Após contrato com Ministério, Butantan e Fiocruz terão caminhos opostos

Instituto paulista passará a fornecer vacina para os estados e prefeituras diretamente, fundação fluminense seguirá servindo o PNI e pode mirar outros países

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) realizam o diagnóstico do novo coronavírus
Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) realizam o diagnóstico do novo coronavírus Josué Damacena/IOC/Fiocruz

Pedro Duranda CNN

Rio de Janeiro

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A Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan tomarão caminhos opostos nos próximos meses no fornecimento das vacinas contra a Covid-19. A intenção da Fiocruz é manter exclusividade de entregas ao Programa Nacional de Imunizações. A diretoria da Fundação só prevê outros destinos para a vacina contra o coronavírus se o governo brasileiro decidir pelo caminho da ajuda humanitária.

“Vamos seguir fornecendo exclusivamente ao Programa Nacional de Imunização. Será possível com a capacidade instalada, em determinado momento, fornecer para outros atores da saúde global como OMS e OPAS. Isso quando o Brasil tiver avançado ainda mais na vacinação de sua população. Não há ainda estes indicativos, mas podemos ter muitos anos pela frente e nem todos os países estão conseguindo vacinar. Nesse sentido, acredito que o Brasil e a Fiocruz  poderão contribuir”, disse à CNN o vice-presidente de Produção e Inovação da Fiocruz, Marco Krieger.

Enquanto isso, o Instituto Butantan já começou a negociar com outros estados para venda direta. Foram acordadas a venda de 3 milhões de doses para o governo do Ceará, 500 mil para o Espírito Santo e outras 500 mil para o Piauí. A venda direta para três governos de partidos de esquerda (PT e PSB) recebeu o aval do governador João Doria (PSDB), que se tornou oponente declarado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e tem criticado a demora do Ministério da Saúde para repassar vacinas aos estados.

Em visita ao Rio no início do mês, o ministro Marcelo Queiroga afirmou que não estocava vacinas, que apenas submetia as remessas recebidas às análises dos órgãos técnicos. “O Ministério não tem estoques de doses. [Quando] essas doses chegam ao departamento de logística do Ministério da Saúde, é necessária uma autorização da Anvisa e é necessário que o INCQS libere. Assim que libera, a gente dispensa para os estados e municípios. A nossa campanha vai muito bem. Todas as narrativas que querem desqualificar a campanha nacional de imunização do Brasil estão batendo com a cabeça na parede”, afirmou.

A leitura de interlocutores de Doria ouvidos pela CNN é que essa venda direta eliminaria um ‘intermediador’, que seria o Ministério da Saúde, rendendo capital político ao governador que quer se tornar presidenciável mas ainda precisa de apoio interno. “A partir do dia 1º de setembro, nós atenderemos governadores e prefeitos que solicitaram a Coronavac para a complementação dos seus programas vacinais”, disse Doria em visita ao Rio de Janeiro no último final de semana. Ele ofereceu a vacina ao prefeito Eduardo Paes (PSD) e ao governador Cláudio Castro (PL), de partidos do centro.

As contribuições do Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz para o Programa Nacional de Imunizações tem sido bastante semelhantes. Até agora, o Instituto, que é ligado ao governo de São Paulo, já entregou 78,8 milhões de doses da Coronavac para o governo federal. Com sede no Rio de Janeiro, a Fundação ligada ao próprio Ministério da Saúde, já entregou 88,4 milhões de doses da vacina com a fórmula da AstraZeneca ao governo federal.

Mas as promessas terminam nos próximos meses. O contrato do Butantan prevê 100 milhões de doses. A expectativa do governo de São Paulo é bater a meta até o fim de agosto, 30 dias antes da data limite acordada com o Ministério da Saúde.

Já a Fiocruz tem como compromisso o dobro: 104,4 milhões de doses com ingredientes importados e outras 100 milhões já contando com a introdução da matéria prima nacional. A Fundação pode atualizar as expectativas de entrega dependendo da evolução dos processos na fábrica de BioManguinhos, mas afirma que tem mantido constantes as remessas ao PNI desde abril.

Questionado pela CNN sobre a venda direta aos estados e municípios, o Ministério da Saúde informou que a lei 14.124 já permite a negociação direta dos entes federativos com os fabricantes, mas que até o momento, não há informação oficialmente sobre nenhuma compra realizada por estados. Eles dizem oficialmente que “a pasta mantém diálogo com os laboratórios e segue em negociação” e que “trabalha diuturnamente para garantir a igualdade no envio das vacinas contra a Covid-19 para todos os estados”.

A nota ainda diz que o estado de São Paulo recebeu mais de 10 milhões de doses em agosto. “Somente nos últimos sete dias foram entregues mais de 4,6 milhões de doses para o estado. A população de São Paulo equivale a 22,3% da população brasileira”.

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