Ocupação de leitos de UTI já passa de 80% em cinco estados brasileiros

Possíveis focos de colapso nos sistemas de saúde chegam a oito caso seja considerada a concentração de pacientes em São Luís, São Paulo e Natal

Julyanne Jucá, Victória Cócolo e Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo
14 de maio de 2020 às 05:35 | Atualizado 14 de maio de 2020 às 12:04

Levantamento realizado pela CNN identificou que ao menos cinco estados brasileiros já registram taxas de ocupação dos leitos de UTI acima de 80%. Pernambuco registra uma taxa de ocupação de 97%, seguido por Ceará (88,53%), Amazonas (87%), Pará (86,74%) e Rio de Janeiro (86%). 

Apesar de ter em tese 14% dos leitos disponíveis, o Rio possui uma fila de 390 pacientes suspeitos ou confirmados para Covid-19 aguardando transferência. Essa diferença se deve ao fato de haver uma vacância rotativa, em razão de mortes, leitos reservados para pacientes em observação e outros com alta recente. Portanto, uma margem estreita representa na prática um cenário próximo ao do esgotamento.

A relação de focos graves da crise cresce quando se considera a subdivisão por regiões. O estado do Maranhão não divulga a média estadual, mas engrossa a lista quando se considera a capital. Em São Luís, a ocupação dos leitos de UTI está acima de 87%.

A mesma situação ocorre em São Paulo e no Rio Grande do Norte. No estado do Sudeste, a ocupação de leitos de UTI está em 68,73%, mas a situação dos leitos municipais de UTI da capital paulistana (89%) e dos leitos estaduais da região metropolitana (87,2%) são consideravelmente mais graves. A ocupação dos leitos potiguares se aproxima bastante da marca dos demais (78%), mas a capital Natal registra o altíssimo índice de 94%.

Sem padrão

A divulgação dos leitos de UTI não é padronizada, com cada estado decidindo a própria forma de lidar com essas informações. Segundo estado com a maior incidência média de casos de coronavírus no país (355 a cada 100 mil habitantes), o Amapá não divulga percentuais de ocupação, apenas números totais -- no caso, 108 pacientes em tratamento intensivo, sendo 60 na rede pública de saúde.

Há ainda estados que ou não atualizam a informação diariamente, ou inserem informações apuradas com defasagem de alguns dias. É o caso do Amazonas, que tem a maior mortalidade proporcional do país -- 28 mortes a cada 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a média nacional. O governo do estado informou nesta quarta-feira (13) que registrava ocupação de 87% dos leitos, mas os dados foram apurados na segunda-feira (11) e tendem a estar defasados da situação de momento.

A importância do dado

Além do aspecto prático -- isto é, saber que há leitos disponíveis para atendimento --, a ocupação do sistema de saúde é uma das principais métricas a serem consideradas, por exemplo, para a continuidade ou não de medidas de distanciamento social. 

Para os governadores e prefeitos que adotaram a quarentena, a principal razão para o fechamento provisório do comércio e atividades não essenciais é reduzir o ritmo de contágio do novo coronavírus entre a população, evitando que a procura pelo sistema de saúde supere a capacidade de atendimento, como aconteceu em outros países, caso da Itália.

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No Rio de Janeiro, já há um protocolo em gestão pelo governo do estado para caso seja necessária a escolha, segundo critérios técnicos, de quais pacientes devem ter preferência no atendimento. O documento, obtido e divulgado no último dia 1º pela CNN, fala em "salvar o maior número de vidas e o maior número de pessoas com probabilidade de sobreviver por mais tempo após o tratamento", a partir de critérios como a situação de órgãos e a existência de doenças pré-existentes.

Diretrizes

A ocupação dos leitos e a evolução deste dado fazem parte do plano elaborado pelo ministro da Saúde, Nelson Teich, para orientar governadores e prefeitos sobre a continuidade, abrandamento ou agravamento das medidas de isolamento.

O plano foi anunciado na segunda-feira (11) e seria detalhado nesta quarta-feira (13), em entrevista coletiva que foi cancelada após o governo federal não conseguir fechar um acordo sobre as diretrizes com os conselhos dos secretários estaduais e municipais de saúde.

Entre os estados que informam a ocupação percentual dos leitos de UTI disponíveis, há quatro que registram essa proporção abaixo de 20% do total. Os destaques positivo ficam para o Mato Grosso do Sul (2%) e Minas Gerais (6%). Completam a relação Mato Grosso (10%) e Santa Catarina (19,6%). A última atualização feita pelo Mato Grosso foi na terça-feira (12).