilícita seriam inseridos na economia formal para adquirir aparência de legalidade.

Ainda conforme o relatório, afastamentos de sigilo bancário, fiscal e financeiro teriam identificado movimentações milionárias e elementos que, na avaliação dos investigadores, indicariam utilização de estrutura patrimonial e empresarial para circulação dos valores.

O inquérito também menciona registros do Sistema Detecta em que Deolane aparece como representante ou testemunha em ocorrências envolvendo Everton de Souza, elemento apontado pelos investigadores como indicativo de vínculo que ultrapassaria eventual relação exclusivamente profissional.

Com base nesse conjunto de elementos, Polícia Civil e Ministério Público pediram a prisão preventiva da influenciadora, além de buscas e medidas patrimoniais. Ao todo, a Justiça autorizou seis prisões preventivas, bloqueios patrimoniais e medidas cautelares que atingem bens e empresas vinculadas aos investigados.

Segundo apuração da CNN Brasil, os alvos dos mandados de prisão são:

  • Deolane Bezerra, influenciadora (mandado de prisão cumprido em Barueri);
  • Everton de Souza, vulgo Player, que seria operador financeiro do esquema (mandado de prisão cumprido);
  • Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola (mandado de prisão cumprido em penitenciária federal);
  • Alejandro Camacho, irmão de Marcola (mandado de prisão cumprido em penitenciária federal);
  • Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola (foragida, estaria na Bolívia, mandado de prisão incluído na Difusão Vermelha);
  • Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola (foragido, estaria em Madri, mandado de prisão incluído na Difusão Vermelha).

Válido lembrar que a prisão preventiva, no entanto, não representa condenação. As conclusões da investigação ainda serão submetidas ao contraditório e à análise do Judiciário, e a defesa poderá contestar provas, apresentar explicações e buscar eventual revisão das medidas ao longo do processo.

Outro lado

Outro lado

Pelas redes sociais, a advogada e irmã da influenciadora, Daniele Bezerra, afirmou que a nova prisão de Deolane significa uma perseguição contra a advogada. Veja nota na íntegra:

"Hoje, mais uma vez, tentam transformar suposições em verdades e manchetes em condenações. A prisão da Deolane Bezerra, sob alegações de participação em organização criminosa, nasce cercada de ilações, narrativas e perseguições que já se repetem há tempos. 

Acusar é fácil. Difícil é provar.

No Brasil, infelizmente, muitas vezes primeiro se expões, se destrói a imagem e se condena perante a opinião pública...para só depois buscar provas que sustentem aquilo que foi feito. E isso é grave.

Não se pode admitir que a Justiça seja usada como espetáculo, nem que pessoas sejam tratadas como culpadas antes do devido processo legal. Prisão não pode ser instrumento de pressão, marketing ou vingança social.

Quem conhece a história, a luta e a trajetória dela sabe que existe uma diferença enorme entre fatos e narrativas criadas para alimentar ataques. Seguiremos confiando na verdade, na Justiça e no direito de defesa, porque perseguição continua sendo perseguição, mesmo quando tentam dar a ela outro nome."

Defesa de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola

Bruno Ferullo, advogado de Marco Willians Herbas Camacho, vem a público esclarecer os fatos relacionados à Operação Vernix, deflagrada na manhã desta quinta-feira, 21 de maio de 2026, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) da comarca de Presidente Prudente, com apoio da Polícia Civil do Estado de São Paulo.

A operação se insere no âmbito de investigações sobre suposta organização criminosa e prática de lavagem de dinheiro, envolvendo alegadas movimentações financeiras incompativeis e conexões empresariais investigadas pelo Ministério Público.

É importante contextualizar que toda essa cadeia investigativa teve origem em julho de 2019, quando agentes penitenciários encontraram manuscritos descartados na caixa de esgoto de uma cela da Penitenciária Il de Presidente Venceslau, habitada por outros dois presos. Um desses bilhetes fazia menção a 'aquela mulher da transportadora', referência que a policia interpretou como indicativo de vinculo com uma empresa de transporte na região, a Lopes Lemos Transportes Ltda.

A partir dessa única menção, desdobraram-se investigações sucessivas que chegaram, anos depois, ao nome de Marco.
O cumprimento de medidas cautelares não implica, em nenhuma hipótese, presunção de culpabilidade.

As investigações atribuem a Marco, em tese, suposta participação nos crimes de integrar organização criminosa e lavagem de capitais - relacionados, segundo o inquérito, a movimentações financeiras de terceiros e um vinculo indireto com a empresa de transportes.

É fundamental deixar claro que estamos na fase de inquérito policial, que se apoia exclusivamente em 'indicios e 'suspeitas, expressões que, no direito, têm peso probatório limitado e que precisam ser submetidas ao contraditório antes de qualquer conclusão. É nessa fase que os fatos serão efetivamente apurados, com pleno exercício da ampla defesa.

Solicitamos à imprensa e à sociedade que garantam a presunção de inocência, direito fundamental do ordenamento juridico brasileiro, abstendo-se de conclusões precipitadas que possam prejudicar o andamento do processo e a imagem dos envolvidos antes de qualquer pronunciamento judiciall definitivo.

A defesa de integrantes da família de Marcola também emitiu um comunicado. Veja abaixo:

"A defesa de Paloma Sanches Herbas Camacho Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, representada pelo advogado Bruno Ferullo, vem a pública manifestar-se sobre a Operação Vernix, deflagrada em 21 de maio de 2026 pelo GAECO de Presidente Prudente.

Esclarecemos que o deferimento de medidas cautelares não implica, em nenhuma hipótese, presunção de culpabilidade. O caso encontra-se na fase de inquérito policial, etapa preliminar baseada em indicios sujeitos ao contraditório, e a inocencia de nossos clientes será plenamente comprovada ao longo do processo.

Solicitamos à imprensa e á sociedade o respeito à presunção de inocencia, direito fundamental garantido pela Constituição Federal, abstendo-se de conclusões precipitadas antes de qualquer pronunciamento judicial definitivo."

CNN Brasil tenta contato com a defesa dos outros citados. O espaço segue aberto.