"Não ia ao banheiro sozinha", diz mãe de PM encontrada morta em SP
Marinalva Vieira Alves de Santana contou que a filha era proibida de usar maquiagem e isolada, além de sofrer agressões psicológicas
Em depoimento, Marinalva Vieira Alves de Santana, mãe da soldado Gisele Alves Santana, encontrada morta em casa no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro, contou detalhes da relação conturbada entre a filha e o marido.
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, companheiro da vítima, foi indiciado pela Polícia Civil por feminicídio e fraude processual.
De acordo com o relatório do caso, Marinalva relatou aos investigadores que a filha "não podia ir nem ao banheiro sozinha". A mãe detalhou que, após cerca de um ano de relacionamento, Gisele começou a relatar a agressividade do Tenente-Coronel.
O controle se estendia à aparência e à rotina da policial. Ela era proibida de usar salto alto, batom e perfume, e sofria exigências quanto às tarefas domésticas, além de ser progressivamente isolada do convivio familiar.
Marinalva ainda descreveu uma ocasião na casa da família em que Geraldo gritou e gesticulou de forma agressiva afirmando que "quem banca tudo é o papai", se referindo a ele próprio.
Quando Gisele demonstrava a intenção de pedir o divórcio, o marido recorria à chantagem emocional, chegando a enviar para ela um vídeo chorando com uma arma apontada para a própria cabeça, ameaçando se matar caso ela o deixasse
Em 13 de fevereiro, a vítima ligou aos prantos para a mãe pedindo para ser resgatada e desabafou: "mãe, não aguento mais tanta agressão psicológica".
Na véspera do crime, a filha de sete anos de Gisele procurou a casa dos avós chorando e implorando para não voltar ao apartamento, relatando que não aguentava mais os gritos e as brigas do padrasto.
Veja detalhes do feminicídio
A abordagem, contenção da vítima e disparo contra cabeça de Gisele pode ser descrita em quatro atos, segundo laudo. Veja abaixo:
De acordo com os peritos da Polícia Científica de São Paulo, o tenente-coronel abordou a vítima no interior da residência. A abordagem ocorre por trás, pegando Gisele de surpresa.
Geraldo teria imobilizado a vítima, agarrando-a pelas costas. Gisele tentou se desvencilhar do ataque. Nesse momento, o suspeito empunha uma arma de fogo próxima à cabeça dela.
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O laudo identificou lesões compatíveis com pressão de dedos na parte de baixo do rosto da PM e na lateral direita do pescoço. Também foi encontrada uma marca superficial de unha.
Para os peritos, essas marcas indicam que houve uma luta corporal ou tentativa de esganadura antes do disparo fatal.
Veja na íntegra a nota da defesa:
"O escritório de advocacia MALAVASI SOCIEDADE DE ADVOGADOS, contratado para assistir o Tenente-Coronel GERALDO LEITE ROSA NETO no acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa, vem a público prestar esclarecimentos.
Ante o recente decreto dúplice de prisão do Tenente-Coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições.
Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.
Informa, por fim, que já ajuizu Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital.Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade.
A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel.
Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos."
*Sob supervisão de Tonny Aranha

