Caso Marielle: Ronnie Lessa pagou advogados de Élcio Queiroz para evitar delação, segundo MP

Acordo com as autoridades surpreendeu os antigos representantes de Élcio

Da CNN Brasil, São Paulo
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De acordo com o Ministério Público (MP), Ronnie Lessa, apontado como autor dos disparos que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes, escolheu e pagou os advogados de Élcio Queiroz. As informações são de Leandro Resende, analista de Política da CNN.

Essa afirmação foi feita por Élcio em delação premiada firmada com a Polícia Federal e o MP, em que ele confessou ser o motorista do carro com Lessa no crime.

De acordo com Resende, no pedido do Ministério Público para deflagrar a operação da segunda-feira (24), está escrito que esse pagamento serviu, sobretudo, para evitar uma delação premiada.

Seria, assim, uma tentativa de manter controle sobre a narrativa que Élcio apresentava para as autoridades. O fato de Ronnie Lessa pagar os advogados de Élcio Queiroz "tinha o evidente objetivo de evitar com que Queiroz rompesse com os comparsas e viesse a se dissociar do Ronnie em sua tese defensiva", destaca o órgão.

Ainda segundo o MP, esses pagamentos seriam parte de uma mesada de R$ 10 mil -- uma parte para os advogados e outra para a família --, evitando que, voluntariamente, ele auxiliasse a Justiça, confessasse os fatos e "figurasse" como réu colaborador.

Também foi explicado que o advogado apontado para fazer a defesa de Élcio Queiroz foi retirado e uma outra advogada entrou no circuito. Ela quem firmou a delação.

O advogado anterior de Élcio, assim como a equipe que defende Ronnie Lessa, foram pegos de surpresa com o acordo, conforme revelou Leandro Resende.

Delação de Élcio Queiroz e avanço nas investigações

A partir da delação de Queiroz, foram realizadas ações de busca e apreensão na segunda-feira (24) e mais um suspeito foi preso: o ex-bombeiro Maxwell Simões Corrêa, conhecido como Suel, dito pelo ex-PM como responsável por fazer “campana” e seguir os passos de Marielle, além de levar o carro usado no crime para um desmanche.

Ele ainda citou o ex-sargento da PM Edimilson Oliveira da Silva, conhecido como “Macalé”, como quem contratou Ronnie Lessa. O ex-militar, entretanto, foi morto em 2021, no Rio de Janeiro.

Ainda assim, em entrevista exclusiva à CNN na segunda-feira (24), o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, afirmou que foi dado um passo significativo para descobrirem o mandante do caso.

O crime ocorreu em 14 de março de 2018. O carro de Marielle e Anderson foi alvejado com 13 tiros de uma submetralhadora HK MP5. A vereadora foi atingida por quatro tiros na cabeça, e o motorista, por três. Os dois morreram no local.

Veja principais pontos da delação de Élcio Queiroz

A relação de amizade Élcio e Lessa

  • Disse que teve dificuldades financeiras, que perdeu a renda e fazia somente bicos;
  • Que Ronnie o ajudou muito, que eram amigos há 30 anos;
  • Que Ronnie tinha uma boa situação financeira;
  • Que Ronnie tinha quiosques em uma favela de Manguinhos, mas que nunca viu;
  • Que Ronnie mexia com “gato net” (rede ilegal de TV por assinatura) e uma pessoa passava uma renda mensal para ele, e máquinas caça-níqueis;
  • Que Maxwell (bombeiro) era sócio de Ronnie Lessa nesse “gato net” na favela de Manguinhos;
  • Que tem uma dívida de gratidão com Ronnie Lessa;

Sobre o crime

  • Que o carro usado no crime havia sido recuperado por Ronnie de uma apreensão;
  • No réveillon de 2017 para 2018, houve a primeira conversa com ele sobre a morte de Marielle;
  • Que Ronnie Lessa disse que “tinha um trabalho a fazer e o alvo seria uma mulher”. Que o bombeiro Maxwell já estava de campana;
  • Que o Maxwell seria o motorista, Ronnie no banco do carona com uma metralhadora, foi essa a situação que me passou;
  • Que a arma do crime pertencia ao BOPE, Batalhão de Operações Especiais. Houve um incêndio no BOPE e algumas armas foram extraviadas;
  • Disse que só soube que o alvo era Marielle no dia;
  • “Ela apareceu, o motorista estava ali em pé com telefone na mão. Alguma atitude do Ronnie naquele momento deu a entender que ele sabia, conhecia o motorista ou o carro que ela ia embarcar, alguma coisa assim;

Momento do crime

  • “Da rajada, começou a cair umas cápsulas na minha cabeça e no meu pescoço; (inaudível) quem pensa ‘que silencioso’…mas faz um barulho danado, não tinha nem noção; quem pensa que é pouco barulho… mas é muito barulho; aí caíram as cápsulas em mim e ele falou ‘vão embora’; eu nem vi se acertou quem, se não acertou”;
  • Nesse momento dos disparos, o Ronnie já tinha colocado a balaclava pra esconder;

Depois do crime

  • Deixaram o carro na casa do irmão Dênis Lessa e pegou um táxi;
  • Ele achou que “só” Marielle tinha morrido. Quando soube que o motorista Anderson Gomes tinha morrido também, ele disse: “que merd*”;
  • A intenção era matar “só” Marielle;
  • “Eu nem vi o rosto dele, eu parei paralelo, pode ser que o disparo atravessou o vidro”;
  • “No final das contas, eu fiquei bêbado”;

No dia seguinte

  • Trocaram a placa do carro;
  • Ronnie Lessa enviava mensagem por outro programa de mensagem para não ligar a casa de Élcio Queiroz à antena. Ele avisava que estava chegando muito tempo antes;
  • “Ele sempre se precaveu”;
  • Ronnie disse que tinha que sumir com o carro, não deixar DNA;

Relembre quem foi Marielle Franco:

*publicado por Tiago Tortella, da CNN