À CNN, senador elogia Barra Torres na CPI, mas pede flexibilidade para Sputnik V

Para Humberto Costa (PT-PE), Barra Torres demonstrou independência em relação ao presidente Jair Bolsonaro, o que foi uma 'boa surpresa'

Gregory Prudenciano e Rudá Moreira, da CNN, em São Paulo e em Brasília
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Em entrevista exclusiva à CNN nesta terça-feira (11), o senador Humberto Costa (PT-PE), titular da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, disse que o depoimento do diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, à investigação foi uma "boa surpresa" por conta da postura de maior independência demonstrada em relação ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). 

No depoimento, Barra Torres criticou a ideia de alterar a bula da cloroquina por meio de decreto presidencial para que se incluísse no documento o tratamento contra a Covid-19 e disse que algumas falas de Bolsonaro vão no sentido oposto ao que a Anvisa defende.

"Terminou sendo uma boa surpresa. Estamos acostumados aqui a receber integrantes do governo que, ao invés de se abraçarem às teses mais legítimas e mais adequadas ao enfrentamento da pandemia, procuram simplesmente se alinhar com o posicionamento e a postura do presidente da República", disse o senador petista.

Costa ressaltou que Barra Torres foi indicado por Bolsonaro para o cargo, mas foi aprovado pelo Congresso Nacional e cumpre um mandato de quatro anos que pode ser renovado pelo mesmo período, "portanto, ele tem uma independência e uma autonomia importante". 

No entanto, o senador reclamou diretamente a Barra Torres das negativas feitas pela Anvisa a estados que tentam importar a vacina Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, da Rússia. Este foi o ponto que, para Costa, tornou-se "a grande fragilidade do depoimento" do presidente da Anvisa. 

O senador disse que há um conflito de versões entre a autoridade sanitária brasileira e o Gamaleya no que diz respeito aos documentos apresentados nas solicitações de importação, também em relação ao acesso de técnicos da Anvisa para inspeção em fábricas russas do imunizante e sobre a presença de adenovírus replicantes nos lotes da vacina. 

"Eu tenho trabalhado no sentido de que nós possamos encontrar aí um consenso técnico, que significa o Instituto Gamaleya fornecer todas as informações que a Anvisa precisa e, do lado da Anvisa, é entender que nem sempre os padrões de produção de conhecimento científico no ocidente e no oriente são semelhantes", argumentou Costa, que disse ainda estar confiante que a Sputnik V seja incorporada ao Plano Nacional de Imunização (PNI). 

O senador Humberto Costa (PT-PE) conversou com a CNN sobre a CPI da Covid
O senador Humberto Costa (PT-PE) conversou com a CNN sobre o depoimento do diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, na CPI da Covid (11.mai.2021)
Foto: Reprodução / CNN

Nova convocação de Queiroga

Defensor de uma nova convocação para que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, preste outro depoimento à CPI da Pandemia, Humberto Costa, que foi ministro da Saúde no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse que ficou claro que o atual ministro "não fez até o presente momento nenhum movimento no sentido de tentar construir entre a Anvisa e os produtores da vacina [Sputnik V] um consenso técnico" que permita o uso do imunizante no Brasil. 

Ainda assim, o Ministério da Saúde já encomendou 10 milhões de doses da Sputinik V. Para Costa, o depoimento de Barra Torres reforçou sua percepção de que Marcelo Queiroga "fugiu de assumir qualquer posição" quando esteve na CPI e tem sido omisso enquanto ministro na defesa de medidas que impeçam a disseminação do coronavírus causador da Covid-19. 

Críticas a Bolsonaro

Humberto Costa afirmou que a CPI da Pandemia está mostrando que o presidente Jair Bolsonaro cometeu um "crime com dolo eventual". Segundo o senador, o presidente da República teria aderido e difundido a ideia de que uma eventual imunidade coletiva fruto do espraiamento acelerado do vírus seria a solução para a pandemia.

"O presidente da República correu o risco de, ao implementar essa prática, fazer com que milhares de pessoas pudessem morrer e milhões pudessem ser acometidas por essa doença". 

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