Para mostrar unidade, Bolsonaro visita obra de hospital com Mandetta

Os dois aparecem juntos pela primeira vez após ministro da Saúde quase ser demitido do seu cargo

Da CNN, em São Paulo
11 de abril de 2020 às 11:44 | Atualizado 11 de abril de 2020 às 13:04
 

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), visitaram as obras do hospital de campanha de Águas Lindas de Goiás, em Goiás, na manhã deste sábado (11).

A visita durou pouco mais de meia hora.

É a primeira vez que os dois aparecem juntos publicamente desde que a CNN noticiou uma conversa em que o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni (DEM), e o deputado federal Osmar Terra (MDB), discutiam uma possível saída de Mandetta do cargo

Depois deste período turbulento, que quase levou à queda do ministro, Bolsonaro e Mandetta cumpriram agenda juntos para mostrar que existe unidade no governo e que as medidas para controlar os avanços do novo coronavírus estão sendo tomadas.

Os dois chegaram juntos ao local em um helicóptero presidencial para se encontrar com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), e vistoriar o local. Caiado foi outro que se desentendeu com Bolsonaro nos últimos dias, por não concordar com a postura do presidente de pedir um relaxamento nas regras de distanciamento social.

Ao chegar, Bolsonaro, que estava sem máscara de proteção, se aproximou e cumprimentou populares e foi de encontro ao governador do estado para abraçá-lo. Caiado pediu então que o presidente passasse álcool em gel nas mãos antes de aceitar a saudação do chefe do executivo.

O presidente deixou o local sem falar com a imprensa, diferentemente do ministro. Ele afirmou que o hospital será um teste e que poderá ser replicado em outros lugares. O Amazonas, que vive situação de emergência por conta da COVID-19, deve ser o segundo estado a receber a estrutura. Perguntado sobre a postura do presidente de ir cumprimentar a população durante o compromisso, disse que "pode apenas dar recomendações".

Mandetta ganhou o cargo no governo Bolsonaro justamente com o apoio de Caiado. Então aliado, o governador de Goiás, que é médico, rompeu com o presidente no mês passado, após o chefe do Executivo minimizar a pandemia, chamada por ele de "gripezinha", e incentivar a população a retomar suas rotinas, contrariando medidas de isolamento adotadas pelos estados.

Ronaldo Caiado coloca álcool em gel na mão de Jair Bolsonaro (11.abr.2020)
Foto: Júnior Guimarães/Divulgação

Aglomeração

Na sexta-feira (10), Bolsonaro andou novamente por áreas comerciais e residenciais de Brasília, apesar de orientações das autoridades sanitárias de que a população mantenha o isolamento social para diminuir o ritmo de transmissão da COVID-19. Na rua, houve manifestações de apoio ao presidente, mas pessoas também bateram panelas em suas janelas e gritaram palavras de ordem contra o presidente.

Já a estratégia de quebrar o isolamento político tem um objetivo de neutralizar o DEM, que ganhou protagonismo durante a crise, e recuperar espaço no jogo político. Além de Caiado e Mandetta terem confrontado Bolsonaro, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), criticaram medidas defendidas por Jair Bolsonaro durante a crise.

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No entorno do presidente, a avaliação é a de que o novo coronavírus se transformou num palanque político para o DEM. A popularidade do ministro Mandetta - que, segundo recentes pesquisas, supera a de Bolsonaro - ajudou a acender o alerta entre aliados políticos do presidente. O grupo ligado ao escritor Olavo de Carvalho passou a pregar também que existe um projeto de poder do DEM que é necessário sufocar.

O hospital, que será instalado num terreno de cerca de 10 mil metros, deverá ter 200 leitos e ficará pronto nos próximos 15 dias. O investimento, de R$ 10 milhões, será custeado pela união. A construção começou no último dia 7 e atende uma demanda local do governo estadual, devido à necessidade de atenção especial à COVID-19 na região.