Em reunião, Bolsonaro cobra informações de inteligência da PF: 'Vou interferir'


Da CNN, em São Paulo
22 de maio de 2020 às 19:00 | Atualizado 22 de maio de 2020 às 19:56

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diz no vídeo da reunião ministerial de 22 de abril que interferiria em todos os ministérios, se fosse preciso, e cobra relatórios de informação da PF (Polícia Federal), das Forças Armadas e da Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Bolsonaro afirma que não pode ser "surpreendido com notícias"

Segundo o ex-ministro Sergio Moro, foi nesta reunião que o presidente teria manifestado a intenção de interferir politicamente na Polícia Federal, cobrando a substituição do superintendente do Rio de Janeiro e do diretor-geral, além de acesso a relatórios de inteligência e informação da corporação. Bolsonaro nega as acusações.

Confira o trecho na íntegra:

Eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações. Eu tenho as inteligências das Forças Armadas, que não tenho informações. Abin tem seus problemas, tenho algumas informações.

Ele diz que o serviço de informação é uma vergonha. "A questão estratégica, que não estamos tendo. E me desculpe, o serviço de informações nosso, todos, é uma ... são uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado!", exclama.

Segundo o presidente, essa falta de relatórios atrapalharia seu trabalho.

"E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma ... urna extrapolação da minha parte. É uma verdade. Como eu falei, né? Dei os ministérios pros senhores. O poder de veto. Mudou agora. Tem que mudar, pô. E eu quero, é realmente, é governar o Brasil", diz.  

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'F.... minha família'

O presidente também diz que teria tentado trocar "gente da segurança nossa no Rio de Janeiro" e que não teria conseguido.

Não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira.

Antes, Bolsonaro reclama de uma notícia do jornal Folha de S.Paulo, que diz que o irmão do presidente teria sido expulso de um açougue em Registro, a 194 km da capital paulista, por não usar máscara protetora. "Comprovou no papel, [o irmão] tava em São Paulo esse dia. O dono do açougue falou que ele não tava lá. E fica por isso mesmo. Eu sei que é problema dele, né? Mas é a putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família", disse.

Nas últimas semanas, o presidente já havia dito que a declaração diz respeito à segurança de sua família. No entanto, quem cuida do efetivo de segurança da família presidencial é o Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo general Augusto Heleno. Não há notícia de rusgas com o militar, um dos ministros mais próximos do Planalto.

Bolsonaro publicou em suas redes sociais que a divulgação do vídeo prova que não houve tentativa de intervenção. "Mais uma farsa desmontada; Nenhum indício de interferência na Polícia Federal", escreveu.

Fim do sigilo

O sigilo do vídeo foi retirado na tarde desta sexta-feira (22) pelo ministro Celso de Mello, do STF. Segundo ele, não há na gravação algo que se qualifique como assunto de segurança nacional ou de ofensa à intimidade dos participantes, argumentos que Bolsonaro e a AGU (Advocacia-Geral da União) usaram nas últimas semanas para restringir a divulgação do material.

Segundo Celso de Mello, não caberia expectativa de intimidade, uma vez que se tratava de um encontro para debater assuntos de interesse geral, na presença de inúmeros participantes.

O decano também citou o filósofo italiano Norberto Bobbio ao dizer que não há, "nos modelos políticos que consagram a democracia, espaço possível reservado ao mistério." Ainda de acordo com o ministro, o "novo estatuto político brasileiro (...) rejeita o poder que se oculta" e "não tolera o poder que se oculta".

Celso de Mello diz ainda que "ninguém está acima da autoridade das leis e da Constituição da República" e que, por isso, a investigação de crimes eventualmente atribuídos ao presidente é legítima.