Capitólio: geólogos dizem que tragédia poderia ser evitada com estudos prévios

Segundo especialistas, autoridades deveriam ter feito mapeamento da região e monitorado os riscos naturais

Trabalho dos Bombeiros em lago de Capitólio (MG)
Trabalho dos Bombeiros em lago de Capitólio (MG) CBMMG

Iuri Corsini e Thayana Araújoda CNN

Rio de Janeiro

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O desabamento de uma rocha sobre lanchas na região de Capitólio, em Minas Gerais, que deixou oito mortos, 32 feridos e ao menos dois desaparecidos neste sábado (8), poderia ter sido evitado caso fosse feito um estudo geológico prévio na região. A opinião é de especialistas que analisaram a tragédia.

Para Joana Sanches, professora de geologia da Universidade Federal de Goiás (UFGO) e doutora em mapeamento geológico, o local do acidente fica em uma área de risco e o turismo tinha que ter sido suspenso na região.

“A área deveria ter sido fechada para o turismo até que se fizesse uma intervenção de técnicos capacitados, além de uma análise mais precisa dos riscos no local. Já havia uma fratura prévia na rocha que se desprendeu. Essa fratura ia desde o topo até a base e são preenchidas pelo solo [terra]. Com a intensidade das chuvas, esse solo que fica entre as fraturas foi lavado e levado embora. Além disso, a água ajudou a fazer mais peso dentro da fratura. Como já estava previamente deslocado do paredão rochoso, com a intensidade dessas chuvas, o pedaço se deslocou por completo”, disse Joana.

A pesquisadora explicou que uma das intervenções primordiais seria a derrubada prévia do pedaço de rocha com a realização de um trabalho geotécnica para essa análise. “É preciso debater tais medidas dentro da lei em vigor, o que pode ou não pode se fazer na prática”, complementou.

Outra medida que devia ter sido adotada, segundo Ingrid Ferreira, PhD em geociências e consultora em Gestão de Riscos de Desastres, era o atirantamento das rochas, ou seja, utilizar cabos de aço para, grosso modo, prender as formações geológicas, a fim de evitar o deslizamento.

A especialista também alertou que tais medidas teriam que ser adotadas caso houvesse um acompanhamento mais preciso em relação ao comportamento destas formações rochosas na região.

“O Brasil explora muito o seu turismo em locais de interesse geológico, somos muito ricos nisso. Os laudos geológicos e geotécnicos, que caracterizam se um local é ou não de risco, precisam ser encaminhados e ter o suporte das autoridades. É fundamental ter um efetivo de geólogos e geotécnicos realizando esse parecer para a liberação dessas áreas. É necessário também que os órgãos públicos aumentem a elaboração desses laudos para ampliar a percepção de risco da população e da própria equipe de agência de turismo que executam”, ressaltou.

A PhD em geociências destacou que o Brasil possui alguns órgãos importantes no monitoramento de formações geológicas, que podem e devem capacitar profissionais e orientar gestores públicos sobre eventuais riscos e, consequentemente, mitigá-los para garantir um turismo mais seguro.

“O Brasil, tem a Associação Brasileira de Geologia de Engenharia [ABGE] que possui extenso material alertando a população e a sociedade civil sobre os riscos relacionados  aos movimentos de massa. Temos as escolas de geologia de Minas que executam um trabalho de excelência. Acredito também que a Defesa Civil vai equacionar da melhor forma a solução desse problema do acidente em Minas e, de fato, virar uma página no Brasil relacionada a turismo em cânions. Agora deve-se iniciar um novo capítulo para os gestores utilizarem mais os laudos necessários”, concluiu.

A CNN também ouviu empresários responsáveis pela organização de passeios turísticos em Capitólio. Eles falaram sobre a necessidade de a prefeitura fazer um estudo geológico nos cânions da região para detectar os riscos de desabamento, especialmente em épocas em que há grande volume de chuvas.

O empresário Adriano Seixas, proprietário da Capitour, estava com embarcações no local momentos antes do acidente. Segundo ele, nos cânions, apesar de ser uma área privada, não há sistema de alerta para avisar quando há ocorrência de tromba d’água, ao contrário de algumas outras cachoeiras privadas da região que contam com esse tipo de aviso.

Sobre o desabamento, o empresário, ainda assustado, disse, que, apesar dos riscos, era muito difícil prever um acidente como o deste sábado.

“Nunca tinha ocorrido nada parecido na região. Apesar das chuvas, os passeios eram feitos com os riscos calculados e as agências costumam tomar todas as medidas de segurança necessárias, como uso de coletes. Mesmo com as chuvas, esse risco de deslizamento nunca foi uma questão. Não dava para ter noção do que poderia acontecer. Foi uma tragédia inesperada”, relatou.

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