Discurso contra Moraes é armadilha retórica de Bolsonaro, diz especialista

"A tentativa do presidente foi tentar se mostrar como um indivíduo político que se colocaria acima do restante das instituições", disse o analista Creomar de Souza à CNN

Lucas RochaElis Francoda CNN

em São Paulo

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O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participou, nesta terça-feira (7), de manifestações com apoiadores em Brasília e São Paulo. Em discurso na Avenida Paulista, Bolsonaro afirmou que “só Deus” pode tirá-lo da Presidência. “Quero dizer àqueles que querem me tornar inelegível em Brasília: ‘só Deus me tira de lá’. Aviso aos canalhas: não serei preso”, disse o presidente.

Bolsonaro disse ainda que “qualquer decisão do ministro Alexandre de Moraes esse presidente não mais cumprirá”.

Na avaliação do consultor de risco político Creomar de Souza, os discursos do presidente têm como base a criação de um ambiente de instabilidade como recurso de plataforma política.

“Tanto em Brasília quanto em São Paulo, a tentativa do presidente foi tentar se mostrar como um indivíduo político que se colocaria acima do restante das instituições. Quando ele diz que não vai obedecer uma medida judicial dada por um juiz ele cria uma espécie de armadilha retórica”, diz Souza em entrevista à CNN.

“Se os juízes não fizerem nenhuma medida judicial que o atinja, ele sempre vai poder dizer que os juízes foram enquadrados. Agora, de outro lado, se os juízes têm algum tipo de decisão que o atinja diretamente ele pode dizer que isso é mera provocação para gerar algum tipo de ruptura”, completa.

Bolsonaro opta cada vez mais por discurso segmentado

O analista político avalia que o presidente Bolsonaro tem optado por realizar discursos cada vez mais direcionados aos apoiadores. “Bolsonaro conseguiu arregimentar os seus apoiadores e fez um discurso, assim como tem feito desde o início do seu governo, direcionado aos apoiadores. Isso deixou de lado uma série de outras expectativas que envolvem pedaços da população brasileira que não estão envolvidos nessa espécie de clássico futebolístico político”, afirma.

Para Souza, a escolha de Bolsonaro poderá trazer consequências como o isolamento do presidente no cenário político. “Se no dia 7 de setembro o presidente Bolsonaro teve uma espécie de apoteose bancada por seus militantes e apoiadores, o dia 8 pode trazer algumas surpresas bastante desagradáveis para ele, sobretudo no que diz respeito a uma lógica de isolamento político”, diz o analista.

Instabilidade faz parte da democracia

De acordo com o analista político, momentos de instabilidade fazem parte do curso de todas as democracias. “Não há indicadores até aqui que a gente tenha um golpe clássico. Tanques nas ruas, soldados armados entrando num estúdio de TV como nós vimos um dia desses no Afeganistão. Mas há um processo de desgaste que acontece em várias democracias no mundo”, afirma.

“O importante é que nós consigamos criar elementos de diálogo para a partir daí construir uma lógica de resgate na crença da capacidade que os governos e os políticos tenha de resolver os problemas das pessoas”, completa.

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