Anvisa diz que indústria está no limite de produção do kit intubação

Diretora da agência se emocionou durante reunião e afirmou que país está sob risco de desabastecimento

Noeli Menezes, da CNN, em Brasília
23 de março de 2021 às 17:16
UTI Covid-19
Estrutura de hospitais com leitos de UTI e enfermaria para o tratamento da Covid-19
Foto: CNN Brasil

A diretora da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Meiruze Sousa Freitas, disse nesta terça-feira (23) que a indústria nacional está “no limite” de sua capacidade de produção de medicamentos usados no processo de intubação. 

“O que se percebe dentro do nosso conhecimento de capacidade produtiva é que as empresas estão no limite de produção. Algumas empresas aumentaram em quatro ou sete vezes e tem empresas que dedicaram toda a sua produção aos medicamentos de intubação orotraqueal”, afirmou a diretora durante audiência pública da Comissão Externa da Câmara que acompanha as ações de enfrentamento à Covid-19. 

Segundo ela, o direcionamento da produção para o chamado “kit intubação”, composto por sedativos, anestésicos e bloqueadores musculares, também é preocupante, porque gera “risco de desabastecimento de outros medicamentos de linha”. 

Meiruze listou as ações adotadas pela Anvisa para enfrentar a escassez dos medicamentos, como a redução do período de quarentena ao qual os produtos teriam que esperar nos galpões das fábricas antes de serem liberados para o uso. Esse período passou de 15 dias para uma semana.  

A diretora da Anvisa ficou com a voz embargada ao falar da falta de medicamentos essenciais neste momento crítico da pandemia. “Muitas vezes, eu me emociono nesse processo. É dramático. É horrível saber que pessoas, neste momento, nos hospitais, estão sem acesso à assistência básica. Porque ter acesso à analgesia é assistência básica. Peço desculpas pela emoção”, declarou. 

Requisição administrativa

Durante a audiência, representantes do setor farmacêutico e de hospitais particulares criticaram a requisição administrativa dos medicamentos, principal medida adotada pelo Ministério da Saúde para contornar a falta do “kit intubação” na rede pública.

Ao decretar esse tipo de medida, o governo tem acesso de maneira compulsória aos estoques do medicamento disponíveis na indústria, podendo postergar o pagamento dos produtos. 

O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, alertou que as requisições administrativas podem afetar o abastecimento de hospitais particulares, que também estão com as UTIs lotadas com pacientes com Covid-19.

Ele deu como exemplo o estado de São Paulo, onde “80% das UTIs estão no setor privado e filantrópico”. Para Mussolini, a medida “veste um santo para despir vários outros” se o governo não “olhar o todo do Brasil”. 

Revisão de protocolos

A relatora da comissão, Carmen Zanotto (Cidadania-SC), afirmou que a falta do “kit intubação” tem forçado profissionais de saúde a adotar novos protocolos em casos graves da Covid-19.

Outros participantes cobraram do Ministério da Saúde o protagonismo nesse sentido, orientando hospitais de todos os portes em como proceder e sobre quais as alternativas disponíveis. 

“Neste período com esta nova onda da Covid, com esse vírus em mutação, a situação é muita mais complexa. Há vários pacientes aguardando leitos de UTI, nas UPAs e nos centros de triagem. Há profissionais de saúde debatendo a busca de alternativas e de criação de protocolos para substituírem os medicamentos padrões de intubação em função da falta real em alguns hospitais e outros com estoques baixíssimos", disse a parlamentar. 

Carmen acrescentou que a falta desses insumos aumenta ainda mais o estresse das equipes de saúde no atendimento aos pacientes e se soma ao quadro de falta de leitos de UTI, de oxigênio, de respiradores, entre outros itens. Ela lembrou ainda que pessoas com traumas ou que serão submetidas a cirurgias cardíacas também demandam esse tipo de insumo. 

Ausência

Os participantes da audiência criticaram a ausência do secretário de Atenção Especializada em Saúde do Ministério da Saúde, Luiz Otávio Franco Duarte, cuja presença estava confirmada para discutir a falta de insumos hospitalares.  

O presidente da Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Breno Monteiro, disse ser “uma pena que o representante do Ministério da Saúde não esteja aqui neste momento para que a gente possa ouvir as estratégias do MS e para que ele possa nos ouvir”. 

O deputado Marcelo Ramos (PR-AM), 1º vice-presidente da Câmara, também lamentou.

“É lamentável que nós façamos uma reunião num momento como esse sem um representante sequer do ministério porque temos um ministro demitido que está no cargo e um escolhido que não consegue assumir depois de oito dias de escolhido. Isso é uma tragédia também para o povo brasileiro.” 

A comissão não recebeu justificativa para a falta do secretário. A CNN questionou a pasta, mas não obteve resposta.  

O presidente da comissão externa, deputado Luiz Antonio (PP-RJ), afirmou que conversou com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que “garantiu presença na quarta-feira (31) na Comissão de Seguridade Social e Família para abranger todos os temas da pandemia”. Queiroga tomou posse nesta terça-feira (23). 

O deputado alertou, no entanto, esperar que a equipe do novo ministro mantenha a disposição de atender aos convites dos parlamentares como acontecia com os ex-titulares da pasta.  

“Espero que a gente continue com a equipe de Queiroga da mesma maneira que em 2020, com a equipe de [Luiz Henrique] Mandetta, [Nelson] Teich e [Eduardo] Pazuello, que convidados sempre compareceram. Nenhum tema deixará de ser tratado.” Caso contrário, os deputados vão convocar as autoridades, o que os obrigaria a comparecer.