Novas mensagens mostram intenção da Lava Jato de investigar ministros do STJ

Troca de mensagens indica que a operação tinha a intenção de investigar pessoas com prerrogativa de foro privilegiado sem autorização

Thais Arbex
Por Thais Arbex, CNN  
04 de fevereiro de 2021 às 16:24 | Atualizado 05 de fevereiro de 2021 às 21:16

 


A defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entregou ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quinta-feira (4) novo pacote de mensagens apreendidas no âmbito da Operação Spoofing que revelam a intenção da Lava Jato de investigar ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

O arquivo de 42 páginas foi entregue ao ministro Ricardo Lewandowski, que, na segunda-feira (1º), suspendeu o sigilo das conversas entre os procuradores de Curitiba e o ex-juiz Sergio Moro. Nessa nova leva, o então coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, sugere pedir à Receita Federal “uma análise patrimonial” dos ministros que integram as turmas criminais do STJ.

“A RF [Receita Federal] pode, com base na lista, fazer uma análise patrimonial, que tal? Basta estar em EPROC [processo judicial eletrônico] público. Combinamos com a RF”, escreve Deltan para, em seguida, emendar: “Furacão 2”.

O procurador Diogo Castor de Mattos diz, então, acreditar que o ministro Félix Fischer, o relator da Lava Jato no STJ, não estaria envolvido em irregularidades. “Felix Fischer eu duvido. Eh um cara serio (sic)”, escreve.

A troca de mensagens indica que a operação tinha a intenção de investigar pessoas com prerrogativa de foro privilegiado sem autorização.

A nova remessa de mensagens também mostra que o então juiz Sergio Moro cobrou que a Lava Jato lhe informasse sobre o andamento do recurso que seria apresentado pelos procuradores no caso do triplex ao TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região).

“Russo quer uma previsão das nossas razões de apelação no caso triplex”, escreve Deltan aos procuradores, usando o apelido de Moro para se referir ao ex-juiz.

Na petição ao Supremo, os advogados de Lula afirmam que Moro “orientava e era consultado rotineiramente para a prática dos atos de persecução” em relação ao ex-presidente. “No que se refere ao famigerado tríplex do Guarujá, por exemplo, o então juiz Sergio Moro, além de ter atuado durante a própria elaboração da denúncia, como já demonstrado nestes autos, “exigia satisfação até sobre o andamento do recurso de apelação do MPF - evidenciando, uma vez mais, seu controle em relação aos atos do órgão acusatório”, escreve a defesa.

As novas mensagens também revelam que, além de “Russo”, o então juiz Sergio Moro também era tratado pelos procuradores da Lava Jato com o codinome de “Putin” - numa referência ao presidente russo, Vladimir Putin.

O novo pacote de mensagens foi entregue pela defesa de Lula ao Supremo no dia seguinte a Moro pedir ao tribunal que o processo da Operação Spoofing seja tirado do gabinete do ministro Ricardo Lewandowski e enviado ao ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato na Corte.

Moro nega ilegalidades

Procurada pela CNN, a força-tarefa da Lava Jato disse que não vai se manifestar.

A assessoria de Moro encaminhou nota do ex-juiz divulgada na segunda (1º), em que o ex-ministro diz não reconhecer a autenticidade das mensagens e que, “se verdadeiras, teriam sido obtidas por meios criminosos, por hackers, de celulares de Procuradores da República, sendo, portanto, de se lamentar a sua utilização para qualquer propósito, ignorando a origem ilícita”.

Na nota, Moro também afirma que as mensagens não retratam “qualquer ato ilegal” e que “interações entre juízes, procuradores e advogados são comuns”, “não havendo nada de ilícito, por exemplo, em perguntar sobre conteúdo de denúncia, na solicitação para manifestação com urgência em processos, inclusive para decidir sobre pedidos de liberdade provisória, ou no encaminhamento de notícia de crime ao MPF”.

O ex-juiz também diz que os processos julgados na Lava Jato “foram decididos com correção e imparcialidade”,  “tendo havido inclusive indeferimentos de vários pedidos da PF e do MPF e diversas absolvições (21% dos acusados foram absolvidos), com a grande maioria das condenações, inclusive do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mantidas pelas Cortes de Apelação e Tribunais Superiores”.