Execução de Gritzbach, delator do PCC, completa 1 ano: o que sabemos

Caso revelou uma enorme "teia do crime" ligando agentes de segurança ao PCC; mandantes do crime ainda estão foragidos

Beto Souza, da CNN Brasil, em São Paulo
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A execução do delator do PCC (Primeiro Comando da Capital) Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, de 38 anos, morto a tiros de fuzil no aeroporto internacional de Guarulhos (SP), completa um ano neste sábado (8).

O assassinato revelou uma enorme "teia do crime" que desnudou o envolvimento de agentes públicos com a principal facção criminosa da América Latina e ainda segue carente de resolução.

A Polícia Civil encerrou o inquérito apontando o motivo do assassinato como "vingança", enquanto o MPSP (Ministério Público de São Paulo) classificou o crime como uma forte represália do PCC e um "recado" da facção.

Vinicius Gritzbach havia firmado um acordo de colaboração premiada com o MPSP, fornecendo informações sobre esquemas de lavagem de dinheiro do PCC e apontando movimentações financeiras e imóveis de integrantes da facção, incluindo informações sobre um líder conhecido da facção, o "Cara Preta". Ele também teria indicado policiais militares e civis suspeitos de extorquir criminosos.

A polícia apontou Emílio Carlos Gongorra, o “Cigarreira”, e Diego Amaral, o “Didi” como mandantes da morte. O caso ainda envolve Kauê Amaral, apontado como olheiro da facção no aeroporto para execução do crime.

Os três estão foragidos, com prisão preventiva decretada. De acordo com a polícia, Cigarreira é ligado ao CV (Comando Vermelho) e teria fugido com os outros suspeitos para o Rio de Janeiro.

Segundo o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), a motivação da execução foi vingança e disputa por dinheiro envolvendo lavagem de ativos e criptomoedas.

Os policiais militares Denis Antonio Martins e Ruan Silva Rodrigues, identificados como os atiradores; e Fernando Genauro da Silva, denunciado como motorista do automóvel utilizado na execução de Gritzbach, foram pronunciados e irão a júri popular. Ao todo, 18 PMs tornaram-se réus — 14 deles seguem presos no Presídio Militar Romão Gomes.

O inquérito militar foi encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar, e os processos administrativos disciplinares continuam em andamento.

Revelações

Embora as investigações tenham revelado os nomes dos envolvidos, mandantes e o olheiro do crime seguem foragidos. A investigação da morte revelou uma ampla "teia do crime".

Em seus depoimentos, Gritzbach denunciou diversos policiais que teriam ligação com o PCC.

O investigador da Polícia Civil Marcelo Marques de Souza, conhecido como Marcelo "Bombom", por exemplo, foi condenado a 11 anos e 3 meses em regime fechado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Bombom, que mantinha contato com Gritzbach, recebia propina de prostíbulos, desmanches e casas de jogo na zona Leste de São Paulo, no esquema conhecido como "recolhe".

Ligação de crimes 

Laudos periciais indicaram que a munição usada na execução do delator era da Polícia Militar (PM) de São Paulo. Laudos também apontaram o DNA de dois PMs em veículos e roupas relacionados ao assassinato.

As denúncias de Gritzbach também levaram à Operação Tacitus, que mirou a desarticulação de uma organização criminosa de lavagem de dinheiro. O Gaeco denunciou donos de fintechs por lavagem de dinheiro para o PCC. As investigações mostraram que o PCC lavou R$ 6 bilhões usando fintechs.

Investigações seguem

Em nota à CNN Brasil, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) disse que o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) concluiu o inquérito principal sobre o caso quatro meses após o crime.

De acordo com a investigação, Cigarreira teria contratado os três PMs executores por intermédio do olheiro Kauê. Dois atuaram como atiradores e o terceiro dirigia o veículo usado na fuga. Com base em cruzamentos de dados e imagens, a Polícia Civil confirmou a presença dos executores na cena do crime.

"O caso também gerou novos inquéritos para apurar omissões de segurança, a origem das armas usadas — fuzis estrangeiros — e eventuais conexões financeiras entre os envolvidos. O DHPP afirma que o núcleo principal do crime está esclarecido, mas as apurações seguem sob sigilo, com foco na captura dos foragidos e na completa elucidação da rede criminosa", completa a nota.