Bolsonaro comenta divulgação de vídeo: 'Farsa desmontada'


Da CNN, em São Paulo
22 de maio de 2020 às 18:31 | Atualizado 22 de maio de 2020 às 19:04

Uma hora depois de o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, liberar o vídeo da reunião ministerial em que o ex-ministro Sergio Moro afirma provar que o Jair Bolsonaro (sem partido) atuou para interferir na Polícia Federal, o presidente se manifestou em suas redes sociais. No Twitter, publicou uma breve mensagem com seu slogan de campanha: "Brasil acima de tudo". No Facebook, Bolsonaro publicou um trecho da reunião com a mensagem: "Mais uma farsa desmontada; Nenhum indício de interferência na Polícia Federal",

A reunião é alvo de investigação sobre possível interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal - em episódio que levou ao pedido de demissão do ex-ministro da Justiça Sergio Moro. A defesa do ex-ministro afirmou que a divulgação do vídeo vai permitir que "autoridades e sociedade" confirmem a veracidade da alegação de que o presidente tentou interferir na PF. A acusação foi feita por Moro ao anunciar sua demissão do Ministério da Justiça, em abril. O registro da reunião foi liberado pelo ministro Celso de Mello, relator de um inquérito que apura as acusações no Supremo Tribunal Federal.

No vídeo, Bolsonaro diz que não esperaria sua família e amigos serem atingidos para "trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro". "É putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira", diz Bolsonaro na reunião.

Em outro trecho, ele diz que tem a prerrogativa de mexer em todos os ministérios. "Eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações".

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O ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, determinou, nesta sexta-feira (22), a liberação do vídeo e da transcrição da reunião de 22 de abril do presidente Jair Bolsonaro com seus ministros no Palácio do Planalto. Apenas duas rápidas menções a outros países foram suprimidas. Esses países seriam a China e o Paraguai, segundo apurado pelo analista Fernando Molica, da CNN

Em sua decisão, Celso de Mello afirmou que "ninguém está acima da autoridade das leis e da Constituição da República" na decisão em que autorizou a divulgação do vídeo da reunião. O ministro argumenta que, por isso, a investigação de crimes eventualmente atribuídos ao presidente é legítima.

Segundo o ministro, o pedido de divulgação do vídeo é legítimo, pois a gravação é "material revestido de caráter relevante e de índole probatória, destinado não só a viabilizar a apuração, por parte dos organismos estatais competentes (Polícia Judiciária e Ministério Público), dos eventos supostamente delituosos atribuídos ao Chefe do Poder Executivo da União, mas, também, reclamado por um dos investigados (o Senhor Sérgio Fernando Moro) como dado essencial ao exercício pleno do direito de defesa."

Celso de Mello também disse que a reunião ministerial trouxe "manifestações incompatíveis com a seriedade das instituições e a respeitabilidade dos signos da República", passando "longe de discutir sensíveis questões de Estado ou de Segurança Nacional". A crítica foi feita nesta sexta-feira (22), na decisão em que o magistrado retirou o sigilo sobre o vídeo da reunião. 

Críticas ao STF

A reunião também teve críticas ao Supremo Tribunal Federal e seus ministros. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, disse durante o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril que atuação do STF é palhaçada e que vai pedir a prisão de governadores e prefeitos depois da pandemia.

"Neste momento de pandemia a gente tá vendo aí a palhaçada do STF trazer o aborto de novo para a pauta, e lá tava a questão de ... as mulheres que são vítima do zika vírus vão abortar, e agora vem do coronavírus? Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil? Vão liberar geral?", questiona.

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O ministro da Educação, Abraham Weintraub, sugeriu mandar prender os ministros do STF. "Eu percebo que tem muita gente com agenda própria. Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF", diz.

No texto em que decide pela liberação integral, o relator do caso, o ministro do STF, Celso de Mello, diz que há na gravação "descoberta de possível crime contra a honra dos ministros do Supremo". "Constatei, casualmente, a ocorrência de aparente prática criminosa, que teria sido cometida pelo Ministro da Educação, Abraham Weintraub", escreveu. Ele classifica a declaração do ministro como "gravíssima" e que, além de ter "destacado grau de incivilidade e inaceitável grosseria", pode configurar crime contra a honra, como o de injúria.

'Boiada'

Na mesma reunião, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o governo federal deveria aproveitar que "a imprensa está focada na cobertura da pandemia de coronavírus" para “ir passando a boiada e simplificando normas”. “Estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços para dar de baciada a simplificação regulam ... é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos”.

China

Em sua fala, o ministro Paulo Guedes afirmou que a China deveria financiar um Plano Marshall para o mundo a fim de compensar os impactos econômicos causados pelo coronavírus. Mesmo assim, segundo o ministro, o Brasil não deveria entrar em mais atritos com o país asiático.

“A China é aquele cara que você sabe que você tem que aguentar. Porque para vocês terem uma ideia, para cada um dólar que o Brasil exporta para os Estados Unidos, exportamos três para a China”, diz Guedes, que também defende uma maior responsabilização aos chineses. “A China (censurado) deveria financiar um Plano Marshall para ajudar todo mundo que foi atingido”, disse.

Guedes afirma que a relação com os chineses pode ser pragmática. E que a China precisa do Brasil porque “eles precisam comer”. “Você sabe que geopoliticamente você está do lado de cá. (...) Não vamos vender para eles ponto críticos nosso, mas vamos vender a nossa soja para eles. Isso a gente pode vender à vontade. Eles precisam comer, eles precisam comer”, disse.

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