Correspondente Médico: Existe relação entre dengue e Covid-19?

Segundo o neurocirurgião Fernando Gomes, pessoas que contraíram dengue podem ter tido 'uma resposta inflamatória modulada de uma forma diferente' à Covid-19

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Na edição desta terça-feira (22) do quadro Correspondente Médico, do Novo Dia, o neurocirurgião Fernando Gomes aborda qual a relação possível entre dengue e Covid-19.

A conexão entre as duas doenças foi indicada por um estudo brasileiro, que mostrou que lugares em que grande parte da população contraiu dengue, no ano passado e no começo deste ano, demoraram mais tempo para ter transmissão comunitária da Covid-19. 

Segundo Gomes, o resultado possível dessa relação seria a prevenção de uma infecção viral feita por um sistema imunológico que se fortaleceu por meio de uma imunização cruzada. 

“Isso faz a gente pensar se existe uma resposta cruzada. São vírus de famílias diferentes, mas será que o sistema imunológico é capaz de interpretar um vírus, que tem algumas características semelhantes a outro, e produzir anticorpos que consigam destruir independentemente de serem de famílias diferentes?”, teoriza ele. “Chutou para um lado e acabou acertando o gol do outro”, comparou.

Outra hipótese, segundo Gomes, é que pessoas que contraíram dengue possam ter tido “uma resposta inflamatória modulada de uma forma diferente” à Covid-19.

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Correspondente Médico: O neurocirurgião Fernando Gomes
O neurocirurgião Fernando Gomes fala sobre resposta inflamatória e relação viral entre as duas doenças
Foto: CNN (22.set.2020)

“Ou seja, mesmo que venham a ter contato com o novo coronavírus, será que toda a cascata de inflamação – que acaba sendo o grande problema relacionado à Sars-Cov-2 – deixa de acontecer em toda sua magnitude e os casos são mais brandos? Provavelmente, a resposta vai estar em um desses dois elementos ou talvez em ambos”, afirma.

O neurocirurgião esclarece que os dois vírus – causador da dengue e da Covid-19 – “atuam em lugares diferentes do corpo”, mas destaca que essa reação imunológica independe disso, já que “as células do corpo são as mesmas”.

“Se eu tenho um comprometimento do sistema imunológico, o que acaba acontecendo é que as células que vão adoecer são as mesmas [nos dois casos]”, acrescenta.

Estudo

De acordo com o pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis, professor catedrático da Universidade Duke, na Carolina do Norte, há a possibilidade de que vacinas aprovadas ou em desenvolvimento para a dengue possam provocar alguma forma de proteção contra o novo coronavírus.

“Essa descoberta surpreendente levanta a intrigante possibilidade de uma reação cruzada entre o vírus da dengue e o SARS-CoV-2. Se comprovada correta em futuros estudos, esta hipótese pode significar que a infecção pela dengue ou uma eventual imunização com uma vacina eficaz e segura para dengue poderia produzir algum tipo de proteção imunológica para SARS-CoV-2, antes de uma vacina para SARS-CoV-2 se tornar disponível”, diz o estudo, visto com exclusividade pela Reuters, que foi enviado a um repositório de pesquisas a serem publicadas em revistas científicas.

O pesquisador ressaltou, em entrevista exclusiva para a agência Reuters, que já existem trabalhos mostrando que pessoas que têm sorologia positiva para dengue testam positivo para coronavírus sem ter coronavírus, sugerindo que essas pessoas produzem um anticorpo que age nas duas doenças. “Isso indica que existe uma interação imunológica entre os dois vírus que ninguém poderia esperar, porque os dois vírus são de famílias completamente diferentes”, afirmou.

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O estudo aponta uma significativa correlação negativa entre incidência, mortalidade e taxa de crescimento da Covid-19 e o percentual da população com níveis de anticorpos IgM para dengue nos Estados do Brasil, país que tem o terceiro maior surto de Covid-19 no mundo, com mais de 4,5 milhões, e o segundo maior número de mortes causadas pela doença, com quase 137 mil.

A observação foi feita por Nicolelis e sua equipe ao elaborarem um estudo sobre a disseminação geográfica da Covid-19 no Brasil e o papel das rodovias como fator de distribuição de casos. O cientista percebeu vazios de casos no mapa em determinadas regiões do país sem explicação aparente, e partiu em busca de possíveis explicações.

A resposta, segundo Nicolelis, apareceu ao analisar a distribuição geográfica dos casos de dengue no Brasil em 2019 e 2020, que ocupavam exatamente os buracos no mapa de casos da Covid-19. As curvas de casos das duas doenças reforçaram a descoberta, uma vez que o surto de dengue entrou em declive acentuado no país no mesmo momento da disparada do novo coronavírus.

“Foi um choque, foi um acidente total. Em ciência isso acontece, você está atirando para um lado e acerta no alvo que você nunca imaginou que iria atirar”, disse o pesquisador sobre a descoberta.

(Edição: André Rigue)

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