Máscaras N95 falsificadas são vendidas 'livremente'; saiba como identificar

Demanda por máscaras cirúrgicas aumentou após serem indicadas por autoridades sanitárias da Europa, mas especialistas alertam sobre os perigos das falsificações

Weslley Galzo, da CNN, em São Paulo
24 de fevereiro de 2021 às 05:00 | Atualizado 18 de março de 2021 às 22:40

As buscas pelo termo "máscara N95" tiveram um crescimento repentino de interesse desde o final de janeiro, após indicação de diversos governos europeus como proteção eficiente ao coronavírus. O interesse subiu, em média, 20% em relação a dezembro de 2020, segundo dados do Google. As buscas despertaram o interesse de criminosos, que aproveitam a alta demanda para vender material de proteção falsificado, principalmente pela internet.

A CNN conversou com uma especialista que deu dicas de como reconhecer um produto original e alertou ainda para os riscos de um produto falsificado. Segundo a infectologista e professora da Unicamp Raquel Stucchi, a venda de máscaras pela internet pode enganar o consumidor, pois só é possível constatar com precisão a qualidade da máscara depois de adquirir o material.

"A aparência pode enganar. Só é possível afirmar se um produto é original ao checar se ele tem todas as camadas de proteção", explica. Ela recomenda ainda que o comprador adquira mais de uma máscara para que uma delas seja inspecionada por dentro.

Ao "rasgar" uma N95, o usuário deve encontrar as seguintes camadas de proteção: camada externa de fibra sintética de polipropileno; camada do meio de fibras sintética estrutural; camada filtrante de fibra sintética com tratamento eletrostático e camada interna de fibra sintética de contato facial.

Apreensão de mais de 400 máscaras N95 falsas no aeroporto de Washington, nos EUA
Apreensão de mais de 400 máscaras N95 falsas no aeroporto de Washington, nos EUA
Foto: Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA

 

"O que me motivou a comprar uma N95 foi a volta às aulas"

A gerente de marketing Tereza Candida, que vive em São Paulo, é mãe e está há semanas preocupada com a saúde da filha, que retorna às aulas presenciais na próxima quinta-feira (25), no colégio em que estuda.

Com a informação de que o modelo N95 é o mais eficiente, ela iniciou pesquisas online por máscaras infantis porque não conseguia encontrar o produto em farmácias do seu bairro.

“Busquei a N95 porque é a que aparece nas notícias como a mais confiável, com maior grau de proteção”, conta. “Eu comprei esse lote para dividir com outros pais. Iam ficar 4 máscaras para cada criança”.

Tereza efetuou a compra em um grande market place virtual - loja que reúne diversos fornecedores -, mas ao receber o produto em casa se deparou com uma EPI feito de tecido TNT.

“Por mais que digam que é um market place, eu não estava comprando em qualquer empresa. Imaginei: ‘aqui vai ser confiável’, mas quando chegou não era o que eu imaginava. Era pior do que uma máscara comum", relata. 

A compradora estranhou as imagens ilustrativas disponíveis no site, mas confiou que receberia um produto de qualidade por conta da credibilidade da loja em que fez a aquisição. Ela afirma, inclusive, que esperava encontrar ao menos um selo de qualidade do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) na embalagem, o que não aconteceu.

Máscara N95 falsificada é produzida com tecido TNT
Máscara N95 falsificada é produzida com tecido TNT
Foto: Arquivo pessoal

Recomendações para compras online

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), agência de saúde dos Estados Unidos, disponibiliza em seu site (em inglês) um guia com dicas para detectar máscaras falsificadas. Basicamente, o comprador deve estar atento aos erros que poderiam passar despercebidos e se questionar sobre as informações que encontra. As mesmas dicas se aplicam no Brasil.

  • Verificar se existem erros de digitação, gramática incorreta ou outros erros no site ou embalagem
  • Verificar se existem falhas no site, como páginas inacabadas ou em branco, texto fictício, links corrompidos e domínios com erros ortográficos?

  • Desconfie de listas que chamam os produtos de "genuíno" ou "real". As empresas legítimas não precisam dizer aos compradores que seus produtos são reais - pelo menos não no nome do produto.

  • Cheque a área de comentários para ver a reputação da empresa. Compradores insatisfeitos com o produto podem revelar se ele é mal feito ou ilegítimo.

  • Veja se o comerciante está vendendo os mesmos itens ao longo do tempo ou seguindo as tendências. Negócios legítimos tendem a permanecer consistentes.

  • O vendedor coloca suas informações de contato em imagens? Nesse caso, eles podem estar contornando a política de mercado para manter as interações entre compradores e vendedores no site.

Raquel Stucchi destaca o valor da mercadoria como um ponto de atenção. "Devemos desconfiar de máscaras cirúrgicas que oferecem um preço muito reduzido”, afirma. A infectologista também diz que “comprar de empresas reconhecidas diminui, ou quase que zera” o risco de fraudes. No entanto, até mesmo grandes varejistas têm comercializado máscaras falsificadas em seus sites. 

O Inmetro, órgão que emite os certificados de confiabilidade dos EPIs comercializados no Brasil, publicou uma resolução no Diário Oficial da União, em 11 de maio de 2020, com a lista de empresas que falharam ao demonstrar a eficiência mínima de filtragem de 95% de partículas nas máscaras N95. 

No entanto, ainda é possível encontrar alguma dessas empresas vendendo sem restrições em sites de compra e venda e até em grandes redes de lojistas. Nesses sites, até mesmo lojas de móveis planejados vendem máscaras. Isso deve despertar a atenção do consumidor quanto à procedência.

Como checar a qualidade da máscara? 

Além do verificar as camadas internas da máscara, vale observar se a o produto possui marcação que indique a aprovação pelo Inmetro, de forma legível. A padronização destes equipamentos é feita pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), no documento NBR 13698 de 2011.

A N95 se enquadra na classe Peça Facial Filtrante (PFF), como "Peça Semifacial Filtrante", e possui variações que indicam resistência a aerossóis e oleosos capazes de reter partículas sólidas (S) e líquidas à base de água e à base de óleo (SL). 

Nas máscaras do tipo N95, o Inmetro exige que todas as peças aprovadas contenham no mínimo as marcações de classe da PFF - S ou SL -, identificação do fabricante e lote de fabricação. 

A embalagem também deve conter as marcações que indicam a veracidade do produto: identificação do fabricante; classe da PFF (PFF1, PFF2 ou PFF3), seguida das siglas (SL) ou (S) de acordo com a sua capacidade de resistência ou não ao aerossol oleoso; a sentença: “Veja informações fornecidas pelo fabricante”, ou equivalente; data de fabricação e prazo de validade ou fim do prazo de validade (mês e ano) e condições de armazenamento.

Vale ficar atento às máscaras N95 que são vendidas com enfeites e adornos, que geralmente são falsas.

Máscaras caseiras x N95

A busca por informações sobre as máscaras de tipo cirúrgico ocorre logo após as autoridades sanitárias da Europa recomendarem o uso dos materiais de proteção N95, PFF2 ou equivalente, como forma de prevenção da Covid-19.

A infectologista Raquel Stucchi, no entanto, aponta que "não há indicação de uso coletivo de N95" no Brasil. Ela destaca que a máscara de tecido é suficiente para conter a disseminação do novo coronavírus.

“É melhor uma máscara de tecido feita em casa do que uma N95 falsa”, afirma.

“Para Covid, em uso cotidiano, não há recomendação de uso de N95. Não tem utilidade porque a transmissão da Covid na comunidade é por gotículas. Para bloquear a transmissão por gotículas, a máscara de tecido cumpre bem o seu papel, desde que seja produzida corretamente”, salienta.