"Laranjas" e ligação com PCC: entenda operação que prendeu vereador em SP

Concessionária de transporte paulistana tinha um núcleo paralelo que tomava decisões estratégicas para o grupo criminoso

Khauan Wood e Giuliana Zanin, da CNN Brasil*, Carolina Figueiredo, da CNN Brasil, em São Paulo
Compartilhar matéria

Um esquema de lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital) operado por meio da empresa de transporte coletivo Transunião foi desarticulado na manhã desta quinta-feira (25) pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo) e a Polícia Civil. O vereador Senival Moura (PT) foi preso na ação.

A ofensiva, batizada de Operação Última Parada, revelou que a concessionária funcionava como uma engrenagem financeira para a facção criminosa.

As apurações que culminaram na operação tiveram início em 2020, logo após o assassinato de Adauto Soares Jorge, que até então ocupava a presidência da Transunião.

A partir da investigação deste crime, as autoridades reuniram provas que demonstram o uso da empresa de ônibus como um instrumento estruturado para a lavagem de capitais do PCC.

O fluxo do dinheiro

De acordo com o MPSP e o Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), a viação não era comandada apenas por sua estrutura oficial.

As investigações comprovaram a existência de um núcleo paralelo responsável por tomar as decisões estratégicas relativas à Transunião.

Era este grupo oculto que ordenava, por exemplo, a transferência direta de valores dos cofres da concessionária para criminosos ligados à facção.

Mudança societária suspeita

Um dos principais indícios de irregularidades e do uso de "laranjas" ocorreu na própria estrutura societária da companhia, cuja mudança teve origem delituosa, segundo as investigações

De acordo com a Polícia Civil, o capital social da Transunião registrou um salto de pouco mais de R$ 100 mil para uma cifra superior a R$ 50 milhões, sem que a origem dos recursos fosse devidamente esclarecida.

Ainda segundo a polícia, apenas no ano de 2025, a concessionária auferiu mais de R$ 300 milhões por operar no sistema de transportes paulistano.

Conexões com a máfia

As investigações ainda apontaram pontos de contato da origem desse dinheiro com circuitos financeiros investigados em operações anteriores, como a Carbono Oculto, Vérnix e Mafiusi.

Esta última, deflagrada pela PF (Polícia Federal), focou no tráfico internacional de drogas operado de forma conjunta pelo PCC e pela 'Ndrangheta, grupo mafioso sediado na Itália.

A lavagem de dinheiro em empresas de ônibus já havia sido alvo do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), força-tarefa de investigação vinculada ao MPSP, em 2024, quando a Operação Fim da Linha desarticulou operações financeiras da facção por intermédio das viações UPBUS e Transwolff.

Desdobramentos e prisões

Ao todo, a operação cumpre 103 mandados de busca e apreensão na capital paulista, na Grande São Paulo e em Extrema (MG). Cinco mandados de prisão foram expedidos.

Até o momento, três já foram presos. A CNN Brasil confirmou que, além de Senival, Jair Ramos de Freitas, vulgo Cachorrão, e Devanil de Souza Nascimento, ambos réus pelo assassinato do ex-presidente da Transunião, também foram detidos.

Lourival de França Monario, atual presidente da Transunião, e Leonel Moreira Martins, que seria o operador financeiro do esquema, ainda seguem foragidos.

O Poder Judiciário decretou também o bloqueio de R$ 194 milhões em contas bancárias ligadas aos investigados e à empresa, além do bloqueio de 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.

Por fim, foi determinado o afastamento de toda a diretoria da Transunião e a comunicação à Prefeitura de São Paulo para a adoção de medidas cabíveis, incluindo uma eventual intervenção administrativa, para assegurar que o transporte da população não seja interrompido.

Em nota, a Prefeitura informou que a operação dos ônibus da empresa segue funcionando, com a frota atendendo normalmente as linhas sob sua responsabilidade e sem prejuízo ao atendimento da população.

Já o prefeito Ricardo Nunes disse por meio de comunicado enviado que as medidas cabíveis em relação à empresa serão tomadas assim que a administração for notificada pelos órgãos competentes

Além disso, ressaltou que aguarda a notificação oficial da decisão judicial para avaliar seus termos e definir as providências necessárias a partir de agora.

A CNN Brasil tenta contato com as defesas dos citados e da Transunião. O espaço segue aberto.

O que diz a defesa do vereador?

Em nota, a defesa do vereador, representada pelo advogado Marcio Sayeg, disse que recebeu "com profunda indignação" a prisão temporário e afirmou ter se surpreendido com a medida, uma vez que ela foi tomada às vésperas das eleições. Veja nota na íntegra:

"O Vereador Senival Pereira de Moura recebeu com profunda indignação a notícia da decretação de sua prisão temporária no âmbito de investigação em curso.

A medida causa enorme surpresa, sobretudo porque foi determinada em um momento extremamente sensível, às vésperas do período eleitoral, circunstância que inevitavelmente desperta questionamentos e exige que todos os fatos sejam rigorosamente esclarecidos pelas autoridades competentes.

O Vereador reafirma que confia na Justiça e tem absoluta convicção de que, ao longo da investigação, ficará demonstrada a inexistência de qualquer conduta ilícita de sua parte.

Desde o primeiro momento, sua defesa técnica está adotando todas as providências jurídicas cabíveis para ter acesso integral aos autos, compreender os fundamentos da decisão e apresentar os esclarecimentos necessários, exercendo plenamente o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa.

Senival Pereira de Moura sempre pautou sua trajetória pública pelo compromisso com a população, pela transparência e pelo respeito às instituições democráticas. Por isso, recebe a investigação com serenidade, certo de que a verdade prevalecerá."

Posicionamento do PT

O Partido dos Trabalhadores apresentou à CNN Brasil uma nota sobre a prisão do vereador Senival Moura. Veja a nota completa:  

"Sobre a prisão do vereador Senival Moura, ocorrida na manhã desta quinta-feira, 25 de junho, o Diretório Municipal do PT de São Paulo tomou conhecimento dos fatos e acompanhará atentamente o desenrolar das investigações. 

A direção partidária determinou o encaminhamento do caso à Comissão de Ética, nos termos do Estatuto do PT. O procedimento poderá resultar nas medidas disciplinares cabíveis, inclusive no afastamento cautelar e na eventual expulsão do filiado, assegurados o amplo direito de defesa, o contraditório e o devido processo legal. 

O Diretório Municipal do PT de São Paulo não compactua com qualquer prática ilícita e reafirma que todos os fatos devem ser rigorosamente apurados pelas autoridades competentes, com respeito à lei e às garantias constitucionais. 

O Diretório Municipal do PT de São Paulo reitera seu compromisso intransigente com o combate ao crime organizado, apoia ações das forças de segurança, como a Operação Carbono Oculto, e defende o fortalecimento dos instrumentos de enfrentamento às organizações criminosas, entre eles a aprovação, pelo Senado Federal, da PEC da Segurança Pública proposta pelo Governo Federal".