Carreira política de Bruno Covas teve inspiração na do avô, Mário Covas

Prefeito de São Paulo chegou a morar com o avô no Palácio dos Bandeirantes

Gregory Prudenciano, da CNN, em São Paulo
16 de maio de 2021 às 09:55 | Atualizado 16 de maio de 2021 às 10:20
Bruno Covas, em 2011, como secretário estadual de Meio Ambiente
Bruno Covas, em 2011, como secretário estadual de Meio Ambiente
Foto: André Lessa/Estadão Conteúdo

"Minha maior inspiração. Sua liderança e sua força fazem falta ao país". Foi com essa frase, publicada no Twitter, que o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, homenageou o avô, Mário Covas, quando a morte do ex-governador de São Paulo completou 20 anos, em 6 de março de 2021. 

A declaração é mostra de que a trajetória política de Bruno Covas, ainda que quase toda desenvolvida após a morte do avô, foi firmada na memória e no exemplo daquele que continua a ser um dos ícones do PSDB. 

E não só pelo fato óbvio da relação entre avô e neto. Em 1995, aos 15 anos, Bruno Covas saiu de Santos, sua cidade natal, e passou a ter como endereço o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo. Ou, numa expressão mais corriqueira, "foi morar com o avô". 

Na "casa do avô", conheceu figuras como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador José Serra (PSDB-SP). Tendo como companhias tucanos desta plumagem, acabou filiado ao PSDB em 1997, mas desde 1988 já integrava o "Clube dos Tucaninhos", espécie de associação infantil do partido. 

No site de sua campanha de reeleição à Prefeitura de São Paulo, há o registro de que foi com o avô que Bruno "aprendeu a amar a democracia e a trabalhar para melhorar a vida das pessoas".  Em 2017, quando era vice-prefeito, seu gabinete era decorado com um quadro do avô.

"Tem uma influência direta. Mário Covas morreu quando Bruno tinha 20 anos, já estava na universidade e já tinha esse conhecimento político desde a infância, na presença de políticos e de personalidades", analisa Rodrigo Prando, sociológo, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

"Se eu for escolher um aspecto que impactou diretamente o Bruno, foi essa discussão política sempre presente em casa, o debate, a discordância. Isso não significa que ele tenha se tornado um protótipo do avô, mas ter vivenciado esse aspecto político junto a Mário Covas moldou sua visão de mundo", diz Prando.

Apesar dos contatos e do peso do sobrenome, Bruno não furou fila. "Ele não quis queimar etapas. Foi presidente da juventude do PSDB, foi deputado estadual, deputado federal, secretário do governo Geraldo Alckmin. Vivenciou a política não só na família, mas também na sua própria vida", analisa o professor. 

"Ter o sobrenome [Covas], sem dúvida, é muito importante, mas ele fez a lição de casa. Não quis entrar no time já vestindo a camisa 10 sem antes ter jogado na base", explica Prando, aderindo a uma metáfora futebolística. 

Como fica claro em suas dezenas de postagens que citam Mário Covas, Bruno jogou desde a base tendo como referência os gols do avô. Quando morreu, em 2001, Mário Covas deixou um grande legado político, produto de uma longa carreira política, com destaque para os anos em que combateu a ditadura militar e os anos no governo de São Paulo, entre 1995 e 2001. 

"Mário Covas foi uma das pedras angulares da redemocratização do Brasil, estrela de primeira grandeza do PSDB e da social-democracia brasileira, tendo concorrido à Presidência da República", resume Prando, que vê essa herança refletida nas bandeiras - e nas brigas - do prefeito paulistano. 

Bruno Covas e seu irmão, Gustavo, ao lado do avô, Mário Covas
Bruno Covas e seu irmão, Gustavo, ao lado do avô, Mário Covas
Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Quando começou na militância do PSDB, Covas aliou-se a ala mais à esquerda do partido, tendo participado do grupo "Esquerda Pra Valer". Para Rodrigo Prando, a caminhada político-ideológica de Bruno Covas mostra a influência do avô. "Bruno Covas é um representante da social-democracia, um tucano que tenta conjugar mercado livre e capitalismo com assistência social. A defesa que era feito pelo avô está presente em Bruno", pontua. 

Essa defesa da democracia saiu fortalecida das urnas em 2020, quando Bruno Covas recebeu mais de três milhões de votos e foi reeleito prefeito de São Paulo, quase 60% dos votos válidos. 

Diante do diagnóstico de que o quadro de saúde de Bruno Covas é irreversível, como comunicou nesta sexta-feira (14) a equipe médica que cuida do prefeito, o cientista político disse à CNN que talvez o PSDB se distancie ainda mais da defesa da social-democracia que o caracterizou no começo. Mas há ressalvas a serem feitas. 

"No mundo pós-coronavírus, a situação econômica do Brasil exigirá das políticas sociais e econômicas uma posição muito mais social-democrata do que mais liberal ou à esquerda, de um dirigismo estatal", avalia Prando. "O PSDB pode, se for inteligente, se reposicionar de maneira a ocupar espaços", como ocuparam Mário e Bruno Covas. 

 

Bruno Covas e os avós, Lila e Mário Covas
Bruno Covas e os avós, Lila e Mário Covas
Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação