"Cheiro de pessoas mortas", relata ativista sobre fila de corpos no Rio

Governo do Estado diz que 119 pessoas morreram em operação mais letal da história do estado

Khauan Wood, da CNN Brasil*
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Em um vídeo publicado em suas redes sociais na manhã desta quarta-feira (29), o ativista e líder comunitário Raull Santiago relatou o drama vivido por moradores da região do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro.

O local foi alvo da megaoperação das Forças de Segurança do estado contra o crime organizado e a facção CV (Comando Vermelho).

Moradores do local estenderam uma fila com mais de 50 corpos na Praça da Penha. Segundo o ativista, que está no local, os cadáveres foram retirados de uma região de mata durante a madrugada e cobertos colocados em uma lona um ao lado do outro.

Segundo o governo do Rio de Janeiro, 119 pessoas morreram na operação, entre eles quatro policiais. Nas palavras do secretário de polícia civil, Felipe Curi, todos os 115 civis mortos na operação eram "narcoterroristas".

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Tem mais corpos chegando. Os carros acabaram de subir porque mais pessoas foram encontradas em algumas partes da favela. Nada me marca tanto quanto o choro da família, infelizmente eu não queria que isso fosse uma realidade dentro da minha existência.
Raull Santiago, ativista e líder comunitário
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A Defensoria Pública do Rio disse que contabilizou 130 mortos após a megaoperação. Segundo o órgão, já são contabilizadas as mortes de 128 civis e quatro policiais, num total de 132 vítimas. 

Durante coletiva de imprensa, nesta quarta-feira (29), o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, afirmou que as "verdadeiras vítimas [da megaoperação] foram os policiais".

Na fala, o governador destacou que se "solidariza com os quatro guerreiros" e que determinou que as famílias dos agentes sejam amparadas pelo estado.

O que sabemos sobre a operação

A Operação Contenção foi uma megaoperação conjunta das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, realizada nessa terça-feira (28), nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da capital fluminense.

A ação, que mobilizou cerca de 2.500 agentes das forças estaduais de segurança, foi resultado de mais de um ano de investigação conduzida pela DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes).

Segundo a SESP (Secretaria de Segurança Pública) e o Governo do Estado, o objetivo principal era combater a expansão territorial do CV (Comando Vermelho) e cumprir 100 mandados de prisão contra integrantes e lideranças criminosas do CV.

Entre os alvos, 30 seriam membros da facção oriundos de outros estados, com destaque para o Pará, que estariam escondidos nessas comunidades.

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Além das fatalidades, 113 pessoas foram presas, incluindo Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como Belão, que é apontado como o operador financeiro do CV no Complexo da Penha e braço direito do chefe do Comando Vermelho, Edgar Alves de Andrade, vulgo "Doca" ou "Urso".

O dia da operação foi marcado por intensos tiroteios, com drones policiais registrando criminosos fortemente armados fugindo em fila indiana pela mata da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha.

O confronto gerou "caos" na cidade, impactando escolas e unidades de saúde, além de diversas vias que foram interditadas.

O governador Cláudio Castro afirmou que a maioria das tentativas de bloqueio foi debelada. Nesta quarta-feira, o Rio de Janeiro retornou ao Estágio 1 de atenção, com modais de transporte e serviços públicos operando normalmente.

Quem eram os policiais mortos

Os policiais Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, comissário da 53ª DP, Rodrigo Velloso Cabral, da 39ª DP, e os sargentos do Bope Cleiton Serafim Gonçalves e Heber Carvalho da Fonseca, estão entre as vítimas fatais da Operação Contenção. A entidade afirmou ainda que os ataques aos policiais não ficaram impunes.

Os quatro agentes receberão promoção póstuma em homenagem aos serviços prestados. As informações foram confirmadas em nota publicada nas redes sociais pelo governador do estado, Cláudio Castro. "Eles serviram ao Estado com coragem, defendendo o que acreditavam: um Rio mais seguro e livre.", afirmou.

Dados do Instituto Fogo Cruzado, que monitora a violência armada no Rio, mostram que em apenas dez meses, 123 agentes de forças de segurança foram baleados durante operações policiais realizadas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Aulas suspensas em escolas e faculdades

Após a operação, seis unidades da rede estadual de educação suspenderam as aulas nesta quarta-feira (29). Além das unidades estaduais, outras três universidades suspenderam as atividades presenciais para esta quarta.

  • UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
  • UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)
  • UFF (Universidade Federal Fluminense)
  • PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)

Já na rede municipal de educação, as escolas funcionam regularmente nesta quarta, com exceção das escolas no Complexo do Alemão e Complexo da Penha que estão com aulas presenciais suspensas.

RJ: escolas e faculdades têm aulas suspensas nesta quarta após megaoperação

Segundo o COR-Rio (Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura do Rio), o município retornou ao estágio 1 nesta quarta. O nível indica que não há ocorrências de grande impacto na cidade e que possíveis incidentes não interferem de forma significativa na rotina dos cidadãos.

*Sob supervisão de Carolina Figueiredo