Amazonas vê casos de COVID-19 dispararem e tem maior incidência média no Brasil

Número de confirmações do novo coronavírus cresceu mais de 150% nos últimos quatro dias e desafia sistema de saúde do estado, que carece de leitos de UTI

O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), recebe carga de respiradores em aeroporto de Manaus
O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), recebe carga de respiradores em aeroporto de Manaus Foto: Diego Peres/Secom Amazonas

Guilherme Venaglia,

da CNN, em São Paulo

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O Amazonas só registrou seu primeiro caso do novo coronavírus mais de 15 dias depois de a doença chegar ao Brasil, no final de fevereiro. No entanto, a evolução rápida da disseminação fez o estado da região norte alcançar um posto indesejável nesta quarta-feira (8): o de maior incidência proporcional da COVID-19 no país.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o Amazonas chegou a 19,1 casos da doença para cada 100.000 habitantes. Os casos no estado aumentaram mais de 150% nos últimos quatro dias e alcançaram 804. São 30 mortes confirmadas. 

Em Brasília, o alerta para a situação amazonense soou na sexta-feira (3), quando o governo estadual informou ao Ministério da Saúde que havia ocupação de 90% dos leitos do Hospital Delphina Aziz, em Manaus, que centraliza o atendimento dos pacientes na rede pública.

Como noticiou a CNN, o acontecido sinalizou às autoridades federais que o estado poderia ser o primeiro a enfrentar desabastecimento no atendimento.

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Desde o início da crise, especialistas apontam que o principal fator de ameaça do novo coronavírus, além das condições de risco, é a elevada velocidade de disseminação da doença. Em países com o maior número de mortes, o crescimento rápido esgotou a capacidade do sistema de saúde, situação conhecida como “colapso”, e criou barreiras ao atendimento. 

De acordo com autoridades dos diversos níveis de governo, é esta a principal causa de preocupação com a situação do Amazonas. Outro fator é a dispersão de população em uma grande área, em especial dos indígenas. 

Em entrevista à CNN na segunda-feira (6), o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), disse que o sistema de saúde da capital amazonense “já colapsou”. “Eu considero que o sistema de saúde já colapsou. Não há UTIs [Unidades de Terapia Intensiva] suficientes para atender a demanda. Não estamos vendo uma porta de saída. Eu diria que, na parte privada, há exaustão”. 

Medidas de contenção 

Nesta quarta-feira (8), o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), decidiu trocar o comando da Secretaria de Saúde. Saiu Rodrigo Tobias, pesquisador da Fiocruz, e assumiu a biomédica Simone Papaiz, ex-secretária municipal de Saúde de Bertioga (SP). 

Junto com a posse da nova secretária, o governador anunciou a criação do programa Anjos da Saúde, equipe de profissionais que vai monitorar a qualidade do atendimento de saúde e prestar atendimento psicossocial. 

Para conter o ritmo da expansão de casos, sobretudo em Manaus, o governador Wilson Lima e o prefeito Arthur Virgílio anunciaram novas medidas para reforçar o isolamento social. 

No domingo, Virgílio assinou decreto em que permite que seja cassado o alvará dos comerciais da capital amazonense que descumprirem as regras de quarentena. “É preciso entender que esta não é a hora de ganhar dinheiro. Essa é a hora de salvar vidas, a hora de ganhar dinheiro é na volta, ela é essencial e ela volta depois”, disse, em vídeo nas redes sociais. 

No sábado, em entrevista à CNN, o governador do estado anunciou a proibição do transporte intermunicipal e a intenção de criar regras para restringir o direito à circulação. Lima também corre para reforçar a capacidade de atendimento do estado.

Na noite de terça-feira (7), o governador foi pessoalmente ao aeroporto receber um carregamento de respiradores e falou sobre a necessidade de conter a evolução dos casos hoje considerados de média gravidade, para reduzir a demanda por leitos de UTI.

Wilson Lima disse ter procurado a Embaixada da China para concluir compras de insumos feitas no país asiático, que concentra a indústria dessa classe de insumos, disputados por governos locais e nacionais do mundo inteiro. Após ver frustrada uma compra em negociação com os chineses, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), anunciou a conclusão de um acordo para ampliar a produção nacional.

Indígenas 

Em seus últimos pronunciamentos, ao comentar a situação da região Norte, o ministro Luiz Henrique Mandetta tem enfatizado a preocupação com a população indígena. Como têm menos contato com as principais doenças infecciosas urbanas, os indígenas têm sistema imunológico considerado mais vulnerável para o novo coronavírus.

Nesta quarta, se referiu a um jovem de 15 anos, da tribo yanomami, que foi internado em Boa Vista (RR) com a COVID-19. “Hoje tivemos um caso nos yanomami, o que muito nos preocupa. Há uma preocupação do governo na saúde indígena. Estamos providenciando a retirada de pessoas via helicóptero para poder levar a centros de atendimento de maior complexidade”. 

O ministro da Saúde afirmou que já estão fechados os acessos às aldeias, mas que parte dos próprios indígenas acaba optando por sair da reclusão e ir às cidades. “Infelizmente, às vezes as próprias pessoas da aldeia não querem [o isolamento]. Mas nós estamos com todas as equipes trabalhando no sentido de ajudar.” 

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