Mais de 2,7 milhões de pessoas no estado do RJ não têm o que comer, revela pesquisa
Levantamento foi divulgado pela Ação da Cidadania e mostra que 15% da população do estado enfrenta insegurança alimentar grave

Mais de 15% da população do estado do Rio de Janeiro não tem o que comer. O índice corresponde a cerca de 2,7 milhões de pessoas, um aumento de 400% em relação aos dados de 2018. O número representa 8,1% da população brasileira que não possui alimento em casa.
Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (23) pela Ação Cidadania, como parte da pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), com dados coletados entre novembro de 2021 e abril de 2022.
Ainda de acordo com o levantamento, 57% dos fluminenses, ou cerca de 10 milhões de pessoas, passam por algum tipo de deficiência na alimentação.
As mulheres são as que mais sofrem com a fome no estado, principalmente as chefes de família: 38,6% destas estão com insegurança alimentar moderada ou grave, enquanto apenas 36,33% não possuem problemas com alimentação (segurança alimentar).
Em relação aos chefes de família homens, 50,43% estão em segurança alimentar, enquanto 28,2% destes apresentam insegurança alimentar moderada ou grave.
Além disso, segundo os dados, as pessoas pretas e pardas também são as que mais sofrem com a falta de comida na mesa. Os números mostram que 37,6% desta população vive com restrições ou passa fome, enquanto 37% estão com a situação alimentar segura. Entre os brancos, 55,63% estão em segurança alimentar e 25,83% apresentam insegurança alimentar moderada ou grave.
O levantamento apontou também que quanto menor for o grau de escolaridade, maior é a incidência de insegurança alimentar nos domicílios. Enquanto entre as pessoas sem escolaridade ou com menos de quatro anos de estudo, o índice de insegurança alimentar moderada/grave é de 37,5%, o entre pessoas com cinco a oito anos de estudo é de 35,9% e as que têm mais de oito anos de estudo, de apenas 8%.
Segundo Rodrigo "Kiko" Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania, o Rio de Janeiro é um reflexo do que acontece no Brasil e, por isso, os dados alarmantes de fome e desigualdades são muito próximos em suas dinâmicas, sejam dados de fome em si, sejam dados em relação às desigualdades vinculadas a cor e a gênero. Além disso, ele cita as dificuldades econômicas do estado como um dos fatores para o alto número de pessoas passando fome.
“Hoje, temos uma pobreza gigantesca no estado. É um dos estados que mais perdeu empregos no Brasil. Todo esse processo de desassistência a pequenos e médios produtores da área rural, que ocorre em rodo o país, causa uma migração em massa das pessoas do campo para as cidades urbanas. E isso traz ainda mais desigualdades, pois falta empregos e há um inchaço nas metrópoles com pessoas que procuram novas oportunidades e dificilmente conseguem”, avalia Kiko.
Em relação às ocupações da pessoa referência do lar, os desempregados apresentam maior índice de insegurança alimentar moderada/grave (68,6%). Para aqueles com emprego informal, essa taxa é de 42,2%; os com trabalho autônomo, de 32,8%; e entre os com emprego formal, a insegurança alimentar moderada/grave cai para de 20,9%. A pessoas referências de suas casas com emprego formal, como era de se esperar, são as que apresentam o maior índice de segurança alimentar (53,9%).
É considerada como insegurança alimentar quando uma pessoa não tem acesso permanente e regular de alimentos. Ela é dividida em três níveis: leve, quando a qualidade da alimentação está comprometida ou quando há incertezas em relação ao acesso de alimentos em um futuro próximo; moderada, quando já há quantidade insuficiente de alimentos; e grave, quando há a privação no consumo de alimentos e fome.
No início desse mês, o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, divulgado pela Rede PENSSAN, mostrou que atualmente 33,1 milhões de pessoas não têm o que comer no país - 14 milhões a mais do que na comparação com 2020.
Os dados nacionais também mostraram que mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com a insegurança alimentar em algum grau – leve, moderado ou grave (fome). O Brasil regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990.


