Carla Zambelli presa na Itália: o que sabemos

Deputada licenciada foi condenada pelo STF a dez anos de prisão por invasão de sistemas do CNJ e inserção de documentos falsos

Da CNN Brasil, São Paulo
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A Justiça italiana decidiu na sexta-feira (1º) que a deputada federal licenciada Carla Zambelli (PL-SP) vai continuar presa durante o processo de extradição para o Brasil.

A deputada, que está detida no presídio feminino de Rebibbia, passou por uma audiência de custódia na Corte de Apelação de Roma. A informação foi confirmada pelo embaixador do Brasil na Itália, Renato Mosca, e por integrantes da PF (Polícia Federal).

A CNN mostra, a seguir, o que se sabe até agora sobre o caso de Carla Zambelli.

Quando Zambelli foi presa?

Zambelli foi presa na última terça-feira (29) em Roma após ser monitorada e ter seu novo endereço descoberto.

A informação foi confirmada à CNN pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e pela Interpol.

A deputada foi levada para uma delegacia pela polícia italiana.

Por que Zambelli foi condenada?

A Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) condenou Zambelli por unanimidade em 14 de maio a dez anos de prisão por invasão dos sistemas do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e inserção de documentos falsos.

Os ministros também condenaram o hacker Walter Delgatti a oito anos de prisão pelo mesmo motivo. Ambos respondem pelos crimes de invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica. Além da pena de prisão, Zambelli e Delgatti precisam pagar uma indenização de R$ 2 milhões.

A Corte também determinou a perda do mandato da deputada.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) acusou os dois em fevereiro de atacarem sistemas do CNJ para incitar atos antidemocráticos.

A investigação apontou que eles inseriram documentos falsos no sistema do órgão, como um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Conforme a denúncia da PGR, Zambelli teve “papel central” na invasão dos sistemas eletrônicos do CNJ e foi a “autora intelectual” do ataque hacker.

Zambelli pode ser extraditada para o Brasil?

Sem prazo para ser finalizado, o processo de possível extradição da deputada federal licenciada passa por inúmeras etapas no governo da Itália e na Justiça do país antes de ser aceito ou negado.

O Ministério do Interior, equivalente ao Ministério da Justiça brasileiro, recebeu do Farnesina — que é responsável pelas questões diplomáticas — o pedido de extradição do Brasil em 12 de junho. Após análise, distribui a um tribunal.

Após a prisão da deputada, para fins extradicionais, o tribunal que tiver recebido o pedido avalia a existência de condições de extradição, analisando documentação e a condenação pelo crime de invasão de dispositivo eletrônico.

Depois da decisão do tribunal, aceitando ou negando, o processo volta ao Ministério do Interior, que informa a Farnesina, que comunica a Embaixada do Brasil na Itália.

A partir daí, se for autorizada a extradição, o processo entra na fase logística, em que ela é levada ao Brasil.

A Polícia Federal entra nessa fase para ir até a Itália buscar a deputada. Se o pedido for aceito, os agentes definirão se a extradição será em voo comercial ou em aeronave própria da PF.

Como Zambelli foi parar na Itália?

A deputada federal anunciou no dia 3 de junho que deixou o Brasil. De acordo com a parlamentar, ela ficaria na Europa e deveria pedir licença do mandato como deputada.

"Queria anunciar que estou fora do Brasil já faz alguns dias, eu vim a princípio buscando tratamento médico que eu já fazia aqui e agora eu vou pedir para que eu possa me afastar do cargo", afirmou a deputada em entrevista à Rádio Auri Verde Brasil.

Durante a entrevista, a deputada voltou a criticar o STF e afirmou que, fora do Brasil, pretenderia levar suas denúncias às autoridades europeias.

“Queria deixar claro que não é um abandono do país, não é desistir da minha luta. Muito pelo contrário: é resistir. É poder continuar falando o que quero falar. É voltar a ser a Carla que eu era antes das amarras que essa ditadura nos impôs”, declarou Zambelli.

À CNN, a deputada afirmou que moraria na Itália por ter a cidadania italiana e, por este motivo, não poderá ser deportada do país para retornar ao Brasil.

Já após a condenação, a cidadania italiana da deputada pode se tornar o principal obstáculo para sua extradição ao Brasil.

Embora o Brasil mantenha com a Itália um tratado de extradição desde 1989, a Constituição italiana impede, em regra, a entrega de seus cidadãos a outros países. A exceção são casos muito específicos, o que abre margem para que a defesa da deputada utilize a dupla cidadania como estratégia para evitar o retorno ao Brasil.

Zambelli chegou a pedir asilo político na Europa ao alegar perseguição judicial, tese negada pelas autoridades.

Segundo a advogada Lorena Pontes, especialista em direito internacional, os crimes cometidos por Zambelli não se tratam de perseguição e — por isso — não se encaixam em refúgio.

“A Constituição brasileira, o Código Penal e tratados internacionais são claros: não se trata de perseguição política, mas de crimes comuns, como invasão de sistema informatizado e falsidade ideológica. Isso não configura refúgio”, avaliou. Além disso, o julgamento deve durar meses, já que será necessária uma “simbiose” entre as decisões jurídicas entre Brasil e Itália.

“A presença da Zambelli na Itália coloca em xeque o alcance da cooperação internacional. A Justiça italiana vai precisar avaliar se o crime pelo qual ela foi condenada se encaixa nas exceções previstas pela legislação do país”, afirmou Pontes.

Caso a extradição seja negada, Zambelli poderá continuar morando na Itália, mas seguirá com status de foragida da Justiça brasileira. Já se for enviada de volta, deverá cumprir pena em regime fechado e poderá perder o mandato parlamentar.

Zambelli estava na lista da Interpol?

Após a Interpol incluir o nome da Zambelli na Difusão Vermelha como foragida internacional, muito se questionou nas redes sociais se realmente ela estava na lista e o motivo de ela não aparecer com foto de procurada no site aberto da rede internacional.

A explicação é que a regra da Interpol é que todos os nomes de foragidos nessa difusão sejam restritos. Segundo integrantes do organismo à CNN, alguns se tornam público, mas esse não é o rito.

Para que o Red Notice [alerta vermelho] seja público é preciso haver pedido específico do país e alguma justificativa operacional, explicam os policiais. Nesse caso, a inclusão solicitada à Interpol pela PF brasileira não é pública, mas restrita.

Dessa forma, o nome dela não aparece para pesquisa pública da sociedade e internautas no site da Interpol. Por outro lado, consta para as polícias de todos os 196 países que fazem parte da rede.

Como é o presídio que a Zambelli está?

Zambelli foi enviada para a prisão Germana Stefanini, conhecida como prisão feminina de Rebibbia, em Roma.

O Complexo Penitenciário de Rebibbia é composto por quatro instituições penitenciárias.

A prisão feminina já foi visitada pelo papa Francisco, que quebrou uma tradição na Igreja Católica e lavou os pés apenas de mulheres em um serviço religioso de Páscoa, em 28 de março de 2024.

Além disso, ele abriu uma "porta santa" na capela do complexo em dezembro do ano passado, como parte de um rito para o ano sagrado do catolicismo.

O complexo penitenciário de Rebibbia também abriga mafiosos. Em 2020, um chefe da máfia siciliana mordeu um guarda e arrancou parte de um dedo do agente.

A prisão tem capacidade para 272 pessoas, mas está com superlotação, com 369 presas, segundo dados de 30 de julho de 2025. O site do Ministério de Justiça da Itália prevê que haja 214 agentes penitenciários nessa unidade. Entretanto, há 181 policiais, de acordo com informações de 30 de junho deste ano.

O que defesa de Zambelli pretende fazer?

Com a prisão da deputada mantida após audiência de custódia, sua defesa analisa agora as possibilidades para apresentar recursos à Justiça italiana.

"Pretendemos interpor todo e qualquer recurso que seja cabível", afirmou à CNN o advogado Fábio Pagnozzi, que está no Brasil e acompanha o processo junto à defesa italiana, que é feita por Pieremilio Sammarco.

Entre os caminhos possíveis estão o pedido para que a deputada possa ir para prisão domiciliar enquanto aguardo o processo de extradição ou ainda pedir para que ela responda em liberdade.

A audiência de custódia demorou cerca de três horas e foi conduzida por um juiz de garantias, que não tem relação direta com o processo. Já aliados de Zambelli aguardavam o desfecho negativo porque já apostavam as fichas nos recursos seguintes.

*Publicado por João Scavacin, da CNN, sob supervisão de Douglas Porto