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    Entenda caso do desaparecimento de indigenista e jornalista inglês no Amazonas

    Bruno Araújo Pereira e Dom Phillips estão desaparecidos desde último dia 5; buscas e investigações continuam na região

    Renata Souzada CNN

    em São Paulo

    Oito dias após o desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips na região do Vale do Javari, na região do município de Atalaia do Norte, no Amazonas, equipes continuam nas buscas e investigações sobre o caso.

    O indigenista e o britânico desapareceram quando faziam o trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael até Atalaia do Norte. A área faz parte do Vale do Javari, segunda maior terra indígena do país e local da maior concentração do mundo de povos isolados. Phillips, que é colaborador do jornal britânico “The Guardian”, iria fazer entrevistas com indígenas na região e Pereira o acompanhava na realização do trabalho.

    Nesta segunda-feira (13), a Polícia Federal (PF) negou informações de que os corpos da dupla teriam sido encontrados. A negativa para a mesma informação já havia sido passada pela PF no último sábado (11).

    O Itamaraty informou que mantém contato com os familiares “para afiançar-lhes o máximo engajamento do governo brasileiro, em suas distintas instâncias, na apuração do caso”.

    As principais evidências localizadas pela PF são alguns pertences dos desaparecidos. Foram encontrados pelas equipes de buscas um cartão de saúde, uma calça, um chinelo e um par de botas pertencentes a Pereira; e um par de botas e uma mochila com roupas de Phillips.

    Desaparecimento

    O desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips foi comunicado pela União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja) na segunda-feira (6). Segundo a entidade, a dupla teria sumido no trajeto entre a comunidade Ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte.

    De acordo com informações da Univaja, os dois chegaram no Lago do Jaburu no dia 3 de junho para visitar a equipe de Vigilância Indígena.

    No dia 5, Pereira e Phillips deixaram o lago e partiram para a comunidade São Rafael, onde o indigenista participaria de uma reunião. Pelo que consta nas informações trocadas via Dispositivo de Comunicação Satelital SPOT, eles chegaram ao destino por volta de 6h.

    Após conversarem com uma local, ambos recomeçaram o trajeto de retorno à Atalaia do Norte e não foram mais vistos.

    Buscas

    A primeira expedição de busca por Pereira e Phillips foi realizada por equipes formadas por indígenas “extremamente conhecedores da região” às 14h do dia 5, segundo informou a Univaja.

    Após o comunicado de desaparecimento, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento administrativo para apurar o desaparecimento e acionou a Polícia Federal, a Polícia Civil, a Força Nacional, a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, e a Marinha do Brasil.

    Na quarta-feira (8), a PF confirmou que equipes envolvidas na operação prenderam em flagrante o primeiro suspeito, Amarildo da Costa de Oliveira, 41 anos, por posse de munição de uso restrito. As autoridades também apreenderam uma embarcação de sua propriedade.

    No barco foram encontrados vestígios de sangue, posteriormente encaminhados para análise pericial pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal. Para comparar com o sangue identificado, os agentes coletaram material genético de referência de ambos os desaparecidos.

    O Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) decretou a prisão temporária de Amarildo, conhecido como "Pelado", por 30 dias.

    Na sexta-feira (10), as equipes que integram a Operação Javari localizaram “material orgânico aparentemente humano” no Rio Itaquaí, próximo ao porto de Atalaia do Norte. O conteúdo também foi encaminhado para perícia, mas o resultado das análises ainda não foi divulgado.

    No último domingo (12), a Polícia Federal confirmou que localizou objetos pessoais da dupla desaparecida próximos ao rio.

    Segundo a nota divulgada pela PF, nas buscas de domingo "foram percorridos cerca de 25 km, com procuras minuciosas pela selva, em trilhas existentes na região, áreas de igapós e furos do Rio Itaquaí".

    No mesmo dia, a Univaja informou que uma embarcação, possivelmente pertencente a Amarildo, foi encontrada na região do desaparecimento e encaminhada para a Polícia Federal.

    Linhas de investigação

    O Comitê de crise criado para apurar o caso, sob coordenação da PF, não detalhou, até o momento, se as linhas de investigação seguidas apontam para envolvimento criminoso.

    Em uma coletiva de imprensa realizada na quarta-feira (8), o superintendente regional da Polícia Federal do Amazonas, Eduardo Alexandre Fontes, afirmou, no entanto, que trata-se de uma região perigosa, especialmente por questões envolvendo tráfico de drogas, exploração ilegal de madeira e garimpo.

    Quando comunicou o desaparecimento, a Univaja citou supostas ameaças sofridas pela dupla.

    "Na semana do desaparecimento, conforme relatos dos colaboradores da Univaja, a equipe recebeu ameaças em campo. A ameaça não foi a primeira, outras já vinham sendo feitas a demais membros da equipe técnica da Univaja, além de outros relatos já oficializados para a Policia Federal, ao Ministério Público Federal em Tabatinga, ao Conselho nacional de Direitos Humanos e ao Indigenous Peoples Rights International", informava o comunicado.

    Em seis documentos feitos pela Univaja e enviados ao Ministério Público Federal do Amazonas, Polícia Federal, Força Nacional de Segurança Pública e à Funai (Fundação Nacional do Índio), informam que a região onde ocorreu o desaparecimento vem sofrendo com ataques a tiros contra indígenas, saída de pesca irregular e constantes invasões para extração irregular de animais.

    O Ministério Público Federal informou que foi instaurado procedimento de apuração do caso desde que a instituição recebeu as representações da Univaja.

    Ainda nesta segunda-feira (13), o Senado Federal deve votar a criação de uma comissão externa temporária para acompanhar buscas e investigar o caso.

    Repercussão

    A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu no último sábado (11) uma resolução com solicitações ao governo brasileiro a respeito do paradeiro do indigenista e do jornalista. A CIDH é vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA).

    O grupo pediu ao Brasil que “redobre seus esforços para determinar a situação e o paradeiro” da dupla e “informe sobre as ações adotadas a fim de investigar com a devida diligência os fatos alegados que deram origem à adoção desta medida cautelar e, assim, evitar sua repetição”.

    Na quinta-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro (PL) se manifestou sobre o caso por meio de seu perfil no Twitter. Bolsonaro reiterou a cooperação entre as forças de segurança brasileiras para encontrar os dois.

    “Instruí meus auxiliares a não se distraírem com narrativas midiáticas para que possam concentrar todas as energias no monitoramento dos trabalhos e nas buscas. Esses oportunistas só querem se promover com o caso. Nós queremos solucioná-lo e levar conforto aos familiares”, publicou o presidente.

    Nesta segunda-feira (13), Bolsonaro disse que “há indícios que fizeram alguma maldade” com os desaparecidos.

    “Pelo tempo, já estamos indo para o nono dia [de desaparecimento], vai ser difícil encontrá-los com vida. Peço a Deus, mas os indícios levam ao contrário no momento”, acrescentou o presidente durante uma entrevista.

    Outros políticos, como os pré-candidatos à Presidência da República Ciro Gomes e André Janones, também usaram as redes sociais para pedir uma solução do caso.

    Em Londres, manifestantes se reuniram em frente à Embaixada do Brasil, na quinta-feira, para cobrar respostas sobre o desaparecimento.