Covid-19 em 'temporada da gripe' transformou Norte em foco de pandemia


Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo
22 de maio de 2020 às 05:00
Ambulância, UTI, Covid-19

Ambulância em Manaus, capital do estado do Amazonas, 16 de abril de 2020.

Foto: Bruno Kelly/Reuters

Em números absolutos, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro são os que possuem o maior número de casos da Covid-19 no Brasil. De acordo com o balanço mais recente do Ministério da Saúde, são 73.739 casos em terras paulistas e outros 32.089 em terras fluminenses.

Apesar disso, a região que mais preocupa o governo federal neste momento é outra, a Norte. Muito extensa e pouco populosa, a região tem "apenas" 60 mil casos, mas quando este número é colocado em uma perspectiva proporcional, são 326 casos a cada 100 mil habitantes. Essa métrica chega a até 613 e 612 casos por 100 mil, respectivamente, nos estados do Amapá e do Amazonas.

Para efeito de comparação, a incidência média em São Paulo é de 160 casos e a do Rio de Janeiro, de 185 a cada 100 mil habitantes. A média nacional é de 147 casos a cada 100 mil. As informações estão na plataforma digital do Ministério da Saúde de divulgação do panorama da Covid-19.

A região Nordeste também está acima da média nacional, com 185 casos por 100 mil, dados pressionados por Ceará (344 casos/100 mil), Pernambuco (250 casos/100 mil) e Maranhão (227 casos/100 mil).

Segundo o diretor do departamento de análise em Saúde, Eduardo Macário, a principal razão a colocar Norte e Nordeste no foco inicial da Covid-19 é um alerta para as demais regiões do país. Trata-se da chamada "temporada da gripe", período em que por condições climáticas a circulação de vírus gripais é mais intensa.

"Não estamos no período sazonal no Brasil, mas sim no período sazonal das regiões Norte e Nordeste", explicou Macário em entrevista coletiva nesta quinta-feira (21). As duas regiões mais ao norte começam a ser afetadas pelos vírus gripais -- como H1N1 e Influenza -- a partir de março, enquanto no centro-sul do país esse processo começa mais para o início do inverno.

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A pedido da CNN, o técnico detalhou um pouco mais a sua percepção: a chegada da Covid-19 ainda coincidiu no Norte com um período de chuvas. Além de questões relativas à imunidade, a chuva afeta a dinâmica social, com pessoas fechando janelas de ônibus e carros, se resguardando de temporais e circulando mais em locais fechados.

Essa combinação de um vírus altamente transmissível, como é o novo coronavírus, com aglomerações em ambientes fechados contribuiu sensivelmente para que a situação fosse mais grave na região. O Sudeste foi a porta de entrada para a Covid-19, por ser o pólo com mais chegadas e partidas de voos internacionais, mas foi no Norte onde encontrou a "tempestade perfeita", ainda com menor capacidade de reação do sistema de saúde.

Outros números do ministério indicam como esse processo ocorreu. Em 28 de março, o Norte tinha casos registrados da doença em 19 municípios (4,2%), enquanto no Sudeste eram 97 municípios (5,8%). Dois meses depois, a Covid-19 chegou em 358 municípios do Norte (79,8%) e 992 municípios do Sudeste (59,5%).

A exceção

De todos os estados da região Norte, apenas um encontra-se abaixo da média nacional: Tocantins. A CNN procurou a Secretaria de Saúde do estado para questionar a que razão isso era atribuído.

Em nota, a pasta pondera que o Tocantins foi um dos últimos estados a confirmarem casos da doença, o que ainda coloca o estado sob observação para que aguarde a evolução local da pandemia Além disso, outras duas razões são apontadas: a densidade demográfica mais baixa e a adoção do isolamento social.

"Em relação à região Norte, o alto índice se dá devido à alta densidade populacional apresentada em Belém e Manaus, por exemplo, o que torna as cidades mais propensas à alta incidência de Covid-19 na população. Felizmente o Tocantins diverge do alto índice da região, em geral", afirma a pasta.

Inverno

A chegada do inverno --e, com ele, a temporada da gripe no centro-sul do país-- foi tema de uma reunião de gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) nesta quinta-feira. Há duas vertentes que acendem o alerta para o rumo da pandemia do novo coronavírus nesses estados e no interior do país de uma forma geral.

Neste encontro, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, afirmou que estados precisarão continuar investindo em infraestrutura mesmo após o pico da crise, uma vez que é previsto um rumo de pacientes do interior em busca de atendimento nas capitais e os efeitos do inverno.

"[Para] o Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste, é tempo de se preparar. É hora de acumular meios, estruturar UTIs, habilitar leitos, adquirir insumos e equipamentos, se preparar para o combate com a vantagem de estarmos observando o que está acontecendo, como foi o impacto no Norte e Nordeste”, afirma.