'Não temos uma vacina pronta', diz editor-chefe da The Lancet sobre a Sputnik V


Leonardo Lopes*, da CNN, em São Paulo
04 de setembro de 2020 às 12:56 | Atualizado 04 de setembro de 2020 às 13:49

Produção da vacina russa Sputnik V

Produção da vacina russa Sputnik V

Foto: Divulgação/Sputnik V (11.ago.2020)

O editor-chefe da revista médica The Lancet, Richard Horton, afirmou que a vacina russa contra a Covid-19 não está pronta para ser usada em larga escala.

A The Lancet publicou nesta sexta-feira (4) um estudo que aponta que Sputnik V produziu resposta de anticorpos em todos os participantes dos testes em estágio inicial. 

Os resultados dos dois testes – conduzidos em junho e julho deste ano, com 76 pessoas – mostraram que 100% dos participantes desenvolveram anticorpos para o novo coronavírus e nenhum efeito colateral sério.

Leia abaixo os principais pontos da entrevista de Horton à âncora da CNN Internacional Becky Anderson, realizada nesta sexta:

Nós temos uma vacina para Covid-19? Podemos dizer isso agora?
Não podemos dizer que temos uma vacina pronta para ser utilizada em larga escala. O que podemos dizer sobre a vacina russa é que os resultados são encorajadores. Mas seria prematuro acreditar que isso embasa uma vacina bem-sucedida para uso público.

Por que seria prematuro?
Primeiramente, porque isso foi um estudo muito pequeno, com 76 pessoas. Em termos de comparação, a vacina de Oxford, que publicamos semanas atrás, foi testada com milhares de participantes. O que está estabelecido é que a vacina definitivamente cria a resposta imune que você quer ver. Foi uma resposta forte. E baseado nestes 76 participantes, a vacina parece ser segura e livre de efeitos colaterais. Mas agora precisamos destes testes em grande escala e randomizados. E eles estão acontecendo. Estão acontecendo em 40 mil voluntários, já começaram em Moscou. Precisamos esperar o resultado destes testes antes de poder dizer algo em definitivo.

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Quão preocupado você está com esta corrida pela vacina que está ganhando forma?
Eu ouvi a coletiva que foi dada pelo Fundo de Investimento Direto Russo, e acho que foi infeliz. Porque o modo que os resultados foram apresentados parecia um desafio contra a ciência ocidental. Os apresentadores disseram que receberam muitas críticas e essa era a resposta deles às críticas. Disseram que a vacina deles era melhor que a da Astrazeneca, e agora era a vez da Astrazeneca e seus cientistas responderem aos cidadãos deles. Acho que se começarmos a colocar nação contra nação, vacina contra vacina, empresa contra empresa, isso vai minar completamente qualquer resposta racional. Isso é uma crise global. Uma crise global precisa de uma resposta global e uma solução global. Nós queremos várias vacinas, porque algumas vão ser bem sucedidas e outras falharão. Mas isso não deve ser uma guerra entre países, isso deveria ser sobre cooperação. Por isso achei que foi infeliz o modo que os dados foram apresentados.

Você poderia dizer isso para Trump.
Eu queria que fosse verdade [a possibilidade de vacinação dos norte-americanos em outubro]. Os testes estão em andamento em áreas onde a transmissão comunitária é alta: Brasil, África do Sul, alguns países europeus. Mas não vamos ter esses resultados e ter certeza até o fim do ano. Mesmo quando tivermos os resultados dos ensaios clínicos, nós teremos de olhar meticulosamente esses dados. Precisamos fazer muitas questões para garantir que é segura. Esse processo precisa de tempo para dar certo. Porque, se nós errarmos e liberarmos uma vacina precocemente, apenas imagine: nós já temos um movimento fervilhante de pessoas anti-vacinação, que é perturbador. Nós não podemos apressar esse processo.
Não teremos vacina para uso público até o fim de outubro. Trump está simplesmente errado em relação a isso. Nao há motivo para ele dizer isso, pois seus assessores estão com certeza o avisando, mas é impossível.

É a primeira vez que lançam dados da vacina russa revisado por pares. É significante?
Com certeza, e eu parabenizo os cientistas russos. Os primeiros anúncios da vacina vieram pelo presidente Vladimir Putin, e eu acho que isso foi altamente condenável, fazer essas alegações antes dos dados serem publicados. Agora, os cientistas russos submeteram seus dados para escrutínio internacional. Os dados foram revisados por pares que não estão na Rússia, então, eles foram bem sucedidos em ter a vacina aceita pela opinião científica internacional. E agora precisamos prosseguir com a fase 3 de testes. Como disse, é encorajador, mas ainda não chegamos lá.

(*com supervisão de Leandro Nomura)