Escolha de Ramagem para dirigir PF é questionada por laços com família Bolsonaro


Rachel Amorim, da CNN no Rio
28 de abril de 2020 às 15:59

A indicação de Alexandre Ramagem para o cargo de diretor-geral da Polícia Federal, confirmada nesta terça-feira (28) em publicação no Diário Oficial da União (DOU), causa polêmica em razão da proximidade dele com a família Bolsonaro.

O Partido Democrático Trabalhista (PDT) entrou com pedido de mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo que Ramagem não tome posse na corporação. De acordo com Basília Rodrigues, analista de política da CNN, o partido afirma que Ramagem faz parte do círculo pessoal de amizade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus filhos.

Já o MBL (Movimento Brasil Livre) apresentou à 6ª Vara Federal Cível da Justiça Federal do Distrito Federal uma ação para a anular a nomeação por considerar que “atenta mortalmente contra a moralidade administrativa, a probidade, as instituições democráticas, a pátria e contra o povo desta nação.”

A CNN teve acesso a um vídeo que está circulando entre pessoas próximas ao presidente Bolsonaro. Interlocutores tratam o episódio como o primeiro encontro entre ele e o novo diretor da PF. A gravação é do dia 14 de novembro de 2017.

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Nela, Bolsonaro, na época deputado federal, acompanha no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, a detenção do então presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (MDB), na operação Cadeia Velha. Picciani foi levado por policiais federais comandados por Ramagem, na época delegado.

"Estamos acompanhando no aeroporto aqui o Jorge Picciani. O que a gente espera da Polícia Federal é que continue fazendo esse bom trabalho", diz Bolsonaro no vídeo. "Um forte abraço a todos, parabéns Polícia Federal, parabéns MP, parabéns a todos os entes que combatem verdadeiramente a corrupção no nosso Brasil."

Ramagem fez parte da equipe da Lava Jato do Rio. No mesmo dia da prisão de Picciani, o delegado afirmou que o esquema criminoso investigado pela operação Cadeia Velha levou o estado do Rio a deixar de arrecadar R$ 183 bilhões em tributos em cinco anos.

Em 2018, o trabalho de Ramagem na PF do Rio chamou a atenção do núcleo duro da campanha de Bolsonaro à Presidência da República. E ganhou ainda mais força após o então candidato sofrer um atentado.

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Após se recuperar da facada de Adélio Bispo dos Santos, Bolsonaro foi apresentado a Ramagem na casa do empresário Paulo Marinho, no Rio. Um dos cérebros daquela campanha presidencial, Marinho é o primeiro suplente do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente.

Amizade com Carlos

Proximidade de Ramagem com família Bolsonaro é questionada por opositores

Alexandre Ramagem (destaque) aparece ao lado de Carlos Bolsonaro em festa de Ano Novo

Foto: Reprodução/ Instagram

A relação de Ramagem com outro filho de Bolsonaro provocou polêmica no fim de semana. Uma foto mostra o delegado ao lado do vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos) em uma festa de Ano Novo.

Nas redes sociais, muitos relacionaram a imagem ao fato de supostamente Carlos ter sido investigado pela PF por crimes virtuais. Um inquérito, que corre em segredo de Justiça, investiga esquema criminoso de divulgação de fake news para intimidar autoridades públicas.

No entanto, a CNN apurou que o nome de Carlos Bolsonaro não faz parte do inquérito já encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF). A CNN ouviu fontes ligadas ao antigo comando da PF e a ministros do STF.

No domingo (26), em meio às críticas, o presidente negou que a amizade entre Ramagem e seu filho seja um problema para indicar o delegado ao comando da Polícia Federal.

Bolsonaro respondeu a um comentário sobre escolha de Ramagem: "E daí?"

No Facebook, Jair Bolsonaro respondeu a um comentário sobre escolha de Ramagem: “E daí?”

Foto: Arte/ CNN

Bolsonaro respondeu a um comentário numa rede social: "E daí? Antes de conhecer meus filhos, eu conheci o Ramagem. Por isso deve ser vetado? Devo escolher alguém amigo de quem?".

A relação pessoal com a família Bolsonaro já havia levado Ramagem a Brasília. Em 12 de julho do ano passado, ele foi nomeado pelo presidente para o cargo de diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

A Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) emitiu nota em que solicita providências para resguardar a PF de novas crises. A entidade pediu que Bolsonaro assuma o compromisso de enviar ao Congresso projetos que garantam a autonomia financeira para a Polícia Federal.