O Grande Debate: Há problema na indicação de Ramagem para diretor-geral da PF?

Ramagem é próximo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e foi chefe da segurança dele durante a campanha presidencial de 2018; ele deve substituir Valeixo

Da CNN, em São Paulo
27 de abril de 2020 às 10:47 | Atualizado 27 de abril de 2020 às 10:53

Com participação dos advogados Thiago Anastácio e Gisele Soares, O Grande Debate desta segunda-feira (27) abordou a indicação do atual diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, para ser novo diretor-geral da PF. Os dois avaliaram se há algum problema na indicação de Ramagem para a PF.

Ramagem é próximo de Jair Bolsonaro (sem partido), amigos dos filhos dele e foi chefe da segurança do presidente durante a campanha de 2018, o que tem gerado críticas de partidos da direita e da esquerda por suposta interferência política na escolha para a PF. 

Nesta segunda, o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Edvandir Paiva, elogiou a escolha de Ramagem, mas disse que as circunstâncias da saída de Maurício Valeixo do comando da PF geram desconfiança para quem assumir o cargo. A demissão de Valeixo provocou o pedido de demissão do então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Além da pauta principal, os debatedores ainda discutiram a guerra de versões entre Moro e Bolsonaro, que trocam acusações desde o anúncio de demissão na última sexta-feira (24). Entre elas, as denúncias de interferência política de Bolsonaro e de negociação para cargo no Supremo Tribunal Federal (STF) .

Primeiro a apresentar seu posicionamento, Thiago Anastácio citou o ministro da Economia, Paulo Guedes, para exemplificar o que pensa sobre a escolha de Ramagem. "Eu discordo dele em muitos aspectos, mas eu devo respeitá-lo porque é um homem notável no conhecimento econômico. Então o que nós temos aqui é, simplesmente, uma desgraça instalada. Isso porque o novo chefe da PF é, simplesmente, um amigo de quem está sendo investigado por ser líder de uma organização criminosa", avaliou. "Isso não beira nem mais ao ridículo, mas ao vandalismo intelectual".

Gisele Soares considerou que a escolha para o cargo "deve ser prioritariamente técnica" e que ter relação próxima é algo secundário. "O que a gente tem que tomar cuidado é em não rejeitar pessoas que tenham capacitação técnica porque são amigos", defendeu a advogada. "O nome de Ramagem foi inclusive mencionado pelo próprio [ex] ministro [Moro] ao longo da sua da sua manifestação, então nesse aspecto é positivo".

O Grande Debate: os advogados Thiago Anastácio e Gisele Soares
Foto: CNN (27.abr.2020)

O advogado voltou a citar que a relação de Ramagem com a família Bolsonaro tem, sim, relevância neste caso. "Se o ministro Moro disse a verdade, nós estamos diante de claras evidências de tentativa interferências em uma investigação. Eu entendo de modo técnico o que a Gisele falou, mas vamos olhar para a realidade. Ele é amigo próximo dos filhos do presidente, que são investigados", frisou. "A pergunta é simples: isso soa legal e republicano?", questionou.

Gisele Soares e Thiago Anastácio concordaram que "perdem todos" com a abertura de inquérito solicitada pela PGR (Procuradoria Geral da República) a respeito das declarações do ex-ministro Sergio Moro - e que está nas mãos do ministro Celso de Mello, do STF. "Perde o Brasil, acima de tudo", considerou ela. "É muito triste", acrescentou ele.

Considerações finais

Nas considerações finais, Thiago Anastácio disse "ficar decepcionado que o país ainda viva de figuras messiânicas". "O Brasil é um projeto e, infelizmente, continuará sendo enquanto pessoas egoístas, no meio de uma pandemia, criam um dos momentos mais embaraçosos da história da República", criticou. "Espero que o STF aja e faça isso, rapidamente, pois precisamos saber a verdade", completou.

Gisele Soares finalizou o debate dizendo "não ver problema nenhum em termos heróis, desde que sejam bons". "Acho que bons exemplos servem mesmo para serem seguidos de um modo muito otimista e não vejo com maus olhos que tenhamos líderes e pessoas que admiramos", defendeu. 

Por outro lado, ela pediu "cuidado com redes sociais". "Estamos vendo aí o perigo do excesso de manifestações e troca de mensagens", disse, em referência às conversas entre a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e Moro. "Esse excesso de exposição é muito ruim para o país. Faço votos para que o novo ministro e o novo diretor-geral da PF façam um excelente trabalho", concluiu.